Artes Visuais: Por dentro do ateliê de Chico Melo

O artista já participou de diversas exposições individuais, coletivas e salões nacionais de arte, como a Bienal Nacional de Santos.

Por: Carlota Cafiero  -  11/11/18  -  13:16
  Foto: Cláudio Vitor Vaz

Escultor, marceneiro-restaurador, sapateiro, artesão, designer, artista. São muitas as atribuições dadas a Chico Melo, nome artístico de José Francisco Barbosa Melo, de 50 anos, maranhense de Buriti Bravo, que mora em Guarujá, trabalha em Santos e está radicado na Baixada desde os anos 1980.

Fascinado por madeira, ele é capaz de identificar a origem de uma peça apenas pela observação, textura e tato. “Às vezes, até debaixo da pintura eu sei o tipo de madeira, pelo peso”, orgulha-se.


Atento ao descarte de materiais de construção, ele chegou a alugar um caminhão para transportar mais de uma centena de janelas de imbuia da Ponta da Praia até o Boqueirão, em Santos, onde fica sua oficina-ateliê, no fundo do quintal de uma casa na Rua Liberdade, 44.


Olho uma peça e penso ‘isso dá samba’. Então eu trago e faço essas composições”, diz ele, apontando para uma escultura. “Essa peça é feita a partir de sobras de madeira, pedaços de portas, janelas, madeiras como cedro, mogno, pinho de riga... coisas maravilhosas”, elogia.




Enquanto conversa com a Reportagem, Melo se reveza entre duas peças: uma quase pronta, sobre a qual pincela um tom de vermelho opaco, criado por ele, e outra ainda incipiente, baseada num desenho sobre papel, pendurado na parede.


Ele começa a nova escultura recortando dois pedaços de madeira, com uma serra manual, e pregando uma à outra com pregos de aço. “Porque aqui na Baixada prego de ferro enferruja rapidinho”, justifica.

A primeira obra, quase pronta, desafia o espectador: parece um quadro cubista tridimensional, com formas que lembram um instrumento musical, um estandarte e até um instrumento de uso religioso. “Meu trabalho é mais para o abstrato. Gosto de inventar formas”, avisa.

Suas criações nascem no papel, em estudos feitos em desenhos coloridos à mão, alguns deles espalhados pelo ateliê. Mas há esculturas criadas diretamente do baú com as sobras de móveis, “coisas que acho interessantes e, quando quero compor, vou pegando. Porque o grande lance do meu trabalho é a composição”, diz o artista, que começou a carreira artística em Santos, para onde veio a convite do irmão mais velho.

Na Cidade, cursou apenas o primeiro ano da faculdade de Artes Visuais da Universidade Santa Cecília (Unisanta) e participou de diversas exposições individuais, coletivas e salões nacionais de arte, como a Bienal Nacional de Santos.

A primeira mostra foi uma coletiva com artistas santistas. “Era meu primeiro ano aqui, e entrei para o meio artístico ao lado do pessoal mais velho, como Francisco Telles, Maurice Legeard, Elver Savietto, Luiz Hamen e Beatriz Rota-Rossi. Eu tinha uns 18, 19 anos. A primeira individual foi no Centro de Cultura Patrícia Galvão, em 1989, convidado por Rota-Rossi. Eram trabalhos em materiais diversos como madeira, pedra-sabão, madeira pintada, escultura para parede. Parecia uma coletiva de um só”.

De fato, Melo possui diferentes estilos e maneiras de trabalhar a madeira: há peças talhadas, pintadas, marchetadas. Ele também gosta de metais: “Tenho estudos em alumínio que podem ser feitos em outros metais numa escala maior”, destaca o artista, mostrando um troféu que projetou para um concurso de poesia.

Sangue nordestino

Melo pertence a uma família de marceneiros e sapateiros do Maranhão. “Sou sapateiro desde criança e aprendi a marcenaria mais de observação. Comecei esculpindo a madeira maciça. Eu tinha uns 15 anos, influenciado por um cunhado do Piauí, o Amaral, um grande pintor que me puxou para as artes. Trabalhei no ateliê dele, lá, onde morei e encontrei outras possibilidades além do artesanal típico do Nordeste”.


Ele conta que a coisa do fazer vem de longe: “Eu sempre me vi dentro de uma oficina. Quando criança, fazia meus brinquedos. Eu pegava as ferramentas de sapateiro do meu pai e passava o dia inventando coisas, carrinhos, barquinhos”.


Com um trabalho influenciado por importantes nomes das artes, como Pablo Picasso, Joan Miró, Artur Bispo do Rosário e Portinari, Melo diz não saber quando se deu conta de que também era artista: “As pessoas vão dizendo. Mas eu gosto mesmo é de fazer e de me perder no tempo fazendo”.

Apesar de se considerar essencialmente escultor, também gosta de se dedicar às cores: “Por ser brasileiro e nordestino, sou influenciado pelas festas do Maranhão, pelo bumba-meu-boi”, reconhece. Mas a cor entra em sua obra apenas para ‘amarrar’ suas composições escultóri-cas e descaracterizar as formas e funções originais de cada peça, seja um pé ou um assento de cadeira.


“Vou juntando (esses fragmentos) como se fossem traços, pinceladas soltas, desenhos tridimensionais, e sobrepondo cores, como num grafite abstrato”, diz ele, quando uma forte chuva cai sobre a Cidade e um aroma de café invade o ateliê, obrigando-nos a um pequeno intervalo.

Coletivo de arte

A oficina em que Melo passa a maior parte do tempo – e de onde não gosta muito de sair – costuma ser visitado por decoradores e arquitetos. Fica numa casa que funciona como um espaço de criação coletiva há quase 22 anos.

Na fachada colorida, o imóvel ostenta a placa Atelier Oficina 44. Por ali já passaram artistas como Francisco Telles, autor da escultura da pedra da Feiticeira, na Praia de Itararé, em São Vicente.

“(Este espaço) surgiu da necessidade de um grupo de artistas (eu e mais cinco), de encontrar um lugar que fosse um local de trabalho. Antes disso, tivemos espaço na Encruzilhada, em Santos, por dois anos. A composição da turma mudou bastante, mas passaram por aqui a Ana Akaui (uma das artistas desta série de reportagens), que foi uma das criadoras do ateliê comigo, e o Paulo Consentino”.

Artistas da música e do teatro também fizeram parte do Oficina 44. “Tem gente que quer estar nesse ambiente de trabalho porque aqui a gente troca ideias, mesmo sendo de outro ramo. Alguém mostra o que está fazendo e perde o preconceito de ouvir a opinião do outro”.

Atualmente, integram o ateliê: Valério da Luz (pintor e grafiteiro), Inês Moretti (pintora), Débora Lancelote (artesã) , Cláudia Vaz (costureira) e Mônica Alves (moda e costura). O espaço também oferece cursos e eventos artísticos, e tem página no Facebook.


Logo A Tribuna