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Quarta-feira

12 de Agosto de 2020

Conexão Itália: Veneza afundará um dia?

Maior enchente dos últimos 50 anos ocupou praticamente toda a cidade. Relato é do colunista Paulo Henrique Cremoneze

Nesta minha última visita à Itália, passei por Veneza. A beleza da cidade não é pouco conhecida. Depois de Roma, penso eu que seja essa capital do Veneto a cidade mais exuberante do mundo. Parte da minha família é da região, o que me faz ter um apreço ainda maior por lá. 

Sendo especialista em Direito do Seguro, pessoalmente tenho Veneza como uma das cidades mais importantes, sede de uma poderosa companhia de seguro com atuação em dezenas de países. 

Sua riqueza histórica é imensa. Não seria possível trazer alguns dos eventos mais notáveis sem violar os limites de espaço. Por isso, cito dois deles que me são bem caros ao coração: 1) os venezianos enviaram centenas de embarcações à cidade portuária de Trani, região da hoje Puglia, de onde os cruzados partiam para a Terra Santa; e 2) foram os próprios venezianos e sua Marinha que encabeçaram a frota comandada por Dom João da Áustria na gloriosa Batalha de Lepanto, em que os católicos impediram a conquista da Europa pelos muçulmanos. O lema “vencer ou morrer” do grande líder cristão era também o do bravo povo de Veneza.

Lindíssima cidade, lindíssima história.

Tão logo parti, porém, vieram as águas do mar; e a cidade submergiu. Histórica e bela.

Essa enchente, a maior dos últimos 50 anos, ocupou praticamente toda a cidade. As águas alcançaram quase um metro e setenta centímetros de altura, em cenas que o mundo inteiro acompanha com o espanto no rosto.

Enchentes são comuns em certas épocas do ano, os cidadãos até se acostumam. Mas essa passou de todos os limites, com prejuízos que já atingem a marca aproximada de um bilhão e meio de euros. Quase sete bilhões de reais.

Enquanto isso, o governo italiano faz o possível para minimizar os efeitos da tragédia. Esforços internacionais também se têm direcionado à rápida recuperação. Afinal, Veneza não brilha apenas como uma joia da Itália: reluz como tesouro da humanidade inteira. 

Em breve, a cidade deve então se recuperar, o pranto deve se converter em dança, e Veneza ressurgirá, ilustre como sempre, a exibir seu esplendor.

Frente a uma enchente assim tão grande, é de se considerar que possam vir outras no futuro. Menores e maiores do que esta. Sendo menores, muito que bem; sendo maiores, a coisa complica.

Talvez Veneza um dia se deixe arrastar pelas águas definitivas, talvez se deixe um dia vencer pela insistência do mar. É possível. Mas não hoje. Não ainda.

Paulo Henrique Cremoneze é advogado e escreve na coluna Conexão quinzenalmente, aos sábados; sua coluna é publicada nesta terça-feira (26) excepcionalmente.

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