Celebração dos 40 anos da Blitz terá novidades, diz Evandro Mesquita

Banda prepara quatro CDs, incluindo um de inéditas

Por: Ronaldo Abreu Vaio  -  14/01/22  -  12:07
Atualizado em 14/01/22 - 12:10
Evandro Mesquita
Evandro Mesquita   Foto: Divulgação

Há 40 anos, uma trupe musical apontou o dedo na cara do Brasil e cantou: “você não soube me amar”. Pra quê? À medida que a canção era ouvida de rádio em rádio, mais o Brasil amava o jeito extrovertido, colorido, solar da Blitz.


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Pouco tempo após o lançamento, o single Você Não Soube Me Amar vendeu milhões de cópias. Detalhe: o lado B do então disco era apenas o vocalista Evandro Mesquita repetindo num looping de alguns minutos: “nada nada nada...”.


E é ele mesmo, na entrevista a seguir, que relembra essa história carregada de aventura – não por acaso, o álbum de estreia da banda se chamaria As Aventuras da Blitz.


O sucesso colossal do grupo escancarou as portas de rádios e gravadoras para o que se fazia de música jovem naquele início dos anos 80.


Mas é impossível pensar na Blitz sem imaginar um grande espetáculo teatral. A começar pelo próprio Evandro, que era uma das figuras de frente do icônico grupo carioca Asdrubal Trouxe o Trombone.


Muito desse sucesso se deve a esse bem-sucedido, e bem humorado, casamento entre o teatro e a música. Tudo começou no início de 1981, quando Evandro e o então baterista Lobão (ele mesmo...) foram convidados para tocar na inauguração de uma boate, no Rio.


Os dois reuniram alguns amigos músicos, entre eles Fernanda Abreu e Márcia Bulcão, para os backing vocals. Já em 1982, foram parar no palco do Circo Voador, na Praia do Arpoador, endereço que ficaria marcado na história do que se chama hoje de Brock – o rock brasileiro dos anos 1980.


Ali, já se apresentaram como Blitz e na formação que viria a encantar o Brasil meses depois: além de Evandro nos vocais, Lobão na bateria e Fernanda e Márcia nos backings, a Blitz original era composta por Ricardo Barreto na guitarra, Antônio Pedro Fortuna no baixo e Billy Forghieri nos teclados. Por divergências, Lobão logo sairia da banda, seguindo em carreira solo, sendo substituído por Juba.


É possível dizer que a Blitz foi vítima do próprio sucesso. Após lançar três álbuns – além das Aventuras, Radioatividade e Blitz 3 - e rodar freneticamente o País tocando emginásios e estádios lotados, o desgaste se impôs e, em 1986, a magia se dissolveu. Na década de 90, a banda voltou, com Hannah Lima no lugar de Fernanda Abreu. No período, lançou dois álbuns, Ao Vivo e Línguas. Mas foi o sonho de uma noite de verão.


O ressurgimento só ocorreu de fato em 2006, com formação novíssima: apenas Evandro, Juba e Billy Forghieri permanecem. Nessa fase, já foram lançados três álbuns, incluindo Aventuras II, que levou a Blitz a dois passos do paraíso ao ser indicada ao Grammy Latino, em 2017, como Melhor Álbum de Rock em Língua Portuguesa.


Para celebrar os 40 anos, há novidades para passar mais de um weekend com você. É o próprio Evandro quem conta.


Você e a linha de frente da Blitz eram atores experimentando na música ou músicos experimentando encenar? O que vinha primeiro?
Eu era o ator da banda, trabalhava no Asdrubal Trouxe o Trombone, meu grupo de teatro que tinha a Regina Casé, Patrícia Travassos, Luiz Fernando Guimarães, Perfeito Fortuna, Fábio Junqueira e Nina de Pádua. A gente fazia um teatro não convencional, as pessoas falavam depois ‘poxa, adorei o show de vocês’ e era uma peça, mas tinha já uma energia rock’n’roll. Sempre pensei que as músicas da Blitz têm essa característica de crônica, essa coisa teatral. A gente trouxe as meninas do backing vocal pra frente, pra ter a oportunidade de dialogar, com humor. O visual também era importante. No Brasil, tinha uma coisa meio dark, no rock era todo mundo de preto, a gente veio com as cores, meio tropical, inspirado também no reggae, que tem a ver com o xote... tem essa mistura brasileira, com as informações de fora, sonoras e de tudo.


Como nasceu Você Não Soube Me Amar?
Nasceu nas fogueiras de Saquarema, nos luais. Essa música foi um pontapé na porta das gravadoras, das rádios, das televisões. Esse compacto vendeu mais de 1,5 milhão de cópias.


