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Sábado

23 de Março de 2019

Atleta do Santos, Lara 'goddess' fala sobre como é ser mulher no e-sports: 'Desafiador'

Player de CS:GO da equipe feminina do Peixe contou como começou a carreira, os objetivos com o clube e os desafios de ser mulher neste meio

Em maio do ano passado, o Santos anunciou sua primeira equipe feminina competitiva de e-sports. Um dos nomes presentes na line-up, formada para jogar CS:GO (Counter-Strike: Global Offensive), era o de Lara “goddess” Baceiredo, que completa oito meses como jogadora do Alvinegro este mês e coleciona três títulos consecutivos.

Em entrevista a A Tribuna On-Line, a player de 23 anos contou como entrou no mundo de e-sports. “Sempre me identifiquei com jogos do gênero FPS (sigla utilizada para jogos de tiro em primeira pessoa). Sempre foi uma paixão minha. Eu via meu irmão jogando e achava o máximo. Comecei a jogar em 2003 e a adorar”, declarou.

“Mas minha carreira profissional só começou quando me juntei à Select (empresa responsável pelas divisões de e-sports do Santos), no início do ano passado. Antes disso, jogava como amadora, participando de todos os campeonatos possíveis. Cheguei a representar alguns times, como Viex e Sulkings, mas eles só arcavam com as despesas básicas, como inscrições de campeonato”, comentou.

“Goddess”, nick inspirado por sua paixão pela mitologia, vive em Jaguariúna, interior de São Paulo, e treina nove horas por dia, seis vezes por semana. Sua única folga é no sábado. E todo o esforço não tem sido em vão: são três títulos conquistados consecutivamente desde que se tornou jogadora do Santos (três Ligas Femininas da Gamersclub, em setembro, outubro e novembro).

Preconceito e barreiras

O e-sports é um meio que pode ser hostil para algumas mulheres devido aos casos recorrentes de machismo. “Ser mulher nesse mundo é desafiador, pelo preconceito ainda existente e pela falta de investimento em geral”, declarou “goddess”. Ela relembrou ainda que nem metade dos times femininos principais recebe salário.

“Também sempre vai ter um ou outro que vai te xingar, falar para você ir lavar louça ou tentar te ofender de alguma outra forma. Mas isso acontece em jogos normais, em campeonatos é bem mais raro. Porém, acontece. Em um de nossos últimos torneios, assim que o mapa foi escolhido, um dos jogadores adversários disse no chat que "o jogo seria fácil". Pois bem, ganhamos o jogo e mostramos que eles estavam errados”, relatou. Mesmo diante desse tipo de episódio, a player acredita que competições mistas são essenciais.

Para ela, a tendência é que esse cenário de intolerância mude no futuro. “As mulheres estão se consolidando nos cenários competitivos e eu acredito que é questão de tempo até sermos devidamente respeitadas. É algo gradativo e eu acho que isso vai se consolidar ainda mais quando mais times femininos se classificarem para as Ligas e Campeonatos com mais prestígio”.

Uma outra dificuldade na carreira de “goddess” foi a aceitação. No começo, seus pais não entendiam como funcionava o e-sports: “Eles diziam: ‘Você vai trancar a faculdade para jogar videogame?'. Acho que todo jogador profissional já passou por isso, principalmente vindo da família”. Hoje, no entanto, sua família a apoia e acompanha sua trajetória como jogadora de CS:GO.

Metas para a temporada e o futuro

Sobre os planos para o futuro e os objetivos com o Santos, a jogadora contou que seu grande sonho é jogar fora do Brasil com seu time: “Quero desbravar o mundo competindo contra homens e mulheres. Acredito que, com a dedicação certa e tudo que o Santos nos proporciona, talvez esse futuro não esteja tão longe assim”.

“Este ano, disputaremos todos os campeonatos possíveis. Participamos de competições mensais e pretendemos subir dentro dos próximos três meses para a Liga Principal, e, em seguida, para a Liga Pro. Fora isso, vamos jogar todos os qualificatórios para campeonatos presenciais nacionais e internacionais”, concluiu.