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Sábado

16 de Novembro de 2019

Conexão Austrália: Pesquisa mostra opinião de australianos sobre religião

Dado importante trazido pela pesquisa é que a fé que uma pessoa professa não determina o que ela é

Morar do outro lado do mundo abre a cabeça para muitas coisas: culturas de todos os cantos do planeta, comidas, comportamentos e atitudes diversas. Quando o assunto é religião, em geral as pessoas se tornam muito mais abertas ao que é diferente. Andar nas ruas do Brasil e encontrar uma mulher de burca – a veste escura que cobre todo o corpo, da cabeça aos pés, usada por mulheres muçulmanas – é algo raríssimo.

Aqui, nem tanto. Isso porque na Austrália tem gente do mundo inteiro e, nesse arcabouço, também encontram-se as crenças e religiões. Pesquisa recente realizada pela ABC News, importante grupo jornalístico local, trouxe um pouco mais de informação sobre a opinião dos australianos sobre religião.

A pesquisa, chamada de Australia Talks National Survey, ouviu 54 mil australianos sobre religião. Dentre as revelações, está um contraponto. Apesar de a maioria dos australianos acreditar que há certa discriminação contra as pessoas que professam sua fé mais abertamente, eles também pensam firmemente que cada um deve ficar na sua. Nada de ficar nos ônibus ou na rua tentando convencer que este ou aquele Deus é o melhor. 

No quesito discriminação, tanto devotos quanto não-religiosos entram em acordo. Entre os australianos sem religião, 68% concordaram que há discriminação, assim como 74% dos católicos, 72% dos protestantes e 74% das “outras religiões”. 

E mesmo concordando neste aspecto, a maioria prefere que cada um guarde sua fé para si. Para 60% dos entrevistados, o melhor é ficar quieto. No grupo dos não religiosos, esse número sobe para 73%. O interessante é que entre os católicos, 53% concordam que religião é assunto privado; entre pessoas de outras religiões, o número cai para 47%. Já os protestantes estão mais propensos a professar a fé mais abertamente e apresentaram a menor porcentagem, com 39%. 

Na pesquisa, católicos e protestantes estão agrupados porque apenas esses dois grupos religiosos forneceram uma amostra grande o suficiente para isolá-los de maneira estatisticamente confiável.

Segundo o censo realizado na Austrália em 2016, 2,6% dos australianos afirmaram seguir a religião do Islã, 2,4% são budistas, 1,9%, hindus e 0,4%, judeus. Os católicos apresentam-se como o principal grupo religioso, representando 23% da população, enquanto 13% se identificam como anglicanos e 16% como cristãos de outras igrejas. 

Outro dado importante trazido pela pesquisa é que a fé que uma pessoa professa não determina o que ela é ou como ela se identifica. Aqui na Austrália, a crença religiosa está longe de ser um determinante dominante da identidade, status social ou mesmo atividade social.

Os entrevistados pela ABC News tiveram que elencar oito aspectos que definem “sua identidade” e dar uma pontuação de acordo com a importância. A religião apareceu por último. As preferências políticas receberam a maior pontuação, com 6,4. Gênero, etnia ou orientação sexual receberam 4,7. 

Esta percepção também se reflete na busca pela religião. Apenas 15% dos entrevistados pensam que o país estaria melhor se mais pessoas fossem religiosas. 

Uma outra revelação é sobre o nível de confiança da população nos líderes religiosos: 70% da população afirmam não confiar muito. Para 35% dos entrevistados, os religiosos não são confiáveis “de maneira alguma”. Até mesmo entre os seguidores das religiões, há desconfiança.

Os protestantes são os mais obedientes entre os fiéis; 58% deles confiam em sua liderança religiosa. Entre os católicos, este número cai para 47% e, em outras religiões, o índice chega a 49%. Os níveis de confiança são mais altos para os médicos e enfermeiras (com 97% de confiança) e para cientistas (93%).

É interessante também ver que, apesar da diversidade das crenças, a religião parece estar mais distante do dia a dia das pessoas. Bem diferente do Brasil.

Sobre a autora

Fabiana Marinelo é profissional de comunicação empresarial e jornalista. Ela escreve na coluna Conexão quinzenalmente, às sextas-feiras.

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