Torcedor do Santos, Marcelo Tas fala da paixão pelo clube e da decepção com Bolsonaro

"A filosofia do Santos, de valorizar os jovens, tinha que servir de exemplo ao Brasil enquanto nação", diz Tas

Apresentador, ator, escritor e roteirista, Marcelo Tas não esconde o amor pelo Santos. Em entrevista para ATribuna.com.br, o ilustre torcedor alvinegro fala sobre a amizade com o seu maior ídolo no esporte, o Rei Pelé, relembra alegrias e frustrações sentidas por causa do time da Vila Belmiro, além de outras histórias vividas como torcedor alvinegro ao longo dos seus 60 anos. E, em tempos de polarização, também comenta a situação política do Brasil.

Qual a  primeira recordação como torcedor do Santos?
Eu passava um mês do verão em Santos e, para mim, quando criança, aquilo era quase uma viagem interplanetária. Sou de Ituverava, que fica a 400 quilômetros de São Paulo. Para chegar em São Paulo já era uma aventura e, depois, ainda tinha que ir para Santos. Sempre ficávamos no Gonzaga, e, um dia, eu estava sentado na calçada, brincando com  meus primos, e estacionou um Mercedes. Nunca tinha visto um Mercedes na vida. Saiu de dentro desse Mercedes o Pelé. Eu devia ter 7 ou 8 anos. Na minha família só tinha corintiano e são-paulino. O meu pai (Ezio) era são-paulino, e o meu tio (Rubito), dono do apartamento em Santos, era corintiano roxo. E eles estavam todos naquela fase de tentar me convencer a torcer para Corinthians e São Paulo. Quando o Pelé desceu do carro, eu fiquei paralisado.  Meu pai e meu tio, então, fizeram a burrada – para eles – de prometer que me levariam a um treino do Santos. A partir daí acabou. Fiquei na beira do alambrado e vi Carlos Alberto, Clodoaldo, Pelé, Edu... Como eu ia torcer para São Paulo ou Corinthians depois disso? (risos) 

Ainda tem o hábito de ir ao estádio?
Gosto muito de assistir aos jogos na Vila. Tenho um carinho especial pela Vila. Não sou muito de ir a estádios. Tudo depende de onde vai ser o jogo. E a Vila é o meu estádio preferido. Infelizmente, faz um tempinho que não desço (a Serra). Gosto de pegar jogo de quarta-feira à noite.

Ainda fica nervoso ou já consegue ser um torcedor mais equilibrado?
Claro! Não faz sentido você ir para o estádio e ser um torcedor equilibrado. O estádio é um lugar de catarse. Lembro, em 2008, do dia em que chegou a hora de levar o meu filho Miguel para o estádio. A minha mulher é são-paulina, e ele (filho) começou a se interessar por futebol, mas não tinha um time. Então concordamos que  ele escolheria o time dele. O Santos estava numa fase muito ruim e encarou o Cruzeiro, líder do Brasileiro, na Vila. Pensei: 'Vou arriscar!'. Levei o Miguel comigo. Foi um sufoco. O time estava muito mal e, com medo de ver o meu filho escolher o São Paulo, comecei a xingar muito  o juiz e os jogadores. Teve um momento em que o Miguel me perguntou: 'Papai, pode xingar?'. Devolvi o olhar e respondi: 'Filho, aqui pode!'. A partir dali, foi incrível o que nós nos divertimos. No final, o Santos ainda ganhou de 2 a 1. Hoje, salvo pela sorte, o meu filho é santista (risos).

Quem é o seu maior ídolo como jogador do Santos?
Edson Arantes do Nascimento. Esse cara é único. Já estive com ele em vários momentos. Além de situações pessoais, como profissional entrevistei ele algumas vezes. É uma figura muito espontânea. Trata todos do mesmo jeito. Tenho uma alegria muito grande por ter amizade com  meu maior ídolo. 

E o título mais especial?
A Libertadores, de 2011, no  Pacaembu, foi muito legal. Eu estava lá com o meu filho Miguel. Esse título foi bem legal.

A conquista da Libertadores, em 2011, foi um dos títulos mais especiais para Tas (Foto: Rodrigo Fuzar)

Aquela Libertadores foi a maior alegria o Santos te proporcionou?
Eu falo isso e as pessoas acham que é arrogância, mas não é. Quando você torce para o Santos, essa contabilidade de títulos não é tão importante. Primeiro porque nós temos muitos títulos mesmo. Depois, porque a minha identificação com o Santos é a brincadeira do jogo. Jogar o jogo bonito. Principalmente a história dos Meninos da Vila. Acho lindo o clube que preza a sua base e a formação educacional dos jogadores. Creio que os títulos dos Paulistas de 2010 e 2011, nos quais o Neymar sambou na cara de todo mundo, foram os mais divertidos que vi. Torcer para o Santos é lúdico. 


Qual a maior frustração com o Santos?
O ano em que dividiu o título paulista com a Portuguesa, 1973. Tudo por conta do Armando Marques, que contou errados os pênaltis. Eu era garoto e fiquei revoltado.  

Além do seu filho, já conseguiu influenciar outras pessoas a torcerem pelo Santos?
Não faço isso. O meu filho é santista porque chegou uma hora e ele precisou decidir. Não sou esses chatos que ficam tentando convencer. Mas eu entendo. Tem gente que gosta de futebol planilha. Aí, nesse caso, é melhor torcer para o São Paulo (risos). O torcedor do São Paulo gosta de acompanhar tudo por meio de uma página de Excel. Sabe exatamente o dia em que o Rogério Ceni bateu uma falta. Não gosto. Brinco com o São Paulo, porque a minha mulher é são-paulina, mas respeito todos os clubes. Gosto muito da torcida do Corinthians, acho bonita a paixão que eles  têm pelo clube.

Tas tem Pelé como o maior ídolo no futebol e tornou-se amigo pessoal do Rei (Foto: Gabriel Rinaldi)

Existe explicação para um mesmo clube revelar Pelé, Robinho, Neymar e outros craques?
Existe, e a explicação é muito simples: Meninos da Vila. A valorização dos jovens e das crianças. Essa filosofia do Santos tinha que servir de exemplo ao Brasil enquanto nação. Essa é a forma de educação da Finlândia, dona da primeira posição em educação no planeta.   

Como você vê o momento político do Brasil?
Com tristeza, por reconhecer a decepção que nós temos, sob o ponto de vista de quem elegeu o atual governo, de que ele não corresponde à expectativa da razão de ter sido eleito.  Respeito o voto de quem escolheu o Bolsonaro. Mas ele foi escolhido para que interrompesse uma política que ninguém quer mais. A de corrupção, de interesses e  da velha política. Até aí havia sim uma expectativa de que, mesmo sendo uma pessoa truculenta, autoritária, misógina, que é muito complicada emocionalmente, pudesse avançar nesse sentido. Essa é grande decepção. Além de ser tudo de ruim que eu já sabia que era, ele está fazendo a velha política, que atende aos interesses dele e dos grupos dele. O Bolsonaro não tem a sensibilidade de olhar para a nação. Ele não é digno desse cargo.  

E essa polarização política? É importante? Negativa? Positiva?
Não tem problema nenhum gente que pensa diferente. Pelo contrário. Isso é democracia. A cilada que temos que evitar é ficar só na lama do claro ou escuro. Essa visão pequena. E isso vale para o futebol também, de querer matar o torcedor do outro lado da arquibancada.  Dá pra construir um país com visão diferente, sim.

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