Projeto 'Amigos do Bem' promove transformações no sertão nordestino

Projeto foi criado pela empresária Alcione Albanesi em 1993

“É onde o verde acaba e chega a seca”. A imagem do árido sertão dos estados de Alagoas, Ceará e Pernambuco é o cenário de uma revolução social. À frente dela, uma empresária de sucesso, que decidiu trocar as grandes rodas de negócios pelo olho no olho com as pessoas de um Brasil esquecido. 

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Alcione Albanesi, fundadora da FLC, uma das grandes do mercado de lâmpadas no País, criou o projeto Amigos do Bem em 1993. A “mãe” de 75 mil “filhos” não se arrepende da decisão, muito pelo contrário. A guerreira social, comandante de um exército de 10.300 voluntários, gosta mesmo é de espalhar amor – e poder contar as conquistas dos seus “herdeiros”.

“Passo dez, doze dias, todos os meses, no sertão. Quando começou a pandemia, não quiseram que eu fosse, com medo. Tenho 75 mil filhos, e dez mil deles estão na escola. Tem que ver a diferença que já fez! Hoje temos jovens na faculdade quebrando um ciclo de miséria. É a primeira geração que estuda, são mais de 500 jovens”, relata Alcione.

A Educação, por sinal, é uma bandeira fincada por ela no projeto. “Temos, diariamente, a alfabetização obrigatória. Quem é analfabeto, não é livre. E queremos pessoas livres. Às vezes, uma pessoa chega para mim e fala: “Eu estou com 40 anos, minha cabeça é ruim, não aprendi”. Respondo com outra pergunta: quantos anos você vai viver? ‘Até 80, como meu pai’. Vai ter mais quarenta anos sem ser livre?”, questiona a empresária.

Os números, de fato, são superlativos. Os Amigos do Bem construíram quatro Centros de Transformação, onde mais de 10 mil crianças e jovens participam diariamente de atividades educativas e culturais. Eles têm reforço escolar, atividades extracurriculares e também cursos profissionalizantes de culinária, cabeleireiro, informática e manicure.

Com o objetivo de gerar renda e desenvolver o potencial de cada região, foram construídas Fábricas de Beneficiamento de Castanha e de Doces e Oficinas de Costura e de Artesanato, que geram mais de 1.100 empregos no sertão. Toda a renda obtida com a venda dos Produtos 100% Solidários é revertida para os projetos educacionais e de transformação de vidas.

Medo de gente

Alcione lembra que tudo começou por conta de uma viagem para o Nordeste na década de 1990. O impacto com o que viu a mudou para sempre. “Começamos a ver uma parte do nosso País, que nem acreditava que existisse. Pessoas sem saber em que ano que estavam. Tivemos que tirar a roupinha do Papai Noel, porque eles se assustavam, nem sabiam que existia. Crianças correndo sem roupa, adultos com roupas rasgadas. Pessoas com fome, gente assustada com gente. Essa viagem me trouxe uma profunda transformação”, atesta.

Durante 10 anos consecutivos, ela viajou ao sertão na época do Natal, levando roupas, alimentos, brinquedos e cadeiras de rodas. “Mapeamos os locais mais carentes do Nordeste. Vi algo muito pior do que se sabe. Quando se vê uma foto, se vê algo por fora. Quando você entra na vida da pessoa, olha nos olhos delas e vê a lágrima caindo, junto com a expressão de uma vida toda. Ver filhos pedindo comida e não ter. Andar 20, 30 km pra buscar um balde d’água. É muito distante da nossa vida. Quando você vê que isso existe, e você vai entrando mais na vida deles, não há como isso não nos modificar”. A semente do fazer o bem estava mais que plantada.

Em 2014, com a FLC em alta, Alcione teve que tomar uma decisão. O projeto também estava crescendo muito. “Foi quando decidi vender a minha empresa e cuidar das pessoas. Quando me perguntam o que eu faço, respondo que cuido de gente”. Simples assim.
Oferecer dignidade para milhares de pessoas é um mantra para os Amigos do Bem. E, muitas vezes, atuando onde o Poder Público passa longe. Tanto que é contabilizada a construção de 123 cisternas e 50 poços artesianos. 

