Jornalistas escrevem artigos sobre os 80 anos do Rei Pelé

Confira textos de Mauro Beting, Carlos Conde, Carlos Eduardo Souza, Mário Jorge de Oliveira e Márcio Calves

É 10 e 80! O Rei real

Por Mauro Beting

As pessoas que não O conheciam sabem que Ele é Pelé há 64 anos, quando chegou ao Santos - o clube de Pelé. Há 63 anos ele vestiu a amarelinha pela primeira vez - a seleção de Pelé. Há 62 anos Ele conquistou o mundo pela primeira das três vezes - o mundo de Pelé. Errei: do planeta que não é de Pele por Ele ser de outra galáxia. Com o devido respeito a Três Corações, o Pelé dos 1000 gols é ET.
PelÉT.

Todo mundo tem história com Ele. Também por ninguém saber tabelar com as pessoas como Ele. Ninguém atende tão bem as pessoas quanto Edson. Todas elas ganham atenção e autógrafo, selfie e sorriso. Até nisso Pelé é Pelé.

Eu adoraria dizer que não esqueço o único gol que vi Dele no estádio, no Morumbi, no empate com o meu Palmeiras, em 1973. Mas eu não vi. Meu pai tanto falou Dele que eu morri de medo e toda vez que a bola passava pelo meio-campo eu fechava os olhos para não ver Pelé pelezar.

Por isso não O vi marcando o gol naquele domingo. Um clássico numa tarde de sol: gol de Pelé. Como o daquele dia de Maracanã contra o Fluminense, em 1961. Quando Ele driblou o Tricolor inteiro para marcar mais um golaço. O que inspirou o editor Walter Lacerda e o jornalista Joelmir Beting a criarem uma placa em homenagem à obra-Pelé.

Uma placa que em 1999 o próprio Pelé deu ao meu pai. Em retribuição do autor do Gol de Placa ao autor da placa do gol.

O maior prêmio que minha família recebeu.

Mas eu ainda ganharia outro, por ser curador da exposição das Copas do Rei do Museu Pelé. Onde uma vez levei meu filho para um evento que apresentei com o Rei. Ele perguntou o nome do meu caçula e disse em seguida: "Gabriel, você tira uma selfie comigo"?

Isto é Pelé. Ou melhor. É o Edson que sabe o tamanho universal do Pelé. Um Beatle que lançou o último disco em 1977. Um Fellini que dirigiu o último filme em 1977. Um Michelangelo que pintou a última capela em 1977. Um Leonardo da Vinci que criou a última obra em 1977. O Pelé do futebol é o Pelé.

Não é 8 ou 80. É 10. É 80. É mais de mil gols. É tri. É do Pelé.

Perdão por falar de coisas pessoais. Mas com Ele é assim. Ele nos faz mais pessoal. Ele nos faz acreditar mais nas pessoas. Saber separar o que o Édson erra como humano e o que Pelé acertou como ser além disso e de tudo. Tão Pelé que até quando errou o gol do meio-campo em 1970, quando cabeceou a bola que Banks fez uma defesa de Pelé no México, e quando não fez o golaço no drible da vaca no goleiro uruguaio, Pelé foi mais que todos. Até não fazer gol é mais genial com Pelé. É mais Pelé que genial.

Pele é Rei na democracia mundial do futebol. Mas é rei de real, não da nobreza, por fazer reais os lances irreais. É rei não por não perder a majestade. É rei por fazer simples as coisas complexas. É real a sua obra por levar o Brasil ao mundo e nos trazer três vezes o mundo pra casa.

Pelé não perde a majestade por ser simples. Por ser Pelé em cada trato mais do que pessoal. Por não levar o trono no bolso como levou rivais na bola.

Pelé faz 80 assim celebrado por ser 10 em tudo lá dentro. Pelé merece cada canto de A TRIBUNA que já teve texto do meu pai, reportagem na TV da mãe dos meus filhos, e que é um jornal, como o Pelé, familiar para todo mundo.

E me permita ser mais realista do que o Rei, mais pessoal do que ele é com as pessoas: aqui me dá o diário o privilégio de escrever estas linhas para o jornal da cidade onde o amor dos meus pais me concebeu.

Ficou muito pessoal? É tudo culpa de Pelé. O cidadão do mundo de outro planeta faz tudo ficar maior do que é. Ele nos deu o sonho real. Ele nos deu o mundo.

A gente de tanto falar Dele acha que pode chegar perto.

Afinal, quem um dia não sonhou ser Pelé?

Eu não. Porque nem Pelé em sonho supera o Rei real.

