Sambista de Santos relembra tempos da música no Macuco e Originais do Samba; VÍDEO

Vander do Surdo mora no prédio da antiga Casa de Saúde Anchieta e está sempre com o instrumento que lhe dá o apelido

Por: Ronaldo Abreu Vaio  -  01/11/22  -  09:17
Atualizado em 01/11/22 - 09:19
Compositor sem nunca ter lido uma nota, é autor do Alô Rapaziada, clássico na gravação do Grupo Família
Compositor sem nunca ter lido uma nota, é autor do Alô Rapaziada, clássico na gravação do Grupo Família   Foto: Matheus Tagé/AT

O mundo é logo ali, além da soleira do antigo hospital psiquiátrico Anchieta, em Santos. O mundo é o Marrocos e são os Estados Unidos. Mas quando Vander José Feliciano, de 66 anos, incorpora Vander do Surdo, o mundo é, sobretudo, o samba: desde que nasceu, habita em Vander uma infinidade de ritmos, circunscritos no perímetro do seu instrumento – redondo como o mundo. (veja o vídeo mais abaixo)


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“A música sopra no ouvido da gente: tá tudo na cabeça; depois é procurar os universitários”, sorri o também compositor que não sabe ler uma nota, mas que tem canções gravadas no mundo do samba, especialmente pelo Grupo Família. Entre elas, o Alô Rapaziada, uma homenagem a um amigo, cujo refrão é o famoso “parabéns pra você” em ritmo de samba rock, muito cantado até hoje nas festinhas de aniversário Brasil afora.


Mas essa é uma história que começa longe do pagode santista dos anos 90: em Uberaba, Minas Gerais, onde Vander do Surdo nasceu, filho de um músico, conhecido como Zé Apaixonado. De paixão em paixão, a casa da família foi ficando distante, até que um dia ele não voltou mais. Ficaram a mãe e cinco filhos. Vander sentiu a ausência. “Foi cruel. O filho sem pai perde a direção, se não tem a mão forte para pegar e dizer: ‘vem cá’”.


Quando Vander José Feliciano, de 66 anos, incorpora Vander do Surdo, o mundo é, sobretudo, o samba
Quando Vander José Feliciano, de 66 anos, incorpora Vander do Surdo, o mundo é, sobretudo, o samba   Foto: Matheus Tagé/AT

Sem rumo, aos 11 anos chegou a perambular pelas ruas de sua cidade. Mas foi salvo pela música. Primeiro, o surdo que lhe daria nome era uma lata: criança, batucava em bailes da periferia, sob a lona de antigos circos montados para animar o povo aos finais de semana. Na lata, acompanhava o ritmo da música. Chamou a atenção. Logo, estava no palco junto com a banda.


Na mesma época, preocupada com o destino errático do filho, a mãe o aproximou da igreja, na Nossa Senhora do Rosário. Do que mais gostava? Da congada, um cortejo dramático, com música e dança, que simula a coroação de um rei ou rainha, comum nos meses de maio em homenagem a Maria. Nelas, tocava o surdo. “A congada é uma escola de samba da religião, o ritmo é quase igual ao do samba, só que mais compassado”.


Essa constatação seria fundamental para estabelecer o ritmo do surdo de Vander pela vida afora. Inclusive na lendária escola Império do Samba, já em Santos.


Surdo ou estiva?
Aos 16 anos, Vander do Surdo chegou na Cidade. Já tinha duas irmãs aqui, veio tentar a vida. Porém, logo a vida se impôs: Vander descobriu que seria pai. Hoje, já são cinco filhos, 11 netos e 4 bisnetos. Está casado há 52 anos. O início, como se supõe, não foi fácil. Vander foi morar com as irmãs no final da Rua João Guerra. no Macuco. Reduto de várias agremiações de Carnaval, incluindo a escola Império do Samba. Vander se animou. “Cheguei, ‘posso fazer uma fezinha no surdo?’. A resposta: ‘aqui, fezinha só na estiva’”.


