Apaixonado pela vida, Sidney Magal comemora 50 anos de carreira: 'Me entrego ao que me encanta'

Em entrevista para A Tribuna, cantor fala da carreira, adversidades e biografia

Por: Júnior Batista  -  09/11/22  -  08:30
Atualizado em 09/11/22 - 14:45
Sidney Magal: “Eu não brinquei de cantar, eu cantei a minha vida inteira”
Sidney Magal: “Eu não brinquei de cantar, eu cantei a minha vida inteira”   Foto: Fabrício Costa/AT

Os quase dois metros de altura haviam mesmo de ser necessários para condizer com tamanha genialidade, carisma e humildade de Sidney de Magalhães, conhecido como Sidney Magal, o artista que no auge dos seus 72 anos comemora mais de 50 anos de carreira em grande estilo: um musical em sua homenagem segue em cartaz até 11 de dezembro no Teatro Porto, em São Paulo.


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O homem que pulsa amor em suas veias jamais perdeu a alegria de viver, mesmo diante de adversidades que o destino lhe impôs, e sua história, contada a partir do ponto de vista da relação dele com os pais (principalmente a mãe), é detalhadamente descrita a partir dos olhos da roteirista e jornalista Bruna Ramos da Fonte, que escreveu sua biografia Sidney Magal: Muito Mais que um Amante Latino, lançada em 2017.


Apaixonado pela vida, sente-se orgulhoso das escolhas que fez para a carreira, principalmente quando preferiu a família a ter que mudar de estilo, algo que ouviu frequentemente dos profissionais com os quais conviveu ao longo de sua trajetória.


Qual a sensação de ser o público e, de alguma forma, se ver, no musical?


Logo eu, que digo sempre que tenho um mundo de sensações e de vibrações. As minhas sensações são muito boas. Eu sempre me vi como o artista Sidney Magal sendo o homem Sidney de Magalhães, então eu aprendi a me julgar me vendo em televisão, em alguns locais onde me apresentava. É uma emoção acima de tudo, são quase 60 anos de carreira. Eu não brinquei de cantar, eu cantei a minha vida inteira. É muito legal observar, sabendo que houve um empenho dessas pessoas no espetáculo, algumas que nem são da minha geração, e estão dando tudo de si para dar seu melhor no espetáculo usando a imagem do Sidney Magal.


O que é ser popular?


Acho que isso (da popularidade) já se desfez: qualquer gênero musical, hoje, no Brasil, é popular (por igual). Mas, naquela época, nos anos 70, havia uma divisão muito grande nas rádios, na televisão, entre os artistas populares e da MPB. Nós fomos chamados de tudo quanto é nome: cafona, brega. Entretanto, sempre fomos artistas, e os artistas têm características. Quando criticavam minhas roupas, eu dizia: “Olha para o Elton John, vê se ele vai assim na padaria”. Somos artistas, levamos ao palco nossa arte, à nossa maneira. É importante reconhecer isso. Hoje, os preconceitos estão caindo. Tinha rádio que não tocava artistas populares, jornais não publicavam e quando falavam sobre os artistas populares era em tom de deboche. E de repente, você se vê elogiado por essas mesmas pessoas. Não vejo com mágoa; vejo com prazer e satisfação que tenha mudado e dado lugar a todos nós.


Tem alguma coisa que gostaria de ter feito como artista que ainda não fez?


Talvez ser dançarino, porque eu não me considero dançarino. Tive algumas aulas na época da lambada para dançar o ritmo, que eu não conhecia, mas toda a minha característica física e gestual sempre foi espontânea. Eu aprendi a cantar muito cedo, com 12, 13 anos. Quando fui para a Europa, era desconhecido do público, abusava dos jeitos e trejeitos e fui vendo de que as pessoas gostavam e aperfeiçoei. Então, não me considero um dançarino. Me considero um bom comunicador, alguém verdadeiro com relação ao seu trabalho, por isso aceitei teatro, novelas, dublagens, filmes. A tudo que me encanta eu me entrego e, se não acham que estou apto, têm todo o direito de me dispensar. No fundo, cantar é o meu negócio final.


É verdade que você não deu pitacos no musical?


Sim. Nós, artistas, somos tão vaidosos, que as pessoas que nos interpretam sempre têm críticas. E isso não pode existir. Tenho que deixar a criatividade das pessoas tomar conta, ser verdadeiramente uma homenagem, ver o que as pessoas acham de mim, mas ser um grande sucesso. Precisa só passar emoção, que é o que passei a vida inteira com meu trabalho. É por isso que eu não dei pitaco. É maravilhoso isso, são 72 anos de vida, com fibra e trocando energia com o público. Isso é muito gratificante. A gente sente uma emoção de louco. Eu só brinco para não ficarem me homenageando tanto que eu fico pensando que vou ficar pouco tempo nessa vida. Deixa para me homenagear depois um pouco também, quanto eu tiver 80, oitenta e poucos (risos). Mas é maravilhoso. É o musical, é o filme que vai vir ano que vem, tem um documentário que deve entrar também, um seriado, além da biografia da Bruna que me deu muitas alegrias. Para um artista que cantava “se te pego com outro te mato” é muito inesperado. Eu não esperava. E todas as conquistas que o público me deu, eu aceitei.


