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Terça-feira

21 de Maio de 2019

Arminda Augusto

Arminda Augusto é jornalista formada pela UniSantos, trabalha em A Tribuna há 22 anos e há quatro está como editora-chefe. Como repórter, cobria os setores de Educação e Meio Ambiente. Foi também professora universitária por dois anos

'Dessa vida a gente não leva nada, garotinha'

Walter de Albuquerque Mello trabalhou em A Tribuna por 47 anos, dos quais 41 dedicados ao fotojornalismo

O  título que encabeça este texto é de Walter de Albuquerque Mello. Era chamado de ‘Waltinho’ pelos amigos e pessoas próximas, e morreu nesta segunda-feira (2), aos 81 anos. Ficaram aqui a esposa, Conceição, e a filha que tanto amava, Alessandra.

Waltinho trabalhou em A Tribuna por 47 anos, dos quais 41 dedicados ao fotojornalismo. Parou aos 79, mas um pouco contrariado. “Tá na hora de parar, Waltinho. Pra que cumprir horário, trabalhar final de semana, ter esse compromisso todos os dias?”, disse eu a ele, certa vez. “Eu vou parar, garotinha. Eu vou parar”.

A morte só começa a fazer algum sentido nas nossas vidas quando ficamos adultos. Difícil pensar nela quando se tem 8 ou 10 anos. Difícil algum amigo nosso morrer com essa idade, e talvez por isso a morte pareça tão distante do nosso quadrado. Vamos crescendo e tendo notícias de morte. Primeiro, aquela tia mais próxima, aquela que reunia a família aos domingos e fazia a melhor macarronada da vida. Depois, o pai de um amigo, o avô de outro....até que morrem os seus próprios avós e aí o baque fica muito sentido por bastante tempo.

Quando entramos para o mercado de trabalho, aos vinte e poucos anos, outro leque de pessoas começa a fazer parte das nossas relações, e por um momento – ou vários – achamos que aquele ambiente será para sempre. Vemos aquelas pessoas todos os dias. Conversamos com aquelas pessoas com mais frequência do que com vários de nossos familiares. Muitos viram amigos, alguns amigos-irmãos. E temos a certeza de que tudo aquilo será para sempre, porque a relação sai do escritório e vai para o happy hour, para as festinhas, para as viagens de final de semana, para as redes sociais.

Quando viramos adultos, sabemos que a morte é sempre uma possibilidade de nos separar das pessoas que amamos. Fico pensando no Walter Mello e em seus 47 anos de jornal. Quantas pessoas conheceu, com quantas pessoas conviveu, quantas vezes imaginou que aquele lugar e aquelas pessoas seriam para sempre. Quantas despedidas tristes, quantas chegadas festivas, quantas lembranças, quantos bons momentos, quantos Feliz Natal desejou aos colegas, quantos diálogos sobre a vida travou com os amigos do Jornalismo. Walter Mello ficou aqui no jornal e viu passar pela frente uma centenas de pessoas. Ou duas. Ou três. De motorista a fotógrafo, quantas relações estabeleceu...Ambientes corporativos às vezes são competitivos demais, às vezes carecem de fraternidade e compaixão. Waltinho sublimou a competição, tangenciou a rudeza dos dias mais difíceis, das pessoas menos afáveis.

Revoada dos pássaros foi uma das fotos tiradas por Walter Mello em A Tribuna (Foto: Walter Mello/Arquivo/AT)

Sua máquina fotográfica separou a cena real de um olhar humano e sensível centenas de milhares de vezes. O desafio era extrair da foto o sentimento, a emoção. O leitor tinha que ver a foto e sentir o que aquela pessoa estava sentindo e pensando. Da Vila Socó em 1984 ao avião do Eduardo Campos em 2014, quantas imagens dramáticas e espetaculares passaram pelo diafragma de sua máquina. Mas também passou a revoada de pássaros que ilustra este texto.

A morte não findou essa história, porque algumas histórias não têm fim. Ele não foi celebridade, como as tantas que fotografou ao longo da vida. Também não foi bandido nem personagem de teatro, mas teve a sorte de trabalhar em um jornal centenário. Suas fotos vão ficar pra sempre registradas nas páginas de A Tribuna e Expresso Popular. Daqui 50, 100 ou 200 anos, quando não estivermos mais aqui, Waltinho ainda estará. Porque as fotos dele ‘falam’. As fotos ‘conversam’ com o texto.

O jornalismo está mudando. Os hábitos de leitura e consumo de informação estão mudando. Todo mundo faz foto, posta, compartilha, curte. Mas a arte de fazer uma foto falar....ah, essa é para poucos. E mesmo que daqui 50, 100 ou 200 anos apenas sobrevivam os veículos digitais, as fotos do Waltinho estarão lá registradas na história. Na fantástica história deste jornal. Na incrível história do verdadeiro Fotojornalismo. Que sorte a sua, Waltinho! Foi pra história sem nunca ter imaginado ou pedido!

De fato, “dessa vida a gente não leva nada”. Que bom que você nos deixou esse legado!

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