Projeto ameniza as dores da pandemia com solidariedade

Quarentena da Comunidade nasce após interrupção de atividades do programa Tia Egle, em Santos, levando esperança a quem precisa

O impacto de uma pandemia é amplo. Difícil encontrar alguma família que não tenha mudado uma coisa sequer na rotina por prevenção, medo, luto ou obrigação. Porém, nas casas mais vulneráveis, os reflexos da Covid-19 são ainda mais duros. Nas residências que já foram invadidas por enchentes, fogo, desemprego ou falta de oportunidades, o novo coronavírus chega com o pé na porta. É aí que a força das comunidades faz toda a diferença e salva. Sonhos e vidas.

Uma das ações que garantem a sobrevivência de famílias da região, principalmente na Zona Noroeste em Santos, é o projeto Quarentena da Comunidade. O foco da ação é encontrar quem pode ajudar e quem precisa dessa ajuda, fazendo da sede da entidade um elo de amor e força. Lá, são distribuídas diariamente às famílias mais vulneráveis marmitas, máscaras e kits de higiene e limpeza. Tudo para ajudar no combate ao coronavírus. 

Além disso, o projeto vai atrás de doações de brinquedos e livros para crianças que estão em casa neste momento de distanciamento social e restrições impostas pelo Poder Público.

Origem

O Quarentena da Comunidade nasceu do Projeto Tia Egle, que teve que interromper as atividades presenciais que há anos atende crianças e jovens da Zona Noroeste.

“Quando fechamos temporariamente o projeto, por conta da pandemia, a gente já vinha de outras tragédias, como deslizamento no morro após as chuvas e um episódio de incêndio. A comunidade já estava muito impactada, inclusive emocionalmente”, lembra Egle Rodrigues Pereira, a Tia Egle, responsável pelo programa.

Por isso, quando a pandemia chegou de forma avassaladora, reduzindo renda, cortando empregos e virando a rotina de todos de cabeça para baixo, o impacto nas famílias da periferia foi grande.

“Decidimos fazer alguma coisa porque a vulnerabilidade aumentou muito. Nossas meninas estavam passando atividades para as crianças fazerem na internet e também mandavam atividades impressas. Mas era necessário ir além”, conta Tia Egle.

Reforço

Foi aí que ela, com a ajuda de voluntários da própria comunidade e de empresários, foi em busca do que muitas famílias estavam precisando: comida, roupas, produtos de higiene, orientação e força.

“É difícil manter uma família de seis pessoas, num barraco sem saneamento básico. É muito complicado. Não se tratava de uma questão de irresponsabilidade do pessoal da Zona Noroeste. Graças a Deus, recebemos doações de todos os lugares”.
Assim, o Quarentena da Comunidade foi se estruturando dia após dia. A equipe da Tia Egle recebeu reforço de mães que foram, por exemplo, ajudar a higienizar roupas e brinquedos doados. Por outro lado, além de famílias que podiam, também conta com a ajuda de empresários e programas como o Mesa Brasil, do Sesc, que doa marmitas. 

Mobilização é bem-vinda e ajuda a superar efeitos da covid-19

“Eu sou cuidadora de idosos e perdi meu trabalho nesta pandemia. Mas, graças um anjo chamado Tia Egle, as coisas em casa melhoraram muito”, conta Edislaine Conceição de Sousa, de 29 anos. Ela, que tem quatro filhas e mora no Rádio Clube, em Santos, não estava recebendo o auxílio emergencial de R$ 600,00, do Governo Federal, nos primeiros meses de quarentena.

Por isso, reconhece que estava no sufoco quando o projeto Quarentena na Comunidade a chamou para receber a primeira cesta básica. A ajuda continua chegando até hoje por meio de alimentos, produtos de limpeza e carinho.

"Fico pensando o que seria da vida da gente sem trabalhar e com nossos filhos para alimentar. Comecei agora a receber o auxílio emergencial. Antes, era de chorar, tamanho o desespero. Em uma casa de palafitas, com quatro filhos, não era fácil”, desabafa Edislaine, que hoje consegue até oferecer ajuda, servindo também de voluntária.

Aprendizado

“Quando fui mandada embora, foi para cá que eu vim. Aqui aprendi a parar de reclamar e olhar para o outro. Todo mundo precisa de dinheiro, claro, para resolver suas coisas, mas nesse momento, poder ajudar é satisfatório”, afirma Veronica Rabello, 36 anos, moradora do Caminho da Divisa.

No momento, ela não está trabalhando. Então, além da ajuda material que recebe, tem ainda um auxílio mental. “Está mais fácil passar por essa pandemia de mãos dadas com minha comunidade”.

Edislaine teve dificuldades enquanto não recebia auxílio emergencial (Foto: Alexsander Ferraz/AT)

 

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