Sucesso popular da sofrência renova o apelo da música de dor de cotovelo nas mesas de bar

Esse tipo de música, trilha sonora oficial dos botecos mais vagabundos, foi muitas vezes desprezado, mas nunca deixou de ter a dignidade dos que sentem uma dor de cotovelo sincera

Por: Eduardo Cavalcanti & Fernando Russel & Colaboradores &  -  14/02/21  -  18:10
Sucesso popular da sofrência renova o apelo inesgotável da música de dor de cotovelo
Sucesso popular da sofrência renova o apelo inesgotável da música de dor de cotovelo   Foto: Divulgação

Desde que Waldick Soriano, de chapéu preto, óculos escuros e cara de mau, perguntou "quem és tu para manchar meu nome?" à mulher que tirou da rua e tornou "dona do lar", meio século de sofrimento se passou, em mesas de bar na madrugada e, acima de tudo, no alto das paradas de sucesso. Esse tipo de música, trilha sonora oficial dos botecos mais vagabundos, foi muitas vezes desprezado, mas nunca deixou de ter a dignidade dos que sentem uma dor de cotovelo sincera.


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Jovens nos anos 70 achavam que o fino da fossa era se encharcar de vodca barata e batida colorida de supermercado ouvindo Love Hurts, do Nazareth, e esnobavam o grande Odair José, que ia muitos passos além, em 'Vou Tirar Você Desse Lugar'. É de se pensar no pragmatismo de um homem que vai procurar o amor perdido num lugar de reputação duvidosa e promete a quem lhe deu alento: "Eu vou tirar você desse lugar/Eu vou levar você pra ficar comigo/E não me interessa o que os outros vão pensar".


Sem ter a menor ideia disso, Odair era o equivalente politicamente correto dos que viam a mulher amada e perdida como o caminho para a ruína. Ele não só aceitava a amargura como um fato da vida, como buscava a redenção nos braços da mulher que outros descartariam por preconceito. A sofrência raiz era inclusiva, e não apenas vingativa, ou meramente conformada.


No reino do sofrimento de mesa de bar, a dramaticidade de cabaré brechtiano e o senso de dissolução existencial à la Charles Bukowski imperam. E Reginaldo Rossi é rei.


O Rei do Brega imortalizou a relação fraternal entre o garçom e quem ele ajuda a afogar as mágoas, por saber que "pra matar a tristeza, só mesa de bar". Para boa parte da população masculina, este é o epitáfio perfeito (e não aquele outro, água com açúcar, dos Titãs). "Quero tomar todas, vou me embriagar/Se eu pegar no sono, me deite no chão" é o derradeiro apelo de quem acaba de encontrar alguém que entende o suplício que vem do fundo poço. Para uma poesia assim, só enchendo de novo o copo e aumentan do o som.


Top cinco da sofrência


As clássicas


Reginaldo Rossi - Garçom (1987)
Odair José - Eu Vou Tirar Você Desse Lugar (1972)
Waldick Soriano - Quem és Tu? (1960)
Raul Seixas - Sessão das 10 (1974)
Amado Batista - Velha Carta (1981)


As modernas


Pablo - Homem Não Chora (2014)
Naiara Azevedo - 50 Reais (2016)
Simone e Simaria - Meu Violão e o Nosso Cachorro (2015)
Barões da Pisadinha - Recairei (2020)
Tierry - Motoboy do Delivery (2020)


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