'Preconceito é filho da ignorância, mas a intolerância está barulhenta', diz Dan Stulbach

Ator conta como se sentiu ao saber que "A Força do Querer" seria reprisada e revela algumas lembranças dos bastidores da história de Gloria Perez

Por: Do Estadão Conteúdo  -  04/01/21  -  09:34
Dan confessa o motivo de não gostar de assistir aos próprios trabalhos
Dan confessa o motivo de não gostar de assistir aos próprios trabalhos   Foto: Victor Pollak/Globo

Dan Stulbach ainda se lembra de todas as vezes em que Eugênio foi chamado de “banana”, por cair nas armações de Irene (Débora Falabella), em A Força do Querer. No entanto, a novela das 21h da Globo, exibida originalmente em 2017, marcou o ator muito mais pelo núcleo familiar. O advogado e a esposa, Joyce (Maria Fernanda Cândido), precisam lidar com a transexualidade de Ivana/Ivan (Carol Duarte). Para Dan, o folhetim cumpriu o objetivo de explicar quem são essas pessoas, apesar de ainda existir ignorância e rejeição por parte da sociedade.


Clique e Assine A Tribuna por apenas R$ 1,90 e ganhe acesso completo ao Portal e dezenas de descontos em lojas, restaurantes e serviços!


Na entrevista a seguir, o paulistano de 51 anos conta como se sentiu ao saber que A Força do Quererseria reprisada e revela algumas lembranças dos bastidores da história de Gloria Perez. Além disso, o ator compara o impacto do núcleo de Eugênio, discutindo a transexualidade, com o provocado pelo personagem Marcos, de Mulheres Apaixonadas (2003), que agredia a esposa, Raquel (Helena Ranaldi), com uma raquete de tênis. Atualmente, o sucesso de Manoel Carlos está sendo reprisado pelo Viva. Por fim, Dan confessa o motivo de não gostar de assistir aos próprios trabalhos e o que havia de especial nas cenas que gravava com Carol Duarte.


Como se sentiu quando soube que A Força do Quererseria reprisada?


Quando soube, fiquei muito feliz. Achei que era importante nesse momento. Não é em toda novela que você recebe abraços fortes das pessoas. Tínhamos um elenco unido, junto com uma direção atenta e generosa e uma autora muito perspicaz, como a Gloria Perez, que nos deu a oportunidade. Isso é uma coisa rara de acontecer na mesma hora. A Força do Quereré um grande acerto.


Depois de alguns anos, como vê o Eugênio de A Força do Querer?


Eu aprendi muito com esse trabalho, com o tema que o núcleo do Eugênio discutia, como a preferência e a identidade sexual. A Força do Quereré um folhetim absolutamente corajoso. A autora, diretores e atores ambicionaram ir além do entretenimento. Passei por um personagem, o Marcos, que questionava a violência doméstica, em Mulheres Apaixonadas(Globo, 2003), que também tinha esse impacto. Enfim, saí um ser humano diferente de cada projeto em que entrei.


Por que você saiu diferente desse projeto?


Porque foi a novela em que mais pessoas me abordaram na rua para falar sobre ela, agradecer por levantar esse tema e, de alguma maneira, mudar essa realidade. Somos ingênuos, sonhamos com um país melhor. Saio diferente e encontro o Brasil de outra forma também: nosso país piorou. Se as pessoas tinham ressentimento de mostrar sua intolerância, hoje elas têm orgulho de exibi-la. Continuo achando que o preconceito é filho da ignorância, mas o lado da intolerância está barulhento.


Que lembranças você guarda na memória da época em que gravou A Força do Querer?


Eu não gravava com o Emílio (Dantas) nunca, por exemplo, mas admirei muito os atores e fiquei orgulhoso de estar ao lado de todos. Quando vi a Paolla (Oliveira) lutando, fiquei impressionado. Também me recordo que fiz entrevistas com algumas pessoas e os pais, naturalmente, se identificavam com o meu personagem, porque não sabiam como lidar com a transexualidade. Todos amavam seus filhos, mas não sabiam como amá-los. A gente trabalhou muito isso, pois o Eugênio estava procurando saber, mas não tinha opinião formada. Em cena, eu estava raciocinando junto com as pessoas que assistiam ao folhetim.


Você falou que admira o trabalho dos colegas, mas gosta de assistir às suas cenas também?


Eu não gosto de ver minhas cenas. Não vejo, porque me emociono com muita facilidade, lembro o contexto todo. Às vezes, você faz uma cena que acha o máximo e as pessoas não veem dessa forma. Em outras, é o contrário, pois você não liga e o público pensa que é incrível. O ator tem mais prazer nas cenas em que pode criar a partir de certo ponto e expressar a sua opinião.


O que tem de especial nas cenas de A Força do Querer?


Essa novela foi corajosa de várias maneiras, no tema, na escrita. Uma direção que te permite ficar em silêncio é maravilhosa. As cenas podiam ter pausa e o silêncio era preenchido. A trama respeita a inteligência do público. Em muitos momentos, televisão é ritmo. Então, não se permite isso, porque tem que fazer o corte. Mas, ali, era permitido. Isso acontecia, principalmente nas cenas com a Carol (Duarte).


Logo A Tribuna