EDIÇÃO DIGITAL

Terça-feira

22 de Outubro de 2019

Mania em excesso não é brincadeira e tem nome: TOC

Transtorno Obsessivo Compulsivo é uma doença que pode ser tratada com remédios gratuitos pelo SUS

Meia hora antes de deitar, a criança de 10 anos ajeita o chinelo várias vezes ao lado da cama. Depois, leva uns minutos até encontrar a posição correta para dormir. Mais tempo se esvai até que a coberta se estique confortavelmente. Na hora de ver TV, é um senta-levanta sem fim para acertar a capa do sofá que sai do lugar e, ao conseguir olhar para a tela, um novo tormento: os objetos da estante estão desalinhados.

Há quem seja perfeccionista e reconheça um incômodo nessas cenas. Porém, ações repetitivas, sem sentido e compulsivas são doentias e têm nome: Transtorno Obsessivo Compulsivo (TOC). Trata-se de um problema psiquiátrico de ansiedade, sem cura, que pode surgir em qualquer idade. Mas tem tratamento com medicamentos, distribuídos gratuitamente no Sistema Único de Saúde (SUS).

Segundo o médico psiquiatra Sidney Gaspar, professor de Psiquiatria do curso de Medicina da Universidade Metropolitana de Santos (Unimes), uma característica que difere manias dessa doença é o tempo gasto nas tarefas envolvidas no TOC.

“Por exemplo: uma pessoa que arruma a gaveta e gasta minutos proporcionais para isso é normal. Mas quem fica o dia inteiro ou lava a mão 20 vezes é desproporcional”.

Acompanhamento 

Para apresentar melhora, a doença precisa de acompanhamento psicológico, além de psiquiátrico. A mãe de Roberto Kovacs – o menino que aos 10 anos apresentava os sintomas e hoje, aos 29, convive bem com o TOC, aprendeu isso rapidamente. Vilma Kovacs Efigênio, dona de casa de 59 anos, relembra as compulsões do menino.

“Levamos no médico e veio o diagnóstico. Lembro que o pai até ficava meio bravo porque ele acendia e apagava a luz várias vezes, mas a família toda aprendeu, com acompanhamento, que não adiantava brigar. Tinha que ser no tempo dele, senão piorava”.

Por que piora?

O psiquiatra, psicogeriatra e coordenador do internato em Psiquiatria do curso de Medicina da Unimes, Eduardo Calmon de Moura, conta que é preciso paciência, em especial com as crianças, porque as repetições são sintomas da doença.

“No transtorno, a pessoa não consegue escolher. Se alguém está fazendo algo repetidamente porque está ansioso e o outro pede para parar, gera mais nervoso e piora. Não é capricho”.

Paciente com TOC desde a infância, o próprio Roberto Kovacs contou que nos anos que se passaram entre variados tipos de remédio em uso, o melhor momento vivido foi enquanto passava por psicoterapia quinzenal. “Hoje, os sintomas estão controlados e não sinto o incômodo”.

Quando aparece?

De acordo com Gaspar, a doença pode aparecer na infância com maior frequência no sexo masculino, mas é mais comum adultos perceberem o problema já instalado, pelo incômodo gerado pela perda de tempo útil no trabalho ou no convívio social.

“É preciso verificar por que há também compulsão de pensamentos. Há quem se preocupe tanto com uma questão que não tem paz. É preciso pedir ajuda. Nos Estados Unidos, existem estudos que mostram que entre os sintomas e a busca do tratamento há um intervalo médio de sete anos. Quanto antes tratar, melhor a qualidade de vida”

 

Tudo sobre: