Gal Costa, uma das maiores vozes da Música Popular Brasileira, é eterna

Cantora morreu nesta quarta-feira (9), em recuperação de uma cirurgia na fossa nasal direita

Por: Ronaldo Abreu Vaio  -  10/11/22  -  06:59
Atualizado em 10/11/22 - 11:57
Gal morreu aos 77 anos, nesta quarta-feira (9)
Gal morreu aos 77 anos, nesta quarta-feira (9)   Foto: Divulgação

Maria da Graça Costa Penna Burgos morreu nesta quarta-feira (9), aos 77 anos. Gal Costa, porém, é imortal: a imagem, o riso, a voz de uma das maiores cantoras que o País já viu e ouviu ecoará para sempre no imaginário da Música Popular Brasileira, como um totem, que assinala um ponto na geografia de um lugar – a força estranha que sempre estará pelo ar.


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Maria da Graça estava em recuperação de uma cirurgia para retirada de um nódulo na fossa nasal direita. A operação ocorreu em setembro, logo após Gal ter se apresentado no Festival Coala, na Capital. A causa da morte, bem como informações sobre velório e enterro, ainda não foram divulgadas.


Para o jornalista e articulista musical de A Tribuna Julinho Bittencourt, Gal Costa é uma artista imprescindível, tanto pela voz quanto pela qualidade do canto. “Ela era muito sofisticada no repertório, tinha uma necessidade permanente de buscar o novo. Era uma das grandes artistas do mundo”.


Julinho ressalta a ousadia e a versatilidade de Gal. “Ela ia de João Gilberto a Janis Joplin. Sabia cantar suave, de repente berrava como a Janis. Fazia rock e bossa nova, era ao mesmo tempo um barquinho tranquilo e um mar revolto. Essa multiplicidade de estilos é o que a diferenciava muito, era de uma grandeza absoluta”.


Eletricidade
De certa forma, essa versatilidade de Gal renovou a MPB com a “eletricidade”, segundo o jornalista, crítico e escritor Jotabê Medeiros. “Quando surgiu a Tropicália, com a proposta de trazer a Jovem Guarda, o Modernismo, a guitarra pra MPB, o Caetano colocou a Gal no circuito, e ela foi a artista que melhor sintetizou essa ambição”, analisa.


Jotabê cita o primeiro disco de Gal Costa, de 1969, como um pilar dessa simbiose. “Tem Roberto e Erasmo Carlos, Jorge Ben, forró. Esse é o papel histórico dela”.


O álbum citado por Jotabê traz apenas o nome e uma foto da cantora na capa. Entre as canções: Não Identificado, de Caetano Veloso, A Coisa Mais Linda que Existe, de Gilberto Gil e Torquato Neto, Que Pena, de Jorge Ben, e uma versão “nervosa” de Se Você Pensa, de Roberto e Erasmo Carlos.


Assim como Julinho, Jotabê também cita Janis Joplin, mas vai mais longe: para ele, Gal foi o equivalente brasileiro da cantora norte-americana. “O que a Janis fez lá, de pegar o blues e colocar uma dose de ‘nervosismo’, ela fez aqui com a MPB”, sorri.


Gal conseguia cantar com a mesma desenvoltura peças díspares, como composições populares de Michael Sullivan e Paulo Massadas (Sou Mais Eu), e outras gemas do cancioneiro, como O Amor, poema do russo Vladimir Maiakovski, musicado por Caetano Veloso. Nesse aspecto, segundo Jotabê, uma palavra a define: arte. “Nenhuma cantora que surgiu após a Gal foge de sua influência”.


Aguda sem culpa
Monna que o diga: a cantora santista relembra o quanto Gal, mesmo sem saber, foi importante para afirmar a sua própria voz. “Canto desde os 15 anos, comecei na música erudita, depois fui para a MPB”, relembra. “Meu timbre é mais agudo. Pela Gal, vi que podia usar meus agudos sem culpa”.


A cantora cita ainda técnicas de respiração e interpretação, e a dança de Gal, como inspirações à sua própria arte. A tal ponto que Monna fez um show, no Sesc, em 2015, cantando músicas interpretadas por Gal Costa. “Foi um show difícil, pelos tons altos das músicas”. O espetáculo está disponível no canal do YouTube Rearranjos Gal Fantasia.


Vida e obra
Maria da Graça Costa Penna Burgos nasceu em Salvador, em 26 de setembro de 1945. Em 1963, conheceu Caetano Veloso. A primeira aparição gravada, já no Rio de Janeiro, se deu em 1965 no duo Sol Negro, no álbum de estreia de Bethânia. Logo a seguir, gravou o primeiro compacto, com canções de Caetano e Gil. Já o primeiro álbum foi em dueto com Caetano, Domingo, em 1967. Em 1968, apareceu no álbum Tropicália.


Maria da Graça Costa Penna Burgos nasceu em Salvador, em 26 de setembro de 1945
Maria da Graça Costa Penna Burgos nasceu em Salvador, em 26 de setembro de 1945   Foto: Divulgação

Em 1971, lança Fa-Tal/Gal a Todo Vapor, registro ao vivo de sua turnê, considerado um dos mais importantes álbuns de sua carreira. Outro ponto alto veio em 1975, com a canção Modinha para Gabriela, abertura da novela Gabriela, na Globo. Em 1981, lança Fantasia, com canções como Meu Bem, Meu Mal, Festa do Interior, Açaí (Djavan) e Canta Brasil. Em 1982, outro álbum de muito sucesso, emplacando canções que se tornaram emblemáticas em sua voz, como Azul (Djavan), Bloco do Prazer (Moraes Moreira) e Pegando Fogo. Em entrevistas, revelou não ter conseguido engravidar por causa de uma obstrução nas trompas.


Em 2007, aos 60 anos, adotou um menino de 2 anos, que sofria de raquitismo devido à condição de miserabilidade em que vivia. Ela o batizou de Gabriel. Em entrevistas, disse que o processo de adoção foi rápido, pois ele não contemplava as características físicas que a maioria dos adotantes procurava.


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