Nuno Mindelis faz autorretrato no livro 'Por que não sou um bluesman: seis mil anos'

A obra, que ele chama de 'biografia romanceada', apresenta quatro lados do músico reconhecido internacionalmente

Por: Beatriz Viana  -  20/01/21  -  14:04
O músico saiu de Luanda, capital de Angola, aos 17 anos
O músico saiu de Luanda, capital de Angola, aos 17 anos   Foto: Vladimir Fernandes/divulgação

A construção de nossa identidade é um processo natural. Como várias realidades paralelas se cruzando, diferentes aspectos de nossas vidas se conectam e formam versões divergentes de quem somos. Com muito senso de humor, Nuno Mindelis unifica suas pluralidades no livro Por que não sou um bluesman: seis mil anos.


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Creditada pelo músico como uma biografia romanceada, a obra apresenta quatro lados de Nuno: Mintcho, Martim, Macedo e um narrador anônimo. Cada um deles carrega memórias de diferentes fases da vida do autor. Entre as reconstruções, ele relembra suas raízes na busca para tornar-se alguém 'quase inteiro'.


“Para tentar colar esses cacos todos, surgiu a ideia de criar essas personalidades”, revela Nuno. Por meio de recortes de sua própria história, o artista mescla lembranças da infância, música, perdas, amigos e suas memórias como exilado. O livro já está pronto há pelo menos dez anos.


“Eu escrevi de uma vez. Não teve organização, capítulo, revisão, zero. Foi 'puf!', tudo pronto. A história não teve qualquer premeditação. Foi escrita da forma que está. Escrevi porque foi uma necessidade mental, orgânica, pensando: 'quem sabe eu lanço isso um dia'”, confessa Nuno.


Exílio


As vivências como exilado permeiam todos os caminhos de Nuno. O músico saiu de Luanda, capital de Angola, aos 17 anos. Desde então, a repatriação não foi uma jornada fácil. “Você é estrangeiro para sempre, mesmo quando volta para sua terra, ou em qualquer lugar do mundo. Para mim, me sinto genuinamente brasileiro”, reflete ele, aos 63 anos.


Entre os relatos descritos na obra, os mais dolorosos foram aqueles que o autor esqueceu. “O mais duro são as coisas das quais você não se lembra. Essas são as que doem mais”, comenta. “Eu perdi tudo, literalmente. Fiquei com a roupa do corpo. Quando você consegue se lembrar de alguma das coisas que perdeu, seja lá o que for, é uma recompensa”.


Entre várias perdas materiais, como violões e LPs, Nuno reflete que a importância não está em possuir coisas, mas sim no que elas representam em nossas vidas. “As coisas vão desvanecendo, se tornando nebulosas, como quando alguém morre e você começa a esquecer o rosto da pessoa. Sua memória vai borrando as imagens das coisas. É um trauma, um buraco. Uma das piores coisas é perder as suas raízes, e é uma coisa que as pessoas talvez não atentem”.


Uma das perdas mais significativas para o artista foram suas fotografias. “Você de repente não sabe como era aos 12 ou 14 anos. Tem períodos que eu não tenho referência nenhuma, não sei como eu era”. Por mais que as memórias sejam dolorosas, o autor ressalta que este não é um grande drama sobre o exílio. “Em algum momento, eu revivi coisas para escrever.


Mas achei uma maneira mais divertida de contar essa história, com bom humor o tempo todo, apesar de todos os dramas”. Sua biografia não convencional reflete sobre vários outros temas de forma despretensiosa. Publicado de forma independente pelo Kindle Direct Publishing (KDP), em formato ebook, a obra física será lançada em breve.


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