2020 e suas agruras nas crônicas do poeta santista Marcelo Ariel

Para o dramaturgo, a literatura tem o imenso papel de registrar a tragédia social e expressar a dor de um país que está na UTI

Por: Egle Cristina  -  16/02/21  -  10:53
Marcelo Ariel fez um registro diário dos tempos difíceis de 2020
Marcelo Ariel fez um registro diário dos tempos difíceis de 2020   Foto: Divulgação

“A literatura tem a imensa responsabilidade de registrar a tragédia social, de expressar com palavras a dor e a angústia de um país que está na UTI, principalmente por causa de seus péssimos políticos e de um povo que sofre incessantemente desde sempre, embora em sua maioria esteja alienado de sua própria dor e de sua própria angústia”. Este foi o norte do novo livro do poeta e dramaturgo Marcelo Ariel, Subir pelo inferno, descer pelo céu (Kotter Editorial), que deve chegar às livrarias no final de março.


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O autor, nascido em Santos e que passou boa parte da vida em Cubatão, apresenta crônicas com um registro diário do ano de 2020, que cobre desde o início da pandemia até o final dezembro, por diversos ângulos: o social, o filosófico, o político e o poético.


“A sociedade brasileira é, na realidade, a quintessência da injustiça e da alienação, e pouco aprendeu com a pandemia apesar dos raros exemplos de consciência comunitária, da competência do SUS, dos cientistas e dos trabalhadores da saúde. O vírus da lucidez ainda não se disseminou no Brasil com a mesma rapidez do covid-19”, dispara.


O relato traz ainda dores pessoais que Ariel teve no período: “Tive perdas terríveis, perdi meu irmão, meu pai e grandes amigos, tudo isso está registrado no livro, que não é apenas uma meditação sobre o indizível da dor. Abordo a dor e a solidão como modos de acessarmos nossas forças interiores. É também um testemunho sobre um processo de transformação do isolamento, da sensação de impotência, das tensões advindas da 'perda de mundo' em solidão e da solidão em desejo de alteridade”, explica o autor.


Mais livros


Durante a pandemia, Ariel aproveitou o tempo de isolamento para criar e está com outros projetos em produção. “O estado de criação, especialmente o da criação artística, é o único capaz de dar conta de transfigurar a angústia em algo melhor do que ela. Porque a angústia é necessária, a solidão é necessária, mas precisam ser transfiguradas em amizade e generosidade. A arte serve para atravessar os desertos e os abismos que carregamos dentro de nós mesmos”, diz ele que está trabalhando em um livro de ensaios sobre o colonialismo, em outro de contos e em uma nova coletânea de poemas.


“Parafraseando Fernando Pessoa, viver é necessário e criar também. Precisamos sair do estado de emergência social e sanitária para o estado de poesia. Seria o equivalente de nos unirmos para impedir a morte em curso do Brasil, através de grandes atos públicos, grandes propostas para nos curarmos da desigualdade social, do ódio, que é alimentado tanto pelo novo fascismo, pela direita, pela esquerda. E é um tipo viral de cegueira, como a do famoso livro de Saramago”, avalia ele, referindo-se à obra Ensaio sobre a Cegueira.


Subir pelo inferno, descer pelo céu já está em pré-venda no site da Amazon e será lançado oficialmente em março. Há ainda uma live de lançamento marcada para abril pelo Instagram da Martins Fontes da Paulista.


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