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Comunidade trans brasileira representada no Festival de Sundance

Curta-metragem 'Inabitável' é selecionado para o tradicional evento de cinema independente, nos Estados Unidos

Por: Beatriz Viana  -  28/01/21  -  13:05
A atriz Luciana Souza vive uma mãe em busca de sua filha, uma mulher trans que está desaparecida
A atriz Luciana Souza vive uma mãe em busca de sua filha, uma mulher trans que está desaparecida   Foto: Divulgação/Gustavo Pessoa

Sendo o único curta-metragem brasileiro selecionado para o Festival de Sundance, Inabitáveldenuncia as violências silenciadas de partes da população brasileira, em especial da comunidade trans. O filme dirigido por Mateus Farias e Enock Carvalho passou por mais de 20 festivais nacionais e ocupa um espaço merecido na premiação, que seleciona poucos filmes latino-americanos.


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Para os diretores, o reconhecimento em Sundance ilumina pautas urgentes. “Fomos pegos de surpresa com o contato, celebramos muito. Foram mais de nove mil filmes inscritos e o nosso é o único curta-metragem brasileiro na competição”, afirma Enock. “O filme cresceu e inicia uma nova fase em Sundance. De certa forma, penso que mostra um lado da cultura brasileira, da violência, que precisa ser visto”, completa.


O curta foi altamente premiado no Festival de Gramado, e agora vive novas oportunidades enquanto reverbera no radar dos festivais internacionais.


Uma busca


Em apenas 20 minutos, Inabitávelfaz múltiplas denúncias de transfobia, racismo e machismo. O curta mostra a busca de Marilene (interpretada por Luciana Souza) por sua filha, uma mulher trans que está desaparecida. Ela conta com a ajuda da amiga da filha e uma vizinha, enfrentando o temor constante de um destino trágico. O desfecho, porém, surpreende ao levantar a esperança de dias melhores: ela encontra, no fim das contas, um lugar possível para viver.


A narrativa é composta essencialmente por olhares e silêncios, que são extremamente significativos pela interpretação primorosa de Luciana. Os temas relacionados ganham uma abordagem sensível e autêntica, que garante uma forte identificação.


Para a atriz, o filme coloca muitas questões intrínsecas em pauta. “Ele coloca o desaparecimento como uma representação da invisibilidade. Existem camadas sociais que sempre estiveram à margem, e mesmo com toda a evolução da humanidade, isso ainda se perpetua”.


“Também há um isolamento profundo: Marilene só tem aliadas, a vizinha, a amiga, e isso também mostra muito do descrédito à mulher. Se a gente olhar a história da construção das comunidades, das favelas, tem muito dessa ausência e descaso do poder público, um silenciamento de pessoas que também constituem a sociedade”, conclui.


O tema central da obra, segundo Mateus, é o medo. “Existem pessoas que vivem com medo, sendo ameaçadas todos os dias. Quando a gente coloca o desaparecimento de uma pessoa trans pautando esse medo central do filme, falamos na verdade da linha de frente de quem sente medo no Brasil: é o povo preto, o povo periférico, o povo LGBTQI+, principalmente os transsexuais e as transsexuais”. O argumento da obra, bem como de sua protagonista, é a realidade dessa violência diária, que é crescente no Brasil.


Esperança


Entretanto, a obra não busca apenas chocar. Ela traz um contraponto interessante, com um desfecho sobrenatural que sinaliza haver “um lugar possível” de se viver em paz. Segundo Enock, o final busca trazer esperança e aguçar a imaginação, revelando também um sonho por dias melhores.


“Pode demorar muitos anos, mas eu preciso acreditar que as coisas vão melhorar. As peças do jogo estão se alinhando, mesmo que lentamente. O percurso é longo, mas a esperança tem que existir”.


O Festival de Sundance começa hoje e segue até 3 de fevereiro. Nesse intervalo, os filmes selecionados pela mostra estarão disponíveis no site, mediante compra de ingressos, que variam entre 15 e 25 dólares.


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