 

As peripécias do menino-rei

Por Carlos Conde

No dia 15 de julho de 1960, uma sexta-feira, a noite chegou a Santos com a explosão de luz dos relâmpagos e o estrondo dos trovões. O vento cortante assobiava, chicoteando a imensa cortina de chuva, e o frio entrava pelos ossos. Qualquer pessoa com um mínimo de juízo não sairia de casa. Só que eu precisava convidar Pelé para ir ao porto visitar os tripulantes do navio soviético Tiksi. O primeiro a chegar ao Brasil após o reatamento das relações comerciais entre os dois países.

Eu era, naquele momento, um jovem e inexperiente repórter à caça de uma primeira matéria importante. No final daquela tarde, os marujos soviéticos disseram que sonhavam em conhecer Pelé. Mas a embarcação zarparia quando o dia nascesse. Eu só dispunha de poucas horas.

O menino prodígio do Santos já era muito famoso. Dois anos antes, na loira Suécia, e com apenas 17 anos, maravilhara o mundo com seus lances mágicos e seus gols inacreditáveis. Sua arte ajudara muito o Brasil a ganhar, pela primeira vez, a cobiçada Copa do Mundo. Pois era a esse menino-rei que eu pretendia fazer uma proposta quase indecorosa, no meio da tempestade.

Pelé me recebeu amavelmente na pensão em que morava, no Canal 1. Com ar abatido, febre, rouco e tossindo muito era a imagem de alguém atacado por uma forte gripe. Pensei na hora: “Se sair, ele pode pegar uma pneumonia”.

Percebi que minha chance era próxima de zero. Mesmo assim, expus, gaguejando, meu propósito macabro. Pelé ficou pensando, com o olhar perdido e um jeito desconfiado. De repente, me disse, com palavras mineiramente calmas: “Vejo que você é um garoto como eu, que deve estar começando a sua carreira. Com grandes sonhos. Eu sei o que é isso, já passei por isso”. E concluiu sua lição de humildade e grandeza me elevando às nuvens: “Vamos lá!”

O cais virou uma festa quando os primeiros portuários perceberam Pelé por ali. A bordo, o super craque foi recebido com grandes homenagens. Desafiado para uma partida de xadrez, venceu o campeão do barco. Ao sair, convidou todos para irem domingo à Vila Belmiro ver o jogo do Santos. Senhor dos mares, o comandante decretou: “Meu navio só levanta âncora segunda-feira!”

Já de volta à pensão, no alpendre, Pelé colocou a mão no meu ombro e perguntou: “Você acha que eu te dei uma boa ajuda?” Meus olhos marejaram. Os dele também. A verdadeira resposta à sua pergunta quem deu, uma hora depois, foi um monstro sagrado do jornalismo e criador da Última Hora, o maior jornal popular da história brasileira: Samuel Wainer. Do Rio, ele me chamava ao telefone. Minhas pernas e mãos tremiam. Perguntou minha idade e como eu conseguira a matéria. “Meu jornal fica muito orgulhoso por estar revelando jovens repórteres como você”, completou.

Fui até à calçada do jornal, no Centro Histórico. Olhei para o Monte Serrat e agradeci à padroeira os dois “milagres” daquela noite. Devoto abusado, não me constrangi de pedir um terceiro: que Pelé driblasse a pneumonia.

 

Três vezes melhor

Por Carlos Eduardo de Souza

Pelé no futebol atual seria, pelo menos, três vezes melhor. Tenho plena certeza. O Rei sempre teve grande vocação para o esporte. Corria 100 metros em 11 segundos, saltava 1,80 m de altura, 6,50 de distância, perfeitamente um decatleta. Além disso, os avanços da ciência do esporte e da preparação física foram intensos e os gramados são de ótima qualidade. Argumentar que, na Copa de 70, existiam muitos espaços e menor velocidade não atingem o brilho de Sua Majestade.

Ele, em campo, impressionava. O drible era curto e veloz. Sempre para frente, quase nunca para os lados. Possuía visão periférica do campo, chutava, com efeito, ou força. Eficiência nos pés direito e esquerdo. Cabeceava com impulsão impressionante e de olhos abertos. Recebia um passe e já pensava na sequência. Não se assustava com a deslealdade dos adversários. Dono de técnica refinada, não se permitia a enfeitadas.

Minhas primeiras lembranças de Pelé eram da TV Gazeta, que junto com meu pai Percy, assistia a reprise dos jogos, domingo à noite. O ataque do Santos era Manoel Maria, Pelé, Toninho Guerreiro e Edu. Veio a inesquecível Copa de 70. O Rei, que já era bicampeão, foi soberano em um time fantástico e chegou o tri. Depois, com meu irmão Pérsio, passei a assistir as peripécias do camisa 10 nos jogos na Vila.

