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Domingo

19 de Maio de 2019

Lei visa acolher e prevenir vítimas da automutilação

Prática é ligada a transtornos mentais e ocorre mais com jovens

“Eu fiquei assustada. No começo, não soube nem como reagir e nem ela me explicar o motivo daquelas marcas nos braços e nas pernas, que ficavam escondidas debaixo da roupa. Mas ainda bem que percebi e fomos buscar ajuda”. O relato é de uma mãe que descobriu que a filha, na época com 16 anos, se automutilava. Conhecida também como cutting, a prática é definida como uma agressão ao próprio corpo, na tentativa de aliviar uma dor emocional.

No Brasil, é difícil encontrar dados específicos, mas, mundialmente, estudos apontam que cerca de 30% dos jovens em idade escolar – faixa etária mais afetada – se automutilam. Com o objetivo de criar uma rede de proteção e conscientizar sobre o tema, o Senado aprovou o Projeto de Lei 1.902/2019 que instituía Política Nacional de Prevenção da Automutilação e do Suicídio que, agora, aguarda sanção presidencial.

Para especialistas, a medida é extremamente bem vinda, mas precisa ter amplitude e garantir capacitação dos envolvidos.

Projeto

De autoria do ex-deputado e atual ministro da Cidadania, Osmar Terra, a proposta define medidas como a implantação de um número telefônico gratuito para que as pessoas possam ligar para conversar, nos moldes do Centro de Valorização da Vida (CVV-188).

Além disso, o projeto também prevê que hospitais, postos de saúde e escolas sejam obrigados a informar às autoridades sanitárias os casos suspeitos ou confirmados de automutilação. Caso haja o envolvimento de crianças e adolescentes, o Conselho Tutelar deverá ser acionado.

“É fundamental que a gente consiga ter noção do problema, por isso, é importante a questão da notificação. Esses dados irão colaborar com as políticas públicas”, avalia Karen Scavacini, psicóloga e diretora do Instituto Vita Alere de Prevenção e Posvenção do Suicídio.

Por outro lado, a psicóloga, que também é da Associação Brasileira de Estudos e Prevenção de Suicídio, aponta como fundamental capacitar e qualificar as pessoas responsáveis pelas primeiras abordagens e da notificação para que não exponham os envolvidos, piorando os casos.

“Também é preciso pensar o que será oferecido, a partir da identificação, com a pessoa que está passando pelo problema e a sua família. Eles terão atendimento psicológico garantido? Vão ser atendidos no Caps?”, questiona.

Até porque, como explica Jackeline Giusti, psiquiatra da Infância e Adolescência do Serviço de Psiquiatria da Universidade de São Paulo (USP), a automutilação acontece por conta de um sofrimento anterior e exige que a sociedade debata um tema mais amplo, que é a questão da saúde mental dos jovens.

“A automutilação pode estar associada a quadros de ansiedade e depressão e são casos que vêm aumentado”, avalia Jackeline que estuda o tema desde 2005. Para ela, é preciso entender o assunto dentro da questão da saúde mental. “Não existe automutilação sem sofrimento anterior”. Caso aconteça, será uma experimentação, um episódio único.

Causas

Para as especialistas, são vários os motivos que levam os jovens a sofrerem mais. Além das características inerentes à idade, como a imaturidade e o imediatismo, eles não estão conseguindo lidar com as frustrações. Além disso, com a internet, tudo fica amplificado.

“As fofocas, a exposição, tudo é muito grande. Se você erra, está tudo na rede. Fora isso, as redes sociais podem dar a impressão que a vida dos outros é sempre linda e perfeita, causando frustração”, enumera Jackeline. Para piorar, os jovens passam cada vez mais tempo conectados.

Aproximar as famílias, capacitar as escolas e ter políticas públicas eficientes são questões apontadas como necessárias para melhorar o cenário.