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Moradores de Santos fazem arte com design de rótulos de cerveja

Arte e consumo podem se cruzar com naturalidade na prateleira do supermercado

Por: Ronaldo Abreu Vaio  -  01/08/21  -  13:40
Atualizado em 21/08/21 - 23:54
 Mariana Antonucci, de 20 anos, foi convidada pela Estiva, cervejaria artesanal santista, para delinear rótulos da marca
Mariana Antonucci, de 20 anos, foi convidada pela Estiva, cervejaria artesanal santista, para delinear rótulos da marca   Foto: Vanessa Rodrigues/AT

O que a Mona Lisa, ícone do Museu do Louvre, tem a ver com uma lata de sopa? Tudo, se considerarmos a arte por um prisma mais amplo, com raízes no cotidiano – algo que o movimento da pop art vem fazendo com afinco desde os anos 1950. Em uma cultura de massa, pós-revolução industrial, arte e consumo podem se cruzar com naturalidade na prateleira do supermercado.


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“(Essa concepção) tira a aura sagrada da arte, tem características de publicidade”, afirma a jornalista, especialista em Artes Visuais pela Fundação Armando Álvares Penteado (Faap), colunista de A Tribuna e professora da ESAMC, Carlota Cafiero.


Um dos precursores dessa movimentação para dessacralizar a arte – ou ‘artificar’ o dia a dia – foi o francês Marcel Duchamp. Ainda em 1917, inscreveu um simples mictório de louça na exposição da Associação de Artistas Independentes de Nova Iorque, cuja única exigência para expor era pagar a taxa de US$ 6,00. Porém, a comissão não esperava um mictório e a obra foi rejeitada, não sem um certo frisson.


Nascia ali o conceito de ready made, que é justamente a transposição de um elemento da vida cotidiana, a princípio não reconhecido como artístico, para o campo das artes. Assim, Duchamp pode ser inserido no movimento dadaísta, que propunha uma ‘arte do caos’, de protesto, desconstruindo conceitos da arte tradicional. “Jogam essa questão: o que é arte? É o que emociona? É o que faz refletir? É a técnica? É um dilema”, completa Carlota.


Da provocação à massificação


Equiparar Mona Lisa a uma lata de sopa, como fizemos no início desta matéria, não foi um ato fortuito. A lata tem nome, sobrenome e pedigree: é a da sopa Campbell, uma marca norte-americana comum até 1962. Nesse ano, o artista Andy Warhol criou 33 quadros em uma técnica mecanizada de serigrafia, reproduzindo cada lata dos sabores da Campbell’s Soup. Uma linha tênue havia ali sido ultrapassada.


“Se você olhar uma lata no supermercado, você não se sente diante de uma obra de arte. Mas quando a lata vai para a galeria, sim”, pondera Carlota. “A marca mudou ao longo dos anos, mas ele eternizou esse rótulo”, completa.


A partir da amplitude da obra de Warhol, a relação entre objetos de consumo e arte se estreitou. Ao ponto de muitas marcas procurarem a arte e o artista para criar identidades específicas. Nesse sentido, saltam aos olhos os rótulos de latas e garrafas de cerveja artesanal. Coloridos, chamativos e, sobretudo, que transmitem o espírito do produto ali contido.


 O publicitário Rodrigo Bicudo também é o artista por trás dos rótulos da Bicudo Brewing
O publicitário Rodrigo Bicudo também é o artista por trás dos rótulos da Bicudo Brewing   Foto: Matheus Tagé/AT

Estímulo ao paladar e ao olhar


O publicitário Rodrigo Bicudo uniu as paixões pela arte e pela cerveja. Além de comandar uma agência de publicidade, fundou a Bicudo Brewing. E é ele mesmo quem cria o conceito e desenha os rótulos.


“A cerveja artesanal, no Brasil, se inspira nas norte-americanas, com rótulos despojados, influenciados pela arte urbana e pelos quadrinhos. Os das europeias já são mais austeros”, explica.


A coisa é tão séria que, segundo ele, as marcas de lá chegam a fazer parcerias com artistas para desenvolver os rótulos. Assim, nesse mundo de fortes estímulos ao paladar e ao olhar, natural que surjam colecionadores – e não só da bebida. “Tem gente que me pede lata vazia”, sorri. Uma lata única, mas que também é várias.


Réplicae original


Eis outro ponto de interrogação para a arte, já estudado pelo filósofo alemão Walter Benjamin, no livro cujo nome já diz tudo: A Obra de Arte na Era de Sua Reprodutibilidade Técnica.


Da mesma forma que todos podem ter a lata de cerveja, qualquer um pode ter na sala de estar uma reprodução perfeita da Mona Lisa. Mesmo assim, milhões de pessoas acorrem ao Louvre a cada ano, para ver o quadro original. “Por qual motivo? A reprodução nunca vai trazer a aura, a história, o peso do tempo por trás da obra original”, analisa Carlota.


A artista Mariana Antonucci dos Reis tem apenas 20 anos, mas foi convidada pela Estiva, cervejaria artesanal santista, para delinear rótulos da marca. Com escola no grafite e na ilustração, ela afirma gostar do trabalho por encomenda, mais até do que a criação espontânea. “A encomenda tem um conceito, uma ideia. Quando desenho para mim, não há a obrigação de mostrar”. Mariana se sente vivendo o sonho de ser reconhecida pela arte. “Desejo seguir fazendo isso (na vida)”.


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