Sururu no cobogó: materiais começam a ser usados para criar produtos sustentáveis

Cobogós são elementos vazados, utilizados em fachadas ou até mesmo no interior dos imóveis, permitindo a entrada de luz

Por: Marcus Neves Fernandes  -  01/05/22  -  18:41
A concha do sururu, depois de triturada, transforma-se em cobogó, reduzindo o uso de cimento
A concha do sururu, depois de triturada, transforma-se em cobogó, reduzindo o uso de cimento   Foto: Divulgação

A inquieta natureza humana tem por necessidade, ou sina, criar – quando não, aperfeiçoar. É uma busca incessante, que muitas vezes se materializa com esforço e de onde nem se imagina. Hoje, essa criatividade inclui conceitos como sustentabilidade, na busca por produtos mais saudáveis e que possam levar a sociedade a uma economia circular. Exemplos não faltam. Um dos mais recentes (e curiosos) focou em um produto genuinamente brasileiro, que, apesar de ser usado há décadas na construção, é pouco conhecido: o cobogó.


Molusco
O termo surgiu nos anos 1930, a partir dos nomes dos seus três criadores: os engenheiros pernambucanos Amadeu Oliveira Coimbra (CO), Ernest August Boeckmann (BO) e Antônio de Góis (GÓ). Cobogós são elementos vazados, utilizados em fachadas ou até mesmo no interior dos imóveis, permitindo a entrada de mais luz e ventilação naturais. E geralmente são de cimento ou barro. Ou eram.


Em Maceió (AL), um grupo de designers, arquitetos e engenheiros criou o cobogó de sururu – um molusco que faz parte da culinária tradicional do Norte-Nordeste.


O problema é que suas conchas, em um volume perto de milhares de toneladas, não tinham praticamente nenhum reaproveitamento, com exceção de pequenos artesanatos.


Destino nobre
Além disso, a produção de cimento responde por quase 30% das emissões brasileiras de CO2, além de outros poluentes, como material particulado (poeira) e gases vinculados à chuva ácida.


Pesquisando a composição das conchas, o grupo descobriu que, uma vez trituradas, podem substituir até 70% do cimento da peça tradicional, dando um destino sustentável a um resíduo que, uma vez descartado, impacta a natureza e a saúde pública.


A ideia ganhou contornos industriais com a adesão de uma grande empresa do setor, a Portobello, e de outros apoiadores.


Oportunidade
Aqui no Litoral Paulista, outro grupo desenvolveu projeto semelhante, que consistia em transformar conchas de mariscos em um produto muito semelhante ao mármore. Infelizmente, não prosperou.


Todavia, outras iniciativas pelo Brasil e pelo mundo demonstram que o que conhecemos como lixo pode ser uma grande oportunidade de reaproveitamento.


Economia circular
Economia circular   Foto: Adobe Stock

O que é economia circular?
É um conceito baseado na redução, reutilização, recuperação e reciclagem de materiais e energia. Em vez do conhecido usar e jogar fora, busca-se a reutilização, restauração e renovação – um ciclo perpétuo em que pouco ou quase nada se desperdiça. Para traduzir em números, basta dizer que se 95% dos aparelhos celulares fossem devidamente reaproveitados, ao final de sua vida útil haveria uma poupança de um bilhão de euros apenas na Europa com a redução no uso de matérias-primas virgens.


Das cascas de arroz se obtém sílica, que pode ser adicionada ao concreto
Das cascas de arroz se obtém sílica, que pode ser adicionada ao concreto   Foto: Adobe Stock

Criatividade, a mola propulsora
Há inúmeros exemplos de produtos e soluções que vêm sendo desenvolvidos e colocados no mercado a partir da ideia de uma economia circular, do reaproveitamento do que ainda consideramos como lixo.


No Interior de São Paulo, por exemplo, a empresa Brasibor recupera o plástico usado na produção de mamadeiras e o transforma em pisos de alta resistência. Já a Impacto Protensão criou formas com plástico reciclado que substituem quase 80% da madeira utilizada na fabricação de estruturas em obras, economizando até 25% em aço e baixando o custo da obra em até 20%.


10 minutos
Como as placas plásticas podem ser feitas sob medida, o método permite que uma escola seja construída em dois dias e um banheiro, em menos de 10 minutos. Em Belém (PA), a Seixo de Plástico criou tijolos, bloquetes, tubos, blocos e telhas feitos com reaproveitamento de plásticos e vidros.


Já em Manaus (AM), o economista Mário Augusto Batista Rocha desenvolveu material semelhante ao asfalto a partir de embalagens de garrafas PET, seixos, areia, vidro e resíduos de demolições. Para isso, desenvolveu uma máquina que batizou de creponeira, capaz de reaproveitar até aqueles plásticos já degradados, encontrados em rios e manguezais e que não são usados pela indústria da reciclagem.


Menos danos
Outra criação nacional, já no mercado, é o isopet, que são blocos com isopor e garrafas PET. A grande vantagem é que dispensam a utilização de areia. Segundo a Organização das Nações Unidas (ONU), a extração de areia, principalmente de rios, é uma das atividades que mais destrói a natureza no mundo.


E os tubos de pasta de dente? Criados no final do século 19, são produzidos aos bilhões e a maioria termina enterrada em lixões ou aterros. Mas, com eles, é possível produzir placas, telhas e cumeeiras econômicas. Como na sua fabricação não é aplicado nenhum tipo de queima, reduz significativamente os riscos ambientais e à saúde.


Doença nos pulmões
Cascas de arroz também podem ser reaproveitadas. Nesse caso, obtém-se sílica, um mineral que é agregado ao concreto, gerando um produto de melhor desempenho.


O Brasil produz 15 milhões de toneladas de arroz, que geram 4 milhões de toneladas de casca, que rendem cerca de 800 mil toneladas de sílica, o suficiente para suprir o mercado de concreto.


Quando não reaproveitada, a casca é queimada e, na forma de poeira, pode causar a silicose, séria doença nos pulmões.


PlasticRoad – uma rua pré-fabricada produzida com materiais reciclados
PlasticRoad – uma rua pré-fabricada produzida com materiais reciclados   Foto: Divulgação

Ruas de plástico
Na Holanda, o grupo VolkerWessels criou a PlasticRoad, uma rua pré-fabricada produzida com materiais reciclados. Ela é oca e, portanto, permite o armazenamento temporário da água da chuva, impedindo a ocorrência de inundações. A rua de plástico é quatro vezes mais leve e sua construção, 70% mais rápida. Além disso, dura três vezes mais e produz até 72% menos emissões de dióxido de carbono do que as ruas convencionais. Duas ciclovias, cada uma com 30 metros de comprimento, construídas nas cidades holandesas de Zwolle e Giethoorn, consumiram quase duas tonelada de plástico reciclado e os testes revelaram que resistem melhor a temperaturas extremas (de -40 a 80 graus Celsius) do que as ruas tradicionais de asfalto.


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