A princípio, nem uma coisa nem outra. Mas na pressão da sobrevivência, aceitou o convite de um conterrâneo para ajudá-lo numa empreitada de pintura de paredes. Lixou, passou massa corrida e acabou por adotar a profissão que o sustenta e à família até hoje. Mas não deixou de lado o sonho do surdo: entregou-se à Império do Samba. Não demorou, percebeu-se que ele sabia do riscado. “Consegui mostrar que sou surdeiro por causa da congada”, diz, em uma espécie de agradecimento.


Vander do Surdo: “Consegui mostrar que sou surdeiro por causa da congada”
Vander do Surdo: “Consegui mostrar que sou surdeiro por causa da congada”   Foto: Matheus TAgé/AT

Originais do samba
A Império do Samba foi uma paixão musical de Vander – e também a porta para o vasto mundo do samba. Um mundo com muitos caminhos. Um deles levou o surdeiro aos Originais do Samba. “O Joãozinho Carnavalesco (que é de São Vicente), do Trio Mocotó, me levou para fazer o teste”.


Mas ao ser aprovado no grupo formado em 1960 e que teve o humorista Mussum na linha de frente, já nos anos 80, o sucesso não era o mesmo das duas décadas anteriores, Os shows eram espaçados, o cachê incerto. Mesmo assim, ainda recorda de apresentações no Clube do Bolinha, Programa Raul Gil e no icônico Perdidos na Noite, comandado por Fausto Silva. Mas nada que garantisse o feijão com arroz na mesa da família.


“Estava na linha de frente dos Originais. Tinha que subir (a São Paulo) ensaiar coreografia, mas não recebia, só nos shows. Eu perguntava: ‘tem show?’. Me diziam: ‘quase fechamos (o show). Eu respondia: ‘e eu quase paguei o aluguel’. Aí, ficou difícil conciliar: às vezes estava pintando um apartamento, surgia um show na Bahia... não podia largar o apartamento das pessoas”.


Resultado: Vander foi um ‘original’ da linha de frente por sete meses. Depois, pediu para sair. Não deixaram: que ficasse na banda de apoio. Foram então nove anos. Nesse período, quase embarcou no ‘sonho americano’. Estava tudo certo: em uma viagem para tocar nos Estados Unidos, ele e mais dois ficariam por lá de vez. “Eles acabaram dando para trás. E eu não ia ficar sozinho”.


Vander foi um ‘original’ [dos Originais do Samba] da linha de frente por sete meses
Vander foi um ‘original’ [dos Originais do Samba] da linha de frente por sete meses   Foto: Matheus Tagé/AT

Luanda e Casablanca
No pós-Originais, Luanda. Vander tocou na casa que fez história em São Vicente, na virada dos anos 80 para os 90. Foi lá que compôs a maioria das canções incluídas no álbum do Grupo Família. E, de lá, foi a Casablanca: uma turnê de três meses por hotéis do Marrocos, tocando música brasileira. “Era para ganhar US$ 1 mil por mês”.


Era. Já na chegada, os passaportes foram retidos pelo empresário local. Os shows se sucediam, as viagens também – conheceram Rabat e Marrakech – e nada do dinheiro prometido. A certa altura, até o empresário tinha sumido. “Estava preso na Espanha”, recorda Vander. “No último hotel, o gerente se compadeceu, fez um contrato com a gente”.


A essa altura, só queriam dinheiro para voltar ao Brasil. Uma sucessão de coincidências fez com que o som do grupo chegasse aos ouvidos do próprio rei do país, Hassan II, que gostou muito do que ouviu. “Voltamos para o Brasil de primeira classe”, gargalha.


Estudos
Vander e a família moram hoje na ocupação do prédio da antiga Casa de Saúde Anchieta, com mais 67 famílias. O samba segue vivo e pulsante, mas faltou um ritmo na vida dele: os estudos. “Pago por não ter estudado. Essa é minha agonia. De criança, não houve direção. Depois, no madureza, era dureza: com filhos, tinha que trabalhar. Se tivesse estudado, teria letras melhores”.


Mas os sonhos não morrem por isso. Como ele diz, “Deus não dá uma coisa, mas dá outra”. Um dia, quem sabe, o sonho de Vander vai se concretizar – de novo: “Quero fazer mais músicas que as pessoas cantem”.


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