A Bruna (biógrafa) citou que você não vetou, nem interferiu, na biografia. E que a ideia do musical foi sua. Mesmo assim, você não se envolveu?


No filme que virá também não interferi. E fiquei muito feliz. O Luis (Vasconcelos, que faz Sidney jovem no musical) tem 19 anos. Ele não tem nem ideia da época da lambada para cá, que dirá de Sandra Rosa Madalena para cá, quem era verdadeiramente o Sidney Magal. É muito mais legal saber o que ele tem a dar a meu respeito do que ficar “Olha, a mão não é assim, é assado”. Tinha muito olhar cretino que eu fazia, também. Eu sabia paquerar as pessoas através da câmera. Então, são toques que eles mesmos perceberam. O Juan Alba disse que ficou noites sem dormir pensando como o Magal agia com o público e é exatamente isso que quero que atinjam. Justamente essa comunicação direta com o público para me dar essa alegria de ter um espetáculo com título tão legal, um elenco maravilhoso, produção e direção maravilhosas.


E que parte melhor te identifica na história do musical?


Acho que todos que me acompanham sabem que eu sou um cara muito família. E uma coisa que fiquei devendo a uma pessoa que foi a mais importante na minha vida, que foi... (pausa) Desculpa, é inevitável (Magal se emociona e respira). Que foi minha mãe. Sou filho único e minha mãe foi uma cantora frustrada. Meu pai não permitiu que ela continuasse. E o sonho da vida dela foi se apresentar comigo em algum palco dessa vida. E eu não dei essa oportunidade a ela porque ela tinha um temperamento muito bravo. Mas, lógico, sempre nos amamos muito. Então, quando a Bruna levou para esse lado, em que minha mãe tem uma grande importância no espetáculo, na minha vida e na minha carreira, eu fiquei muito feliz. Eu tenho certeza de que isso vai mostrar às pessoas que sem uma bela família e educação tudo fica mais difícil. E eu tive uma bela família, bela educação. E hoje tenho uma bela família, porque hoje eu sou o “dono” da família. Tenho três filhos maravilhosos, uma mulher maravilhosa. Isso acho que é mais importante. Há um Magal muito presente naquele Magal que todo mundo já conhecia.


O que você ouve hoje em dia? E o que essa geração te traz?


É muito difícil a gente se distanciar da nossa juventude, da nossa vida. Se você me perguntar o que continuo ouvindo, eu te diria que continuo ouvindo todos os cantores negros norte-americanos, pelos quais sou apaixonado. Stevie Wonder, Whitney Houston, Diana Ross, que sentou no meu colo, me deu um autógrafo maravilhoso, um beijo e disse “Magal, eu te amo”, porque a conheci pessoalmente. Essas pessoas foram minhas referências. O próprio Tom Jones, artista inglês que tinha características do Elvis Presley, me influenciou muito. Eu continuo ouvindo bossa nova, sou carioca, fui criado no Rio de Janeiro. Eu continuo ouvindo música boa. Acho que é importante isso, pegar alguns artistas novos, que fazem trabalhos decentes, bonitos. Não gosto de gente que inventa moda, de mau gosto. Não vou citar nomes, obviamente. Mas prefiro artistas que vão pelo caminho certo. E o certo para mim é fazer letras bonitas, que atinjam as pessoas. E melodias doces, para que você se sinta identificado, como o público se sentia com as minhas músicas. Eu ouço muita coisa, gravei até com o Rincon Sapiência, permitindo que uma pessoa muito inteligente, com a capacidade dele, pudesse participar de um trabalho meu. Ouvindo e selecionando o que acho que é de bom gosto.


Tem uma música sua, Se Te Pego com Outro Te Mato, que você não canta mais. Acha que o artista tem que se atualizar e se adequar ao tempo em que ele está?


Eu acho que se atualizar, sim, principalmente em termos de tecnologia e som. O que eu gravava naquela época, apesar de ser de qualidade, hoje em dia é completado com uma tecnologia que não existia. Isso eu acho legal. Agora, no caso da minha música, foi uma cobrança por causa do título. E a Lei Maria da Penha não ficou satisfeita com o título, então eu comecei a ser cobrado, até ofendido, então eu disse: “Olha, é de bom tom não fazer, pois os tempos são outros, isso pode chegar de outra maneira nas pessoas”. Mas não acho que o artista deva ser mexido nas suas composições em hipótese alguma. O próprio Luiz Caldas, artista que conheço muito, foi censurado por causa das letras, e eu sou totalmente contra. Arte é arte, ela tem seu momento e deve ser respeitada.


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