EDIÇÃO DIGITAL

Terça-feira

17 de Setembro de 2019

Arminda Augusto

Arminda Augusto é jornalista formada pela UniSantos, trabalha em A Tribuna há 22 anos e há quatro está como editora-chefe. Como repórter, cobria os setores de Educação e Meio Ambiente. Foi também professora universitária por dois anos

Futebol-raiz

Ir a um jogo da Portuguesa Santista é levar pra casa uma bagagem de conhecimento, leveza e alto astral

Há uma máxima no jornalismo que diz: todo jornalista precisa ser um generalista, aquele cara que entende um pouco de tudo, fala e escreve um pouco sobre tudo. Ao menos um pouco. Certo? No meu caso, apenas até a página 2.

Futebol sempre foi um desafio particular. Regras demais. Termos demais. Jogadores demais. Campeonatos demais. Mas se é verdade que sempre é tempo para aprender, também é verdade que, em algumas áreas, será sempre mais divertido se não soubermos tanto assim sobre elas.

Ir a um jogo da Portuguesa Santista é levar pra casa uma bagagem de conhecimento, leveza e alto astral. E a condição para isso é não ser nenhum Tostão, nenhum PVC, Casagrande ou Caio Ribeiro.  Esses sairiam de um jogo em Ulrico Mursa falando sobre a posição do volante, a escalação dos zagueiros, os erros da arbitragem, os lances duvidosos e as substituições inadequadas feitas por um e por outro treinador. Sem esse compromisso, os domingos de arquibancada no campo do centenário clube são, para mim, pura diversão.

Neste domingo, a Briosa enfrentou o Nacional, da Capital, debaixo de um sol tórrido. Não sei se é impressão meramente particular, mas nem sol forte, nem fila para comprar ingressos, nem aglomeração na portaria tiram o bom astral do torcedor rubro-verde, que se veste a caráter mesmo que torça para outro time “grande”. Todos somos Briosa, diz o ditado popular.

O árbitro dá início à partida e eu, como zerei nas aulas de futebol, deixo meu olhar se voltar para o lado B do jogo, o lado mais encantador, natural, quase pueril do esporte que fez do Brasil um dos ícones mundiais.

As arquibancadas coloridas têm de tudo: famílias inteiras, casal de namorados, crianças de colo, adolescentes, mulheres fanáticas e até....torcedores comuns, desses que acompanham o time do Sérgio Guedes por onde quer que ele vá.

Mascote da Briosa se mistura em meio a torcedores no estádio Ulrico Mursa (Foto: Rogério Soares/AT)

A bola rola no campo: tem finta, tem drible, tem lances perigosos, tem falta e tem muita bola jogada pra fora, tão pra fora que, às vezes, vai parar literalmente do lado de fora das quatro linhas. E o bom de um estádio pequeno, de muros baixos, é que ele parece plenamente integrado ao bairro, parte e complemento da paisagem urbana. A torcida se faz dentro e fora, com vizinhos olhando e torcendo de suas janelas e varandas baixas.

Ir ao jogo no campo não te dá o privilégio de rever aquele lance mais duvidoso, mas dali da arquibancada você aprende um sem-número de novas expressões futebolísticas e ouve melhor o locutor:

- Supermercado Luanda. Aqui tem de tudo e por um precinho que todo mundo pode pagar.

- Atenção, torcedor: acaba de sair a rifa da camisa da Portuguesa. E o prêmio vai para a dona Eugênia. Dona Eugênia, se a senhora estiver aqui, por favor, venha buscar a sua camisa.

Que outro lugar do mundo te permitiria ouvir um aviso assim?

45 minutos e o juiz apita o final do primeiro tempo: mais diversão para quem foi ali atrás de coisas simples e do velho e bom futebol:

- Seu Zé, dois amendoin, por favor!

- Não é Zé, é José!

- Tem paçoca, seu Zé?

- Aqui não tem paçoca, tem amendoim. E não é Zé. É José.

Num estádio de time luso, também não falta tremoço, vendido em potinhos pequenos e já salgado. Tem também uma vendinha de produtos rubro-verdes: camisetas, bonés, bolas do centenário, bandeirolas, flâmulas...

Os meninos da Briosa não têm salários galáticos, não são disputados pela imprensa para entrevistas exclusivas, não desfilam em carrões pela cidade, mas têm uma garra e uma energia que calor senegalês nenhum põe pra baixo.

Rola a bola sem gols no segundo tempo, e parte da torcida se inquieta com os lances errados:

- Vai pra cima! Vai pra cima!

O árbitro dá cinco minutos de prorrogação: bola que vai, bola que vem, jogador que cai, jogador que faz cair. E quando todos já se preparam para levantar e sair antes da multidão:

- Goooooooool!

- Goooooooool!

- É da Briooooooosa!

A torcida vai à loucura! O estádio treme com a gritaria e a emoção.

Acaba o jogo em Ulrico Mursa e Valter Dias avisa: próximo confronto ali dia 30, contra a também rubro-verde Portuguesa de Desportos.

Saio leve dali. Leve e pensando: só faltam mais 21 jogos pra estar na final. Será que a nossa Briosa chega lá e acessa a tão sonhada série principal do Paulistão? Torço que sim, mas torço também para que, uma vez estando lá, carregue junto essa sua essência, essa sua simplicidade, esse seu jeito gostoso e familiar de fazer a bola rolar dentro das quatro linhas.

Torcida da Portuguesa Santista, a Briosa, comemora gol no final da partida contra o Nacional (Foto: Rogério Soares/AT)
Este artigo é de responsabilidade do autor e não reflete necessariamente a linha editorial e ideológica do Grupo Tribuna.
As empresas que formam o Grupo Tribuna não se responsabilizam e nem podem ser responsabilizadas pelos artigos publicados neste espaço.