O primeiro contato, na condição de repórter, foi no primeiro treino para a Copa Pelé de Masters, em 87, da qual ele participou da primeira rodada. Havia uma multidão de jornalistas na Vila. Fiquei impressionado com sua humildade e paciência para conceder as entrevistas. Bem diferente dos jogadores atuais.

No começo da década de 90, o Rei realizou visita à A Tribuna e fiquei responsável por acompanhá-lo no antigo prédio da Rua João Pessoa, 129, e depois fazer a reportagem. O Rei falou até na Tri FM. No mesmo período, fiz matéria com Pelé para o caderno especial de 100 anos do jornal.

Em 95, criou-se o Dia Pelé. Deixou a marca de seus pés em moldura de gesso, que era para ficar no gol paralelo à Rua Tiradentes. Dia 19 de novembro, aniversário do milésimo gol, e o jogo contra o Corinthians. Foi 3x0, fora o “baile”. Teve, também, a inauguração CT do Santos em 96. O Rei, com 55 anos, fez dois gols, junto com Edinho e Giovanni no ataque. Vitória por 6 a 2.

Edson Arantes do Nascimento fez outro golaço em 99: treinar as categorias infantil e juvenil do clube. E Pelé já destacava o jovem Robinho. Todas às terças-feiras, pela manhã, sempre entrevistava o Rei e o dia já estava ganho. Mazolla, Jair da Costa e outros famosos vieram visitar o Atleta do Século 20.

Pelé ensinou ao Brasil o gosto de ser um país vencedor, desde a Copa de 58, com um gol épico na final contra a Suécia. Na decisão de 70, acertou uma cabeçada com a precisão de um relógio suíço. O “Gol de Placa” frente ao Flu, no Maracanã. E o da Rua Javari, em 59, diante do Juventus. Aplicou quatro chapéus e cabeceou para as redes.

Saiu do Cosmos em 77 e virou empresário. Soube ver o outro lado da vida e sobreviveu ao sucesso. Chega tranquilo aos 80 anos, mesmo com alguns problemas de saúde. Parabéns Pelé, felicidades sempre. “Entende Rei”.

 

Presidência da República, um sonho de rei

Por Mário Jorge de Oliveira

Ainda sem empecilhos de um quadril operado e mobilidade reduzida, em novembro de 1994, Pelé tinha expectativas de quilate equivalente aos atributos que lhe concederam ao longo das décadas (Atleta do Século, Rei do Futebol, maior jogador de todos os tempos, e por aí vai). Pelé, ou Edson Arantes do Nascimento, achava que a política seria um caminho. E mais: no cargo de maior prestígio no País.

“Por tudo que tem acontecido na minha vida, eu acho que só poderia ser presidente da República. A não ser que houvesse outro cargo em que eu tivesse muita satisfação em poder realizar um sonho. Isso porque, se não for presidente da República, não dá para fazer...”
Ele falava de sua trajetória, que fatalmente desembocaria na política, respondendo a uma pergunta:

“Já que esse fato (entrar na política) é quase inevitável, o sr. teria preferência por algum cargo? Por exemplo, o sr. seria candidato à Presidência da República?”

A entrevista exclusiva, feita no dia 9 de novembro, na “carona” que pegou com o carro da Reportagem de A Tribuna, repercutiu. Foi manchete do jornal no dia seguinte. Consultado por outros veículos de comunicação, o Rei negou o que tinha dito. Mas estava lá, palavra por palavra, na entrevista gravada e ouvida, conjuntamente, pela então Secretaria do jornal.

Não, ele não chegou a ser candidato à Presidência, mas o “outro cargo” veio dois meses depois, no governo do recém-eleito Fernando Henrique Cardoso. No dia 1° de janeiro de 1995, Edson Arantes do Nascimento se tornava o ministro extraordinário dos Esportes, ficando até dezembro de 1998, após editar a famosa Lei Pelé.

Dona Georgina

Na verdade, a entrevista com o Rei era para ser uma coisa maior: a ideia era reunir ex-atletas da fase que antecedeu o período de ouro do Santos, abrigados, entre os anos 1950/1960, em um sobrado na Rua Euclides da Cunha, na bairro da Pompeia. Ali, funcionava uma pensão sob responsabilidade de dona Georgina Teixeira, tida como uma segunda mãe por aqueles moleques sonhadores.

