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Sábado

24 de Agosto de 2019

Arminda Augusto

Arminda Augusto é jornalista formada pela UniSantos, trabalha em A Tribuna há 22 anos e há quatro está como editora-chefe. Como repórter, cobria os setores de Educação e Meio Ambiente. Foi também professora universitária por dois anos

Meninos dançam balé; meninas jogam futebol

Jovens da região conquistam títulos em importante festival de dança em Joinville

Talvez ele não soubesse que aquelas tantas horas de dedicação diária um dia virassem prêmio. Talvez os pais imaginassem que, frente ao preconceito e ao bullying, fosse melhor convencer o filho a trocar a sapatilha pela chuteira. Talvez...

Mas a história está sendo contada com um outro enredo. Um enredo que prova, todos os dias, que nem sempre meninos vestem azul, e meninas vestem rosa. Nem sempre meninos jogam bola, meninas fazem balé.

Daniel Dantas optou pelo balé desde que tinha 6 anos, e é na ponta dos pés que ele equilibra o prazer pela arte, a leveza da dança, o sonho de um dia chegar lá. Sem que percebesse, o "lá" já está chegando. Nascido e criado na Vila Natal, uma comunidade pobre de Cubatão, ele conquistou esta semana o primeiro lugar na categoria júnior em jazz do Festival de Joinville (SC), um feito e tanto para seus 13 anos de idade.

História muito bem contata pela colega Nina Barbosa, da TV Tribuna, que acompanhou Daniel e sua família no cotidiano de Cubatão e, em Joinville, na alegria da conquista. Confira a reportagem com o bailarino cubatense.

"Sempre me dizem que balé é coisa de menina, que balé não tem utilidade, não vai me sustentar na vida", disse Daniel a Nina antes de partir para o festival. Devem ser as mesmas frases ditas a outro jovem talento da região, o Andrey Jesus, também de 13 anos, que ganhou dois troféus de segundo lugar no festival: solo de neoclássico e solo de variação de repertório.

Daniel conquistou o primeiro lugar na categoria júnior em jazz do Festival de Joinvile (SC) (Foto: Maykon Lammerhirt)

Fico pensando: o que tira esses meninos da cama todos os dias? O que os faz dar de ombros para o preconceito, o bullying e os olhares tortos dos colegas de escola, dos familiares? Só pode ser algo muito maior, que transcende a nossa compreensão miúda e, muitas vezes, imediatista e nada resiliente. Guerreira e corajosa são também as famílias desses jovens talentos, que estimulam, protegem, arregaçam as mangas e se vestem de coragem para levar os pequenos aonde eles querem chegar.

Daniel e Andrey, vocês já estão chegando, vocês já são exemplo.

Meninos dançam balé, sim. Meninas jogam futebol, sim. E que bom que há diversidade de opções, que bom que há reconhecimento pela arte de vocês, que bom que existem jornalistas sensíveis para contar essas histórias.

Por mais Daniel e Andrey na arte! Em qualquer arte! E sim, haverá um dia em que um menino dançando balé será apenas um menino dançando balé e nada mais.

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