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Terça-feira

11 de Dezembro de 2018

Infectologista destaca importância de três pilares no combate à aids

Neste Dia Mundial de Luta contra a doença, Ricardo Hayden fala sobre prevenção, testagem e tratamento

Apesar das cidades da Baixada Santista apresentarem queda na taxa de detecção da aids, é necessário manter o alerta. A recomendação é feita neste sábado (1º), Dia Mundial de Luta contra a Aids, pelo infectologista Ricardo Leite Hayden, que destaca que a batalha contra a doença deve estar embasada em três pilares: prevenção, testagem e tratamento.

Conforme dados do Boletim Epidemiológico da Secretaria de Vigilância em Saúde (SVS), ligada ao Ministério da Saúde, duas cidades da Baixada Santista constam no ranking dos 100 municípios com mais de 100 mil habitantes onde há maiores taxas de detecção da doença, mas apresentaram melhora em suas marcas neste ano. Guarujá, 11ª colocada no ano passado, está em 28º agora. Santos deixou de aparecer na lista: era a 63ª em 2017. Porém, ainda superam a média nacional.

Apesar dos dados positivos, Hayden frisa que é fundamental prevenir os diversos grupos de risco, com uma linguagem apropriada para cada local. ''A linguaguem que um médico utiliza em uma comunidade ribeirinha no Alto Tapajós é diferente da que deve ser usada em uma policlínica de Santos, por exemplo''.

Segundo ele, a prevenção está interligada também aos medicamentos. "Quando você é identificado como portador do HIV, a chance de transmissão do vírus já cai de sobremaneira a partir do momento que começa a tratar, porque reduz a quantidade do vírus no sangue e no esperma, por vezes, a níveis muito baixos. A segunda medida é sempre usar preservativo e a terceira estratégia é a PrEP (Profilaxia Pré-Exposição). Se você é negativo, mas é casado ou tem um relacionamento com alguém positivo, deve tomar a PrEP, que é um remédio que combate o HIV, diminuindo mais a chance de transmitir o vírus", comenta.

PrEP, de acordo com o Ministério da Saúde, é uma combinação de dois medicamentos (tenofovir e entricitabina) em um único comprimido, que impede que o HIV se estabeleça e se espalhe pelo corpo.

Crítica

Na avaliação do médico, o Brasil reduziu muito o investimento em prevenção, campanhas, educação e informação continuada. "Neste dia, a imprensa nos procura e nós falamos sobre dados, tratamentos. Isso deveria ter continuidade por parte do governo, principalmente do Governo Federal, de traçar estratégias de prevenção continuadas. Tem que investir de forma muito mais pesada em grupos de homens que fazem sexo com outros homens, em mulheres trabalhadoras do sexo, heterossexuais com trocas constantes de parceiros, usuários de droga injetável e aspirada, por exemplo. Esses grupos também podem contrair hepatite, sífilis e outras doenças''.

Combinação de medicamentos reduz chance de transmissão do vírus (Foto: Rogério Soares/AT)

Ricardo Hayden também sugere que a testagem para HIV/Aids deveria ser facilitada e massificada pelo Ministério da Saúde, defendendo a prática de forma frequente e habitual até mesmo em grandes eventos, como o Carnaval. 

Na última terça-feira (27 de novembro), o Ministério da Saúde anunciou que, a partir de janeiro de 2019, a rede pública de saúde passará a oferecer o autoteste de HIV para populações-chave e pessoas em uso de medicamento de pré-exposição ao HIV. A previsão é que sejam distribuídas, ao todo, 400 mil unidades do teste. Entre as cidades escolhidas para receber esse material está Santos. Hayden é um defensor do autoteste.

''Mas o teste tem que ser precedido de algumas explicações. Não se pode vender como teste de gravidez. Se der positivo, você tem que fazer os confirmatórios, e para isso tem um algoritmo, publicado em Diário Oficial, obrigatório por parte do Ministério da Saúde. O teste rápido é uma flexibilização da testagem, o que eu acho muito útil", analisa o médico, que também ressalta que a identificação a partir da testagem auxilia no tratamento dessas pessoas.​

Tratamento do HIV/aids

O Ministério da Saúde também divulgou dados que mostram uma redução de 16% dos casos e óbitos por aids no País nos últimos quatro anos. Parte desta queda é atrelada ao tratamento com antirretrovirais, como o uso do remédio "três em um", medicamento composto pelas substâncias Tenofovir, Lamivudina e Efavirenz, que já são usadas separadamente para reduzir a quantidade do vírus HIV no corpo e aumentar as defesas do organismo, diminuindo a progressão da doença.

"Foi um avanço muito significativo em comparação a três ou quatro anos atrás. Você passou a tomar uma única pastilha à noite''.

Mas Hayden alerta que a eficácia do tratamento e a queda do número de óbitos têm feito com que as pessoas, geralmente jovens, deixem de seguir os métodos preventivos. Segundo ele, a percepção de melhora e a falta de histórico para pacientes mais novos, que muitas vezes não têm pessoas próximas morrendo de aids, dão uma falsa sensação de segurança e de invulnerabilidade.

Diferenças entre portador do HIV e aids

A instituição do Dia Mundial de Luta contra a Aids completa 30 anos em 2018. Entretanto, conforme o especialista, ainda há quem confunda uma pessoa com aids e um indivíduo portador de HIV. ''Há pessoas que nunca desenvolveram a aids, mas são portadoras do vírus HIV. Progressivamente, o vírus vai derrubando a imunidade da pessoa até que surgem determinadas infecções ou câncer ligados à aids. São as doenças definidoras de Aids", destaca.

"Quanto mais tempo passa com infecção, a pessoa vai caminhando para a doença. Você encontra pessoas com diagnóstico tardio, pessoas já com Aids, mas se você tiver um pouquinho de traquejo e de sorte também para o paciente não desenvolver nenhuma doença grave, em cerca de 180 dias, ele consegue controlar o vírus, melhora suas defesas e sai da doença Aids para portadora do vírus HIV", finaliza.