Marcelino Freire conta sobre carreira e do novo livro "Bagageiro"

Obra do pernambucano é uma mistura de narrativas, ensaios e aforismos

Por: Vinicius Holanda  -  11/12/18  -  11:50
  Foto: Marco Del Fiol/Divulgação

Sérgio Sampaio, genial cantor capixaba, já dizia que “um livro de poesia na gaveta não adianta nada/ lugar de poesia é na calçada”. Ainda que não se considere poeta, o escritor Marcelino Freire parece concordar totalmente com o compositor.


O pernambucano de Sertânia construiu a carreira de cerca de 30 anos fazendo questão de colocar abaixo a imagem do escritor preso em um pedestal. Levou, na marra, seus escritos para a rua. Organizou festivais (como a Balada Literária), antologias, uma editora (Edith), saraus e tomou muita cerveja com seus leitores. Não por acaso, se tornou uma espécie de artista-catalisador na cena literária pós-anos 1990.


Prova de seu desprendimento é que o troféu do Prêmio Jabuti de Literatura de 2006, que venceu com Contos Negreiros, repousa numa prateleira da Mercearia São Pedro, bar frequentado por ele na Capital. O autor acaba de lançar Bagageiro (Record), obra inclassificável dentro de sua trajetória – um misto de narrativas, ensaios, aforismos. Ou nada disso. O que ainda faz sentido.


O Bagageiro é um livro ‘fora do eixo’ dentro da sua obra, não? É possível rotulá-lo?


Costumo fazer esse tipo de confusão em todos os meus livros. Nunca chamo meus contos de contos. Uma hora, chamo de improvisos. Noutra, de cirandas. Neste Bagageiro, resolvi chamar de ensaios. Porque hoje todo mundo quer ter razão. Aí eu apelei para o meu lado racional, para não dizer irracional. Cada conto é um tratado sobre alguma coisa: a poesia, o dinheiro, o prazer. É um livro, de fato, inclassificável. Completamente fora de categoria.


Você já vinha escrevendo os textos que formam a obra ou os fez já pensando em lançar nesse formato?


Tenho um blog chamado Ossos do Ofídio. Ele está um pouco parado, mas ainda existe. Lá eu vinha colocando faz um tempo o que eu chamava de Ensaios de Improviso. Muito do que eu falo em minhas oficinas de criação literária eu discutia nessa seção. Dava dicas de escrita, de reescrita, contava encontros meus com poetas como Manoel de Barros. Aí resolvi enxugar, colocar umas faíscas desses escritos. O embrião veio dali.


A ironia, mais uma vez, é matéria-prima para sua produção. Algo que você faz desde o início. É pensado ou espontâneo?


Não dá para aguentar a realidade à nossa volta se a gente não tirar uma onda, ironizar, provocar. Eu tiro sarro, por exemplo, de mim mesmo. Não me levo a sério. A cada bloco de ensaios no Bagageiro, eu enfiava um microconto pornográfico lá no meio. Só para desviar. Para surpreender a mim mesmo. Eu sou o mais ridículo de todos ali.


Em Bagageiro, são vários os assuntos abordados. Sobre o que é mais fácil e mais difícil, para ti, tratar?


No momento, estou sofrendo quando falo do Brasil. Este é um livro inquieto. Não sei bem o que ele é, o que ele diz. Só vou entender daqui a um tempo. Mas sinto que ele fala com esse momento atual, atira alguns recados ao tempo que está aí, ao ódio reinante. Não queria que o livro fosse assim, mas acaba sendo. Um cutucão qualquer. Não é fácil ficar batendo nessa mesma tecla, entende? Sobre o que é mais fácil contar? Sobre sexo. Eu relaxo quando gozo sobre esse tipo de assunto.


A queda pelo aforismo, como já se via no era Odito (2002) e nos microcontos, por exemplo, também reaparece. De onde surgiu essa tendência?


Adoro pensamentos curtos, pinceladas, raios certeiros. Leio muito os diários de Kafka. Tenho muitos diários em casa: de Salvador Dalí, de Francisco Brennand (a quem o livro é dedicado), de Nijinski. Sou devoto da Bíblia do Caos de Millôr Fernandes, ele que é muito citado neste Bagageiro. Vivo anotando umas frases sobre o mundo. Colho na rua muito do que escrevo. É o tempo inteiro viajando...


Tua escrita, ao mesmo tempo em que é muito reta, sem firulas, é permeada por uma brisa poética. Como você desenvolveu seu estilo? Você acha que mudou com o tempo?


Tenho um cagaço de dizer que eu sou poeta. Por isso faço umas gambiarras entre prosa e poesia, entre história e ladainha. Gosto de escrever a partir de uma primeira frase e sair improvisando. Vou escrevendo de ouvido. Tudo isto é recurso poético, uma frase enganchando na outra, um ritmo prendendo e soltando o verbo.


É verdade que você está burilando dois romances? Em que pé estão no momento?


Tenho dois romances engavetados. E continuarão lá, presos na gaveta, para tomarem vergonha na cara. Estão muito donos de si. Juraram que eu ia publicá-los. Não publiquei. Preferi o Bagageiro. Este livro que lancei, como falei, é um mistério para mim. Já os dois romances eu estava sabendo muito sobre eles. Estavam vaidosos demais. Quando baixarem a bola, eu volto a dar bola para eles. Por enquanto, é esse desprezo total.


O Angu de Sangue, seu primeiro livro de contos e com o qual ganhou repercussão nacional, completou 18 anos de lançamento. Após a maioridade, o autor daquela obra ainda é o mesmo de hoje?


Aquele Angu de Sangue continua quente. Eu gosto da mistura dele, das falas ali, teatrais, sacudidas. Muitos de meus contos são adaptados para teatro. Há peças atualmente em cartaz que usam de alguns contos deste Angu. Infelizmente, são contos violentamente atuais. O Brasil só tem piorado. Foi um livro muito sincero. Escrevi assim, cheio de sinceridade. Isso não mudou. Mas não gosto de reler os livros que fiz.


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