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Segunda-feira

18 de Novembro de 2019

Um recanto vicentino chamado Vila Inglesa

Condomínio de quase 90 anos chama atenção pelas características europeias

Não à toa o condomínio tem o nome de Castelinho. A construção de quase 90 anos é destaque na esquina das ruas João Ramalho e Cândido Rodrigues, no meio do Centro de São Vicente e a poucos metros da Praia do Gonzaguinha. O imóvel, com características europeias, é o ponto central de uma área conhecida como Vila Inglesa. Atrás e em volta dele estão 36 casas que formam o Jardim Aralinda. 

A vila e o Castelinho foram projetados pelo arquiteto inglês Ernesto Behrendt, que se inspirou nas casas de seu país para a elaboração das plantas. O pedido foi do dono do terreno, Umberto Gagliasso, casado com uma inglesa. O nome da vila é uma homenagem à sogra dele, Aralinda Forshire. 

O prédio tem três pavimentos e sete apartamentos, com aproximadamente 100 metros quadrados cada e que conservam as características originais. Chamam a atenção duas chaminés no topo, que fazem parte de lareiras, hoje desativadas, e que foram projetadas para aquecer o edifício. 

Síndico do prédio, o aposentado Sérgio Pereira mora há sete anos no local e também pesquisou a história do prédio. “Essa área pertenceu à ferrovia e ficou abandonada. Por volta de 1930, Umberto Gagliasso se encantou com ela. Era de frente para o mar, com muito verde, não existiam esses prédios em volta. Uma maravilha”. 

Segundo ele, há informações de que um dos apartamentos pertenceu a familiares do ex-presidente Campos Sales, que governou o País entre 1898 e 1902. “O apartamento 2 era do ex-prefeito de São Paulo, Miguel Colasuonno (prefeito entre 1973 e 1975). Há reportagens da época dizendo que ele pernoitava aqui com uma viatura da Força Pública (hoje Polícia Militar) na porta para proteger a família”, diz o síndico. 

Jardim Aralinda 

Antigamente aberto, o Jardim Aralinda foi fechado com portões e para entrar é necessário tocar o interfone e ser autorizado por um morador. O cercamento da vila ocorreu na década de 1990, por conta da insegurança causada por usuários de drogas. 

Mas basta entrar para parecer ter viajado a outro local. A alameda de pedras, com jardim central, ainda tem residências com a antiga peroba rosa, madeira resistente usada em escadas, pisos, janelas e portas. Como a casa do comerciante Manuel Alves Lourenço, de 68 anos.

“Aqui há tranquilidade, paz, vizinhança boa e silêncio à noite. Não tirei as características da casa, acho muito bonita”, conta ele, que mora lá com a mulher.

Síndico informal da vila, que apesar de fechada não é um condomínio oficial, Fernando Martinez Martins, de 39 anos, mora há cinco anos em uma das casas. Vive com a mulher Bianca e dois filhos. “Nem parece São Vicente. Eu morava ao lado, em um prédio, e sempre quis morar em casa, consegui uma aqui. É um lugar muito gostoso de morar, muita gente nem sabe que existe”.

Alameda de pedras com jardim central promove viagem no tempo e conquista os moradores pela tranquilidade proporcionada (Sílvio Luiz/ AT):

Imóveis tem importância cultural e histórica em São Vicente

O Castelinho e o Jardim Aralinda não estão entre os 17 imóveis tombados pelo patrimônio histórico, ou seja, podem sofrer alterações. Porém, segundo o historiador Marcos Braga, da Prefeitura, fazem parte de uma lista de bens considerados de importância histórica e cultural.

“Muitas casas foram descaracterizadas, talvez um possível tombamento pudesse ser pontual ao Castelinho, mas é uma discussão que precisa ser feita. Ele é uma referência arquitetônica, afetiva e tem singularidade perante o resto das construções de São Vicente”, diz o historiador. 

Braga ressalta que é preciso ver a distância da construção para o Instituto Histórico e Geográfico de São Vicente, que é tombado. Se estiver dentro de um raio de 300 metros, pode ser considerado envoltório de patrimônio e ter algum nível de preservação. 

Com tijolinhos aparentes na fachada, lampiões nas portas, sem muros ou garagens, as casas da vila contam com dois a três pavimentos. Os imóveis foram adquiridos inicialmente por famílias paulistas que desciam a Serra do Mar para aproveitar as férias no Litoral. 

Parecida com a vila do seriado mexicano Chaves, as brincadeiras entre as crianças na rua e os jardins marcam a história do Aralinda.

 

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