Santos pode ter território 'engolido' pelo avanço do mar no Litoral de SP, alerta estudo

Levantamento indica que o município pode ter 5% do território submerso pelas águas; entenda

Por: Adriana Pimenta, colaboradora  -  31/03/24  -  07:05
O mar vai 'engolir' Santos? Estudo alerta para o avanço das ondas
O mar vai 'engolir' Santos? Estudo alerta para o avanço das ondas   Foto: Silvio Luiz/AT

Quando criança, lembro-me da previsão da minha avó Maria. Analfabeta, vendia temperos nas feiras livres da cidade e sempre dizia: “Um dia o mar vai invadir Santos”.


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Minha avó não sabia nada de aquecimento global. Naquela época, anos 70, ninguém tinha conhecimento de que mudanças no meio ambiente (provocadas pelo homem) poderiam nos afetar. Mas minha avó tinha essa teoria e espalhava entre a família. Eu ficava imaginando como seriam as ondas crescendo e chegando aos prédios tortos que habitam a avenida beira-mar. Agora não preciso mais imaginar.


Um estudo divulgado ano passado pela plataforma Human Climate Horizons, criada por uma parceria entre o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) e o Laboratório de Impacto Climático (CIL), revelou a lista de dez cidades que podem ter 5% ou mais do seu território submersos de forma permanente até o fim do século. Santos está entre elas.


O ano de 2024 mal começou, estamos no final de março, e já fomos impactados por quatro ondas de calor extremo. Só para lembrar, 2023 foi o ano mais quente da história, desde que o monitoramento foi iniciado.


O excesso de calor e de chuvas extermina animais, a biodiversidade e nos mata. Novamente, nos últimos dias, com a virada de tempo de 34° para 24º em média, temos visto no noticiário casos de morte em cidades onde a chuva chegou de maneira avassaladora. Ruas se transformando em rios e carros boiando como barcos. Muito parecido com o que aconteceu no ano passado no Litoral Norte de São Paulo.


Nos últimos anos estamos vendo de forma mais clara como o clima tem mudado e nos afetado. As estações do ano, antes bem definidas, agora coexistem entre semanas de Primavera, finais de semanas de Outono, mês de Inverno intercalado com Verão. Faz tanto calor que passamos mal. Às vezes chove tanto que ficamos sem fornecimento de luz. Seca ou excesso de chuvas também abalam a agricultura com perda de lavouras inteiras. Os casos de dengue só crescem e apresentarão níveis mais elevados com o aquecimento global, dizem especialistas.


O Brasil ocupa um papel fundamental nessa mudança porque abrigamos a Amazônia. Porém, o desmatamento continua enquanto o garimpo corre solto nas terras Yanomami. A questão é muito complexa. Para mudarmos esse cenário não basta reciclarmos nosso lixo em casa, ou fazermos o uso racional de luz, ou reduzirmos o uso de sprays para não afetar a camada de ozônio. Isso tudo vale, mas precisamos de políticas públicas que sejam implementadas de forma rigorosa junto às corporações. Isso quer dizer que não podemos fazer nada? De forma alguma, podemos e devemos. Para começar cobrando as autoridades.


Entretanto, o mundo em que vivemos é capitalista e corrupto. A velocidade das emissões de carbono e o impacto no meio ambiente são muito mais rápidas do que o empenho para implementar mudanças. Chegamos a um momento em que muitas situações serão apenas mitigadas porque estão se tornando irreversíveis.


Em 2015, a ONU lançou o Pacto Global das Nações Unidas, compromissos desenhados a partir de 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODSs) para serem atingidos até 2030. É a maior iniciativa de sustentabilidade corporativa do mundo, com mais de 21 mil participantes, entre empresas e organizações, distribuídos em 65 redes locais, com abrangência e engajamento em 162 países. Muitas companhias e governos assinaram esse pacto. Pena que muitas vezes parecem mais ações de marketing do que investimentos sólidos com resultados concretos.


Ah, vó Maria! Que pena não contarmos mais com suas previsões. Receio um dia avistar o mar invadindo minha cidade natal, levando com ele a perda de esperança, de dias melhores e minhas lembranças de infância, quando imaginar os edifícios submersos como peixes era só brincadeira de criança.


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