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Sexta-feira

23 de Agosto de 2019

Crise climática coloca o planeta em risco, diz arcebispo de São Paulo

Cardeal dom Cláudio Hummes esteve, na noite da última terça-feira, na Universidade Católica de Santos para uma conferência

A população e os governantes precisam ter “coragem e paixão” para tomar medidas audaciosas – ainda que sejam antipáticas e tenham custos elevados – para enfrentar as crises climática e ecológica que colocam em risco o futuro da Terra.

Por esse motivo, é fundamental a preservação da Amazônia, o pulmão da Terra, cuja riqueza natural é alvo da cobiça do agronegócio e de ambiciosos projetos econômicos. “Sem ela, o planeta não tem chance. Ela é determinante para o nosso futuro”, alertou o arcebispo emérito de São Paulo e presidente da Rede Eclesial Pan-Amazônica (Repam), o cardeal dom Cláudio Hummes.

Ele esteve, na noite da última terça-feira (2), na Universidade Católica de Santos (UniSantos) – Campus Dom Idílio Soares, para realizar uma conferência preparatória para o Sínodo Pan-Amazônia, que ocorrerá em outubro.

A Pan-Amazônia é a região que envolve os nove países que têm a Floresta Amazônica em seu território (Colômbia, Peru, Venezuela, Equador, Bolívia, as Guianas e o Suriname, além do Brasil). O Sínodo é uma assembleia periódica de bispos que ocorre no Vaticano, a sede da Igreja Católica, para tratar de assuntos específicos.

“Estamos diante de uma crise grave – porque podemos levar o planeta ao desastre total – e urgente. Temos que adotar ações o quanto antes, nos primeiros 60 anos”, afirmou.

Segundo ele, é fundamental pensar em novos modelos de desenvolvimento que não sejam predatórios. Afinal, “salvar é um grande ato de misericórdia e de caridade. Os primeiros que pagarão essa conta serão os mais frágeis,os mais pobres”.

Outro desafio a ser superado na avaliação dele é a “globalização do paradigma tecnocrático” citada pelo papa Francisco, pois, graças à tecnologia, o homem avança em cima de tudo que está a sua frente e tenta explorar ao máximo, não se importando com os aspectos sociais e ambientais.

Povos indígenas

O cardeal relembrou que, para reverter esse cenário alarmante, a sociedade precisa estar melhor informada sobre o caos iminente e ações para amenizar os efeitos do aquecimento global.

“Além da Amazônia, também precisamos cuidar das grandes cidades, como Santos. Elas são as grande poluidoras, as maiores vilãs, onde há um grande consumismo e muito desperdício de água, energia e alimentos”, ressaltou.

Segundo Hummes, a Igreja crê que os povos indígenas têm muito a contribuir com o planeta por causa da forma cuidadosa com que cuidam da natureza.

“Eles devem ser sujeitos da história e não objeto de nossos projetos colonizadores. E o governo atual está dentro dessa conversa de fazer a Amazônia como uma reserva que precisa ser colonizada. Isso é um desastre”, desabafou.

Para o cardeal, é possível identificar novos caminhos para a evangelização dos índios e que é necessária uma “igreja indígena”, que nasça a partir da história, da espiritualidade e da cultura desses povos originários que vivem isolados.

A ideia é defender ainda os cidadãos que avançaram floresta dentro, após serem expulsos das periferias de grandes centros urbanos, assim como os povos ribeirinhos e quilombolas expulsos pela ação dos garimpos, mineradoras, madeireiras, agricultores e pecuaristas.

Apelo do Papa Francisco

Em junho de 2015, o Papa Francisco lançou a encíclica Laudato Si (Louvado sejas, em português), no qual ele critica o consumismo e o desenvolvimento irresponsável. O pontífice faz um apelo à mudança e à unificação global das ações para combater a degradação ambiental e as alterações climáticas. Segundo Francisco, a Amazônia e a bacia fluvial do Congo são os “pulmões do planeta repletos de biodiversidade”. “Ao falar sobre estes lugares, impõe-se um delicado equilíbrio, porque não é possível ignorar também os enormes interesses econômicos internacionais que, a pretexto de cuidar deles, podem atentar contra as soberanias nacionais.

Com efeito, há propostas de internacionalização da Amazônia que só servem aos interesses econômicos das corporações internacionais”, aponta um dos trechos da encíclica. O documento foi lançado cinco meses antes da 21ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudança Climática (COP 21) e foi muito citado pelas autoridades durante o evento realizado em Paris (França).

Na ocasião, foi firmado um novo acordo global para reduzir as emissões de gases de efeito estufa e manter o aquecimento global “muito abaixo de 2ºC”, buscando ainda “esforços para limitar o aumento da temperatura a 1,5º C acima dos níveis pré-industriais”.