Milhares de pessoas, que chegavam a andar quilômetros em busca de água, não passam mais sede. Mais de 845 milhões de litros de água são distribuídos por ano nessas regiões. 

Mas o que salta os olhos de Alcione é a oportunidade de ver que vidas foram transformadas pela iniciativa dela e de um grupo de pessoas. As crianças, agora, correm é para abraçá-la. “As criancinhas que correram assustadas, hoje estão trabalhando, ganhando dinheiro. Muitas já são nossas pedagogas, se formaram. Tudo isso administrado por São Paulo, por voluntários, cada um da sua área, que vai colaborando”. Todos venceram, guiadas pelo caminho de uma pessoa, literalmente, iluminada.

Doações

Alcione Albanesi conta que o projeto não recebe nenhuma verba de governo. “Temos doações, os colaboradores mensais, que dão 30, 50, 100 reais. Fazemos campanhas, temos a renda dos produtos, 100% revertida para a área de Educação. Só que a renda dos produtos ainda é muito baixa, porque nossas fábricas não podem ser automatizadas, visto que precisamos gerar trabalhos manuais, que geram um custo maior, e não dá para competir no mercado. O que nós temos são doações. E a gente precisa muito de doações. A pessoa entra em nosso site, clica em “como doar”. Estamos “pedalando na subida”. Mais informações no site e nas redes sociais (Facebook e Instagram), no @amigosdobem. 

Uma trajetória de ousadia

A trajetória empresarial de Alcione Albanesi também é inspiradora. A jovem que insistiu que precisava aprender inglês e fazer intercâmbio nos Estados Unidos, onde trabalhou de babá, e desbravou a China no início do boom das importações para o Brasil resume uma carreira vitoriosa, mas longe de ser fácil. 

Legenda: Alcione Albanesi, fundadora do projeto

De modelo, passou a dona de confecção. Parceria de grandes marcas, chegou a ter 80 funcionárias, para dar conta da grande produção. Até que conheceu a Rua Santa Efigênia, reduto de produtos eletrônicos em São Paulo. Ao ouvir que todos ali eram prósperos, quis a sua fatia desse generoso bolo. Mas sofreu com o desdém da vizinhança. A situação foi revertida com categoria. 

“Na Santa Efigênia, havia só homens. Eu não podia sair: saía e falavam “vai lavar louça, vai cozinhar”. Um dia, resolvi enfrentar o problema dessa rua. Quando mexiam comigo, eu respondia: “Oi, tudo bem”? Sou sua vizinha”. Fui construindo pontes. Aquilo que era um problema, virou solução. Em menos de três dias, todo mundo das lojas já eram meus amigos”, conta Alcione. 

Apagão? Não, inspiração

Em 1992, fez a primeira viagem à terra da Grande Muralha. Não sabia mandarim e nem tinha a garantia de que faria negócios na China. Foi quando viu uma lista telefônica, tipo Páginas Amarelas. “Desci na recepção e perguntei se tinha iluminação. E tinha. Mandei um fax para as empresas: “Sou uma empresa brasileira querendo comprar lâmpadas”. No outro dia, chegaram os fornecedores, carregados de pacotes de lâmpadas. Comecei minha empresa, fiz minha primeira compra, de 330 mil lâmpadas. Todas erradas. Elas não funcionavam”, descreve.

Assimilado o revés, Alcione voltou para a China. Conseguiu dinheiro e começou a comprar as lâmpadas eletrônicas, que substituiriam as incandescentes. Uma aposta certeira. “Temos uma intuição, a gente tem uma liderança com mais sensibilidade. Se todos nós escutarmos nossa intuição...”, avalia. Quando a concorrência se deu conta, já havia abocanhado 36% de market share. Tudo isso sem descuidar do lado mãe – tem três filhos, sendo duas gêmeas.

Era a personificação da mulher forte, que não enverga facilmente. Exatamente como as que acolhe no Amigos do Bem. 
“Nosso resultado está diretamente impactado pelo nosso esforço, pela dedicação àquilo. Você colhe o que planta. O resultado depende do nosso esforço. Minha vida foi sempre assim. Deus nos escolheu para gerar a vida, mas a mulher consegue fazer muitas coisas ao mesmo tempo. E as fazemos bem”, resume. 

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