Tia Leila

“Ela provou que toda mulher podia ir além, quebrar conceitos”

Por: Beth Soares  -  08/05/22  -  19:30
  Foto: Adobe Stock

Ela nunca se achou melhor ou pior do que as outras mulheres. Mas era diferente, disso não tinha dúvida. Tia Leila, no alto de seus 17 anos, era uma revolucionária. Afinal, ouvir Queen e Legião Urbana, numa casa que só abria os ouvidos e a censura reminiscente dos anos 60 e 70 aos temas de novela, podia ser uma atitude ultrarrebelde.


Lembro-me dos desenhos que ela fazia na primeira página dos meus cadernos, em meados dos anos 80. Eu os achava obras de arte. Não entendia como alguém com aqueles traços, com aquela delicadeza de alma, poderia ser um péssimo exemplo, como algumas pessoas viviam comentando nas festas de família.


Mas ela provou que toda mulher podia ir além, quebrar conceitos, simplesmente não se importar com o que os outros dizem ou pensam a seu respeito. Foi feliz enquanto pôde. Curtiu a noite, experimentou o sexo com amor ou não, como dizia Cazuza, outro de seus ídolos. E pagou o preço que todos os precursores pagam. Foi rejeitada, humilhada e agredida. Até que se apaixonou de verdade. Engravidou do homem que amava. Descobriu que teria gêmeos. Dois meninos. Estava feliz. Mas logo descobriu que o pai de seus filhos era exatamente igual a todos os homens de seu tempo; tinha uma doença crônica da alma chamada machismo. E por causa da doença, ele esmagou tia Leila sob seus punhos.


Nos olhos dela, agora apagados de liberdade, era fácil notar que as dores geradas em seu corpo não se comparavam, nem de longe, às da sua alma. Caiu novamente na estrada, fugindo do mal do século. Carregava dois pequenos homens no ventre, perguntando a si mesma se conseguiria ensinar a eles algo diferente do que o mundo queria.


Nasceram na periferia da cidade, do mundo. Agora, só dependia dela. Nem bem nasceu, um deles adoeceu gravemente. Tia Leila, sem fogão, sem geladeira, sem escolha, teve que engolir o orgulho e pedir para voltar à casa que a expulsara. Era isso ou ver um dos filhos morrer de inanição em seus braços. Retornou. Mas apenas ele pôde permanecer ali. Com uma dor que esmagou mais uma vez seu coração, deixou-o lá. Era a única chance que ele teria.


Criou sozinha o outro filho. Desde cedo, este demonstrou que lhe tinha uma admiração incomum. Imitava-a em tudo: trejeitos, voz, preferências. De certa forma, para ela era um alívio. Menos um machista no mundo, pensou. Estava disposta a vê-lo batalhar na contramão. Mesmo sabendo que por mais que o preparasse, não conseguiria blindá-lo dos efeitos nocivos causados pela praga do preconceito, mas tinha fé que ele sobreviveria a isso.


Essa confiança, no entanto, bambeava quando se lembrava do pedaço que havia deixado para trás. Lastimava não ter ouvido a primeira palavra do outro filho. Soube que foi “mamãe”, mas essa palavra não foi dita para ela, como sonhava. Doeu de novo. E doía todos os dias, uma dor silenciosa. Até que se viu coagida a jogar para sempre o sonho fora. Deu-se conta de que o filho não era dela. Ele não a perdoou.


Aos poucos, tia Leila foi cedendo às bizarrices desse universo. Sem nau forte o suficiente para continuar no contrafluxo, mergulhou de vez naquele mar, seco de razão. Encontrou na religião seu refúgio. Ou seu ópio. E nessa nova viagem foi tragada de uma vez por todas. Tempos depois, ela já não era mais ela mesma.


Em seu último dia na Terra, tentou ver os homens que pôs no mundo. Achou que precisava pedir perdão a eles por não conseguir ser uma mulher subserviente às leis que, agora sabia, todas tendiam a seguir: “Oprima seu coração! Mate seus desejos!” Ela assim o fez. Mas era tarde: não foi perdoada. Nem pelos filhos, nem pelos homens, nem pelas mulheres, nem por seu próprio coração.


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