Como Você Não Soube Me Amar despertou o interesse das gravadoras? Houve alguma oferta?
Não teve oferta, nós é que fomos à luta. Fui na Odeon com uma fitinha cassete mostrar a nossa banda. O Mariozinho (Rocha, produtor musical) gostou pra caramba, deu carta branca pra gente começar a gravar o LP todo. A expectativa da gente é que aqueles 30 amigos da praia iam curtir, porque tinha a ver com o que a gente ouvia, não tinha nada a ver com o que estava no rádio à época. Era a trilha sonora dos filmes de surfe, que vinham de fora. Quando começou a tocar no rádio, foi uma dinamite geral no Brasil todo, em várias classes sociais. A gente tocava em bailes de subúrbio e nas boates chiques de Rio e São Paulo. Atingia as crianças, os mais velhos e a nossa geração, em cheio.


Quando vocês perceberam que estavam no olho de um furacão?
A primeira vez que a gente ouviu na rádio. Eu lembro que eu parei o carro, emocionado. Foi muito bom ver concluída essa parte, a expectativa de gravar um disco, de ter capa, de poder fazer shows, isso foi uma coisa maravilhosa. A gente tinha uma vida no underground, fazendo um teatro de sucesso. Já vivia de arte, pra arte. No Asdrubal, a gente ensaiava 10 horas por dia, com fome, mas com a certeza de que estava descobrindo uma forma nossa, brasileira, de atuar. O teatro não ficava aquela coisa distante, como uma peça russa ou inglesa: a gente falava da nossa juventude, pra nossa juventude.


Vocês tiveram um sucesso meteórico e estrondoso, que acabou cobrando um preço caro da banda. Teriam feito algo diferente?
Ninguém sabe... a gente tem feito- vamos continuar fazendo enquanto estivermos por aqui - e é isso. Sempre quando me perguntam: ‘do que você mais gosta?’, eu respondo: ‘eu gosto da próxima’, a que eu tô fazendo agora, gravando agora. Graças a Deus, a gente tem momentos sensacionais na nossa trajetória. A Blitz viajava com dois caminhões de iluminação, equipamento de som que só tinha em Rio e São Paulo. A gente começou a fazer shows em estádios, ginásios, no Brasil todo. Era demais.


Erasmo Carlos falou certa vez que muitas músicas da Jovem Guarda eram como histórias em quadrinhos. Pela característica visual das letras da Blitz, você considera que seja assim também?
Sim, a Blitz sempre teve um pouco dessa ligação com histórias em quadrinhos. Por elas, comecei a entender o mundo, o humor. Elas são uma crônica do cotidiano, bem-humorada, mas falando de coisas sérias também, sem serem panfletárias ou óbvias demais. A Blitz tem essa atitude política, libertária, e não óbvia. Mas também têm as influências musicais, claro. Moreira da Silva fez uma chamada Rei do Gatilho, que me marcou muito. Eu também ouvia O Calhambeque, do Roberto Carlos, que era uma história engraçada, com efeitos sonoros e uma linguagem mais direta. Isso foi uma inspiração, uma referência muito forte. Depois, Gil, Caetano, Mutantes, Novos Baianos, a Tropicália, Jackson do Pandeiro, Luiz Gonzaga, Noel Rosa, Adoniran... joga essas informações no liquidificador e sai a Blitz.


O sucesso da Blitz abriu a porta das gravadores para as bandas e artistas jovens dos anos 80?
Isso é a realidade. O sucesso da Blitz, numa época de crise do mercado, abriu as portas para a rapaziada mostrar os trabalhos. As gravadoras e rádios ficaram de olhos abertos pra descobrir bandas. Tudo que estava em barzinho, na garagem, começou a ter vida própria e ter disco gravado. A juventude começou a ter voz e vez. A Blitz foi responsabilíssima por botar esse ovo em pé e arrombar essa porta.


Como está a Blitz hoje? Prepara algo especial para os 40 anos?
A Blitz hoje tá muito legal. Essa formação está uns 13, 14 anos junta. Lançamos o Aventuras II, em 2017, fomos indicados ao Grammy, foi sensacional esse reconhecimento. Agora, na pandemia, estamos fazendo quatro CDs: Blitz Hits, outro de lado B da Blitz, de músicas que a gente gosta, mas não tiveram muita exposição, mais um de inéditas e um inspirado em outros compositores, Roberto, Erasmo, Belchior, Paulo Diniz.


E sobre Santos, alguma memória ou história especial?
Santos tem um lugar especial nas minhas memórias... eu sou santista por ter visto o Pelé jogar, por ser um pouquinho amigo do Rei também.. é um super herói de carne osso, que eu amo e admiro. Torço muito por ele. Fizemos altos shows em Santos, inesquecíveis. Queremos voltar.


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