João Donato homenageia Gilberto Gil e Caetano Veloso no festival santista Som das Palafitas

Um dos precursores da Bossa Nova, Donato conversou com A Tribuna; confira

Por: Beatriz Araujo  -  10/12/21  -  07:11
João Donato homenageará Gilberto Gil e Caetano Veloso neste sábado (11), no Som das Palafitas
João Donato homenageará Gilberto Gil e Caetano Veloso neste sábado (11), no Som das Palafitas   Foto: Divulgação

Um dos precursores da Bossa Nova, João Donato homenageará Gilberto Gil e Caetano Veloso neste sábado (11), em apresentação remota no festival santista Som das Palafitas, promovido pelo Instituto Arte no Dique. Donato, acreano de 87 anos, tem uma trajetória de destaque como compositor e pianista. Suas obras, com essência inovadora, marcaram o País e o mundo. Na live, Donato apresentará As Canções de Donato Com Gil & Caetano. Serão cantadas e tocadas obras feitas em parcerias com Gil - como Emoriô, A Paz, Bananeira e Lugar Comum – e Caetano, como A Rã, O Fundo e Naquela Estação. Em entrevista exclusiva para A Tribuna, o consagrado músico fala sobre sua relação com os homenageados do festival, resgata sua história e conta sobre projetos futuros.


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Donato, primeiro queria falar um pouco sobre o Festival Som das Palafitas. Esta edição homenageia Gil e Caetano. Qual sua relação com eles?


Quando eu voltei dos Estados Unidos, onde passei 12 anos, encontrei aqui (no Brasil) o pessoal da Bahia, da Tropicália. Gilberto Gil, Caetano Veloso, Gal Costa, Maria Bethânia... e eu me juntei a eles. Fui trabalhar com a Gal Costa como diretor musical e comecei a fazer músicas com Gilberto Gil e Caetano Veloso. Então, a maior parte do meu repertório é feito com meu irmão Ulisses ou Gilberto Gil ou Caetano Veloso. Gil e Caetano são dois dos meus mais constantes parceiros de música.


Você é de uma geração anterior a de Caetano e Gil. Mas, mesmo assim, qual o impacto e influência dos dois em sua formação como músico?


Influência nem tanta. Mas a gente vai se misturando nos estilos de cada um, no que vai acontecendo pelo caminho. Vamos nos adaptando, virando uma terceira coisa... e é isso. Não é bem uma influência. É um resultado que acontece das nossas músicas quando estão misturadas.


Donato, neste ano, aos 87 anos de idade, você e Jards Macalé lançaram o álbum Síntese do Lance – em cuja capa vocês aparecem nus, com naturalidade. Como você encara seu processo de envelhecimento e o relaciona em suas produções musicais?


O tempo passa e são apenas números. Idade são apenas números. O tempo é a coisa mais preciosa que a gente tem. Quando terminar o tempo, terminou a vida. A parte mais importante que existe na vida é o tempo. Então, aproveitar da maneira mais alegre e mais feliz é a melhor forma de viver que existe.


Ao longo dos últimos anos você tem feito parcerias com artistas da ‘nova MPB’, como Céu e Tulipa Ruiz. Nas apresentações, é clara a reverência delas a você e sua trajetória. E para você, como é essa relação de troca com artistas destas novas gerações?


É um prazer trabalhar com Tulipa e Céu. São pessoas com novas ideias, com novas impressões... que acrescentam ao que você tem de melhor. É um prazer muito grande trabalhar com essas pessoas mais novas.


Em 2017 você também lançou o álbum Sintetizamos, com seu filho, Donatinho. E em 2019 o remix Lei do Amor, também com ele. De certo modo, você sempre inovou em suas produções. Agora, como foi o processo de produção de músicas com sintetizadores e uma pegada mais ‘techno’? Te surpreendeu?


Nem tanto. Eu já tinha gravado o disco chamado Bento e Donato, em 72, em que usei bastante teclados eletrônicos em Los Angeles. Quando trabalhei com Donatinho eu apenas me recordei desses discos que tinha gravado algum tempo atrás. Então foi algo feito na colaboração de pai e filho, foi uma coisa muito bonita por isso.


Na década de 50 você se mudou para os Estados Unidos onde morou mais de 10 anos – quando trabalhou na fusão entre o jazz e a música latina. Atualmente, você sente vontade de morar em algum outro país em busca de alguma ‘experimentação musical’ mais aprofundada, como teve na época?


Não, não. O Brasil tá bastante bom. Aqui tem de tudo. Tem estilo para qualquer jeito de música. Acho que aqui tá ótimo, tá muito bom.


Você é um dos pioneiros da bossa nova. Atualmente, você sente que ela segue sendo representada? Ou nota que a bossa nova está sendo deixada de lado nas novas produções?


Acho que a bossa nova continua sendo utilizada atualmente com base no que foi iniciado lá atrás, nos anos 60, e continua sendo desenvolvida até os dias de hoje, em todas as formas que existem. Em gravações, cinema, teatro, televisão e enfim. Continua mais viva do que nunca.


Olhando para sua trajetória, qual você acredita ser sua experiência ou projeto mais marcante na música?


Acho que a fase da bossa nova foi muito importante. Quando conheci Tom Jobim, João Gilberto, Johnny Alf, Milton Banana, começamos a puxar para uma música mais alegre, mais saudável. Menos “ninguém me ama, ninguém me quer”. E esse momento foi muito importante para a música. Ela tomou um rumo diferente... mesmo as instrumentais tomaram um outro impulso de alegria, de clareza, de algo menos triste. Então, o nascimento da bossa nova foi muito importante.


Há novos projetos sendo desenvolvidos para o próximo ano? Poderia compartilhar um pouco deles conosco?


Vou gravar alguns discos. No primeiro semestre, um projeto para a Natura, com parceria com Dona Onete, Gil, Céu, Tulipa... Vou gravar um disco também em parceria com meu filho Donatinho, para o segundo semestre. Vou gravar também com o pessoal do jazz, da Califórnia, fazer mais um disco de jazz. E por enquanto é isso, incluindo minha peça sinfônica de Ravel e Debussy, que ando escrevendo há bastante tempo.


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