Foram quase dois meses de procura e de negociações com dois ex-jogadores que residiram ali. Um se recusou a participar. ‘Restou’ Pelé, que concordou em meio aos seus atribulados compromissos empresariais

No dia marcado, fomos eu e o repórter-fotográfico Irandy Ribas ao encontro do ex-jogador, no Centro de Santos. De lá, com a simpatia de sempre, ele dispensou seu motorista e pediu para ir no carro da Reportagem. “Claro”, dissemos. Não podia deixar escapar a oportunidade. Na parte traseira do veículo, dirigida pelo então motorista Givaldo, com o Irandy no banco da frente, fui entrevistando um dos caras mais populares do planeta. Ali, naquele espaço diminuto, ele falou das aspirações na política.

Mas foi no emocionante encontro com dona Georgina, na mesma casa onde morou quando garoto, que ele fez a festa. Relembraram passagens, manias, broncas, ao embalo de boas gargalhadas. E, na escada que dava acesso ao interior do imóvel, permitiu-se sentar no colo daquela mulher, então com 71 anos. Foi uma imagem que levou quatro décadas para se repetir. E, obviamente, ilustrou a capa de A Tribuna no dia 13 de novembro do ano da graça de 1994. Foram outros encontros com o Rei. Mas aquele 9 de novembro é inesquecível.

 

Pelé eterno

Por Márcio Calves

Sempre o chamei por Rei!

Mas, nunca fui tratado como um súdito.

Muitas foram as vezes que eu o encontrei, em vários lugares diferentes.

No Brasil e no exterior.

Engraçado, assim mesmo a emoção era inevitável. Reação natural, afinal, eu estava diante do Rei.

Curioso: um Rei sem castelo, simples, como se fosse um ser comum.

Em todos os encontros, sem exceção, além da voz forte, mostrou o grande sorriso, que, aliás, o acompanha até hoje, mesmo com problemas de saúde.

Quantas e quantas matérias me proporcionou. Algumas até exclusivas.

Uma delas, em sua linda casa no Guarujá, quando convidou a mim e a minha mulher para “completar” uma dupla de tênis.

Sim, o Rei jogou tênis e, além de um preparo físico espetacular, tinha um bom forehand.

O quarto parceiro, acreditem, foi um imperador, seu ex-companheiro de clube, nos EUA, e amigo particular Franz Beckenbauer.

O Kaiser mostrou-se um completo jogador de tênis, “com todos os golpes”, como se qualifica um bom jogador nesse esporte.

Graças ao Imperador, vencemos em dois sets, com a estratégia de “bola no Rei”, já que sua parceira foi e ainda é uma grande jogadora. E o Rei, acreditem, era o mais fraco.

Brincadeiras à parte, foi um dia fantástico, que terminou com uma grande matéria em <FI5>A Tribuna</FI>, além de um bom churrasco, piscina e uma rápida prova de natação.

Nessa competição, ele ganhou de todos, até com facilidade. Me lembro bem de sua alegria, ironizando os “adversários massacrados” na água. Se sentiu vingado, com a classe que caracteriza uma majestade.

O Rei também me recebeu muitas vezes na Barbearia do Didi, localizada defronte à Vila Belmiro. Salão pequeno, tímido, sem nenhuma nobreza, mas que imortalizou Didi como o “Barbeiro do Rei”.

Na Espanha, na Copa de 82, num rápido encontro, o Rei me atendeu também, em meio a um “bolo” de fãs loucos por uma foto ou um autógrafo. Pediu calma, um tempo para entrevista e depois deu atenção à pequena multidão. E repetiu uma cena comum: num rápido giro de corpo, como um drible, arrancou e sumiu.

Em campo, me proporcionou momentos incríveis. Impossível registrar tudo.

Me deu, por exemplo, oito gols na vitória por 11 a 0 sobre o Botafogo de Ribeirão Preto, em 1964. E imortalizou o goleiro Machado, colocando-o na história.

No Maracanã, me deu a volta olímpica se despedindo da Seleção Brasileira contra a antiga Iugoslávia. Uma cena incrível, mais de 150 mil pessoas gritando “Fica” “Fica”.

Não ficou!

Sabedoria de Rei. Tinha consciência que era a hora de parar com a Seleção. Quem poderia garantir que não apareceria outro louco para colocá-lo no banco de reservas e afirmar que tinha problemas de visão?

Me deu também a despedida, de joelhos, na Vila Belmiro. Na prática, uma reverência ao seu mundo de súditos.

Que momento!

Que privilégio me proporcionou.

A mim e ao mundo.

Como qualificá-lo?

Fenômeno? Gênio? Extra-terrestre, como disse uma vez seu amigo Pepe?

Será que basta Atleta do século? Único?

Incomparável?

Não, é pouco.

Talvez o ideal seja:

Apenas Rei 

Aos 80 anos.

Que bom seria que fosse eterno.

Como no seu filme: Pelé eterno!

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