Reequilíbrios: um tempo para se organizar, respirar e se cuidar

“Faço pequenos intervalos de cinco minutinhos olhando o horizonte”

Por: Suzane Gil Frutuoso  -  20/02/22  -  19:37
Faço pequenos intervalos de cinco minutinhos olhando o horizonte e respirando fundo.
Faço pequenos intervalos de cinco minutinhos olhando o horizonte e respirando fundo.   Foto: Adobe Stock

Seis horas por dia. Esse é o meu tempo de dedicação a minhas atividades profissionais como professora, pesquisadora, escritora e consultora. Costumo trabalhar também aos sábados pela manhã, três horas. Eventualmente domingo – mas aí me permito a sexta livre para estudar, passear e cuidar de mim.


Hoje, tenho escolha. Não me inveje. Antes disso, minha saúde chegou ao limite. E cada vez mais gente percebe ser impossível manter um estado constante de esgotamento festejado como parte do sucesso. O movimento de pessoas pedindo demissão nos Estados Unidos já chegou ao Brasil. Batizado de “a grande resignação”, o fenômeno indica milhões jogando a toalha por situações como baixos salários, falta de reconhecimento, altas pressões e, não menos importante, não enxergarem nenhum significado no que executam.


Parece um contrassenso quando há milhares de desempregados, além de boletos a pagar serem uma constante em nossas vidas. Justamente por isso, esse cenário é um alerta, que não se refere aos privilegiados. Há cansaço generalizado acompanhado do questionamento: esse cotidiano faz sentido? Enquanto você tenta responder a essa pergunta, deixa eu contar como me reequilibrei. Nem vou me ater ao combo óbvio: alimentação saudável, atividade física e momentos de lazer. Vou te contar que, para chegar a seis horas por dia de trabalho, teve muita ressignificação.


Não permanecer em parcerias profissionais que colocam no nosso colo culpas e responsabilidades que não são nossas é o primeiro passo. Aprender a não tomar para si a tensão alheia é a sequência. Devemos cumprir prazos e empregar energia em um projeto ou nova etapa. Aliás, é sensacional participar do desenvolvimento de algo do zero. No entanto, o retorno precisa chegar para os envolvidos e a adrenalina da elaboração não pode virar regra estressante.


Depois é, literalmente, botar limites. Não vejo mensagens depois das 20 horas. Quando começo uma tarefa, estipulo um tempo para executá-la. Faço pequenos intervalos de cinco minutinhos olhando o horizonte e respirando fundo. Em um mundo de interrupções, não é mesmo de repente que a gente capricha na concentração. Por isso, recomendo práticas como a meditação, que é parte do meu ritual noturno há 14 anos. Lotou a caixa de e-mail ou a tela do WhatsApp nesse período? Isso, 99,9% das vezes, pode esperar.


E não tema! Precisamos verbalizar esse autocuidado! Essa semana tive uma reunião e a moça que é minha interface pediu para começar 15 minutos mais tarde. Explicou que assim não deixaria de realizar a sua caminhada. Adorei que ela evidenciou que, antes do dever, reserva parte da manhã para si. Tudo isso é mais simples quando já conquistamos algumas coisas, inclusive materiais, e autonomia na carreira. Mas quanto mais gente buscando momentos de descompressão, mais despertaremos para uma consciência de bem-estar. As organizações não têm como fingir que nada está ocorrendo. Marcas já são cobradas por posturas que comprovem preocupação real com a satisfação de seus times.


Vamos, agora, voltar rapidamente para o termo que usei ali no primeiro parágrafo. Atividades profissionais. Minha dedicação a tais tarefas não exclui tantas outras. Isso é uma ressignificação importante: entender que 24 horas são o que se tem para o cotidiano funcionar e ainda descansar. Cuidar das crianças, dos idosos, dos pets. Lavar roupa, ir ao mercado, cozinhar, marcar consultas... São muitas as tarefas que não são profissionais, mas são trabalho! Portanto, lá se vão mais umas horas do meu dia.


Pense nisso: enxergue o todo com gentileza para não se cobrar além do necessário e aprenda a dizer não quando precisar.


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