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Segunda-feira

3 de Agosto de 2020

Ação de padeiro mobiliza comunidade em São Vicente

Pandemia interrompeu as aulas, mas padeiro fabrica e distribui mais de 2 mil pães por semana

“Eu sou o pão da vida. Aquele que vem a mim nunca terá fome; aquele que crê em mim nunca terá sede”.
(João 6:35)

Assim como na Bíblia, a partilha do pão tem virado símbolo de solidariedade em vários bairros da periferia nesta pandemia do coronavírus, em que muitas famílias ficaram sem renda ou tiveram seus ganhos reduzidos por conta da quarentena. 

No Jardim Sambaiatuba, área continental de São Vicente, mais de 12 mil pães são feitos e distribuídos a famílias carentes três vezes por semana, e eles saem das mãos de um único padeiro, Alexandre Canadá, de 43 anos, há quase três décadas na profissão.

Alexandre é padeiro profissional e confeiteiro, e ganha a vida dando aulas para quem quiser aprender sobre doces e salgados. Em geral, é contratado por lojas de artigos para festas e comércios de rua que têm na confeitaria o carro-chefe. “Eu vou aonde me chamam”, diz Alexandre, que começou nessa vida aos 14 anos e não parou mais. Fez Faculdade de Nutrição só “depois de velho”, como diz.

No Jardim Sambaiatuba, é professor de panificação e confeitaria e dá aulas para famílias carentes em espaço mantido pelo Fundo Social de Solidariedade de São Vicente. Recebe uma ajuda de custo para essa tarefa. 

A pandemia interrompeu as aulas, mas Alexandre continuou indo nos mesmos dias da semana. Só que em vez de ensinar, colocou ele mesmo a mão na massa para produzir os pães de forma quase industrial, já que o espaço dispõe de equipamentos próprios para a panificação.

Me transformo

Alexandre diz que quando põe a dolma (espécie de bata típica dos padeiros) “se transforma”. E isso acontece desde quando tinha 14 anos, quando foi pai pela primeira vez.

“Eu disse ao meu pai que minha namorada estava grávida, e ele me arrumou um emprego na Padaria Universal (Avenida Conselheiro Nébias). Foi lá que aprendi a profissão”, conta.

Além de pães, ele faz de tudo um pouco na área de confeitaria, tanto doces como salgados. Depois teve ainda mais três filhos, mas nenhum, até o momento, quis seguir a profissão do pai.

As aulas de Alexandre no Jardim Sambaiatuba capacitam os alunos a ter uma fonte de renda depois de formados. São três módulos, começando pelo mais simples, quando a dona de casa já consegue fazer o que aprendeu em casa mesmo, com os utensílios de que dispõe. “Eu tenho que ensinar algo que depois ela possa fazer no dia a dia, e ganhar dinheiro com isso”.

Os módulos seguintes são o semi-profissional e o profissional, que capacita o aluno a lidar com máquinas industriais, como as que tem no espaço do Sambaiatuba.

“Ver que aquela mulher que não tinha renda nenhuma já consegue fazer em casa e vender, puxa, isso não tem preço”, diz.

Cheiro de pão

Os 2.100 pães da quarentena são feitos às segundas, quartas e sextas-feiras, e distribuídos ali mesmo, na comunidade. Uma fila de pessoas carentes se forma no pequeno espaço, atraídos pelo cheiro que invade as casas vizinhas. Cada um pode levar até seis pãezinhos, francês e cará.

Por semana, são consumidos 100 quilos de farinha, 15 quilos de açúcar, quatro quilos de margarina, 1,5 quilo de fermento, um quilo de sal, 30 ovos e dois botijões de gás.

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