Musculação é recomendado principalmente após os 40 anos

Além da saúde, as 'senhoras da academia' são uma lição de bem viver

Por: Suzane Gil Frutuoso  -  30/10/22  -  11:44
“Amiga, o segredo é ir no horário das senhorinhas”, confidenciei para Beth
“Amiga, o segredo é ir no horário das senhorinhas”, confidenciei para Beth   Foto: Adobe Stock

O “x” marcado à caneta na ficha de treino indicava: dois meses de volta à musculação. Lembrei do ditado “nunca diga nunca”. Em algum momento, eu disse que nunca mais puxaria ferro. Mas, os 40 chegaram, e para quem sempre teve problemas de coluna, é o que fortalece melhor os músculos da região.


Adoro exercício físico. Dos 15 anos de balé, passando por pilates, funcional e ioga, entre outras atividades, nunca fiquei parada muito tempo.


As repetições constantes e os pesos da musculação, no entanto, eu não queria mais. E ainda lidar com olhares enamorados para bíceps e tríceps me deixa um pouco mais desanimada com o ser humano.


Minha amiga Beth Soares, escritora que reveza a coluna aqui comigo aos domingos, escreveu recentemente sobre a mesma sensação na tentativa de volta à musculação. Será rabugice nossa? Coisa de escritora? Arrogância intelectual? Gente sensível demais? Está mais para aquela fase em que já não aturamos aparências (físicas e morais) ditando valores e uma deliciosa certeza de que não dá para passar os dias atendendo as expectativas alheias. Os 40 anos trazem tudo isso – junto com a necessidade de fortalecer a nossa musculatura.


“Amiga, o segredo é ir no horário das senhorinhas”, confidenciei para Beth. Como dou aula à noite, não chego logo cedo na academia, horário em que a galera está chacoalhando a garrafinha de whey protein e gritando “tá pago”. Apareço depois das 9h30 para minhas séries de supino, barra, graviton e umas roubadinhas na contagem. E lá estão elas, minhas companheiras de malhação, do alto de seus 70, 80, 90 anos!


“Não, dona Adelaide! A senhora não pode receitar o seu remédio da pressão para a dona Dulce! Tem que passar pelo médico”, diz entre a orientação e o desespero uma das instrutoras. “Aqui, Helena. Aumenta o tamanho das letras no celular para enxergar as mensagens e não perder mais nada”, ensina uma à colega da esteira ao lado – enquanto eu rezo para ela não cair ao mexer no smartphone.


Dia desses, uma parou, me olhou bem, de baixo ao alto. Tive vontade de rir, mas só perguntei: “Tudo bem com a senhora?” A resposta ficou entre o elogio, o bullying e uma excelente autoestima: “Você está com tudo em cima e sua pele é ótima. Mas para chegar bem na minha idade, assim como eu, precisa aumentar esse peso. Essa bunda agora só com esforço, querida. Tem que pegar pesado”.


Meio constrangida e finalmente incapaz de segurar a risada, agradeci a dica. Ela esperou eu aumentar cinco quilos da carga para ir embora. Na dúvida, ao passar pelo espelho, dei uma viradinha de costas para conferir a situação e entender se era brincadeira ou conversa séria.


Além de me tirarem sorrisos, essas senhoras são uma lição de bem viver, apesar das dificuldades inerentes ao cotidiano. Já ouvi relatos de tempos difíceis em família, de perdas, de solidão, de sonhos que não se concretizaram. Mas também de doenças vencidas, da chegada de netos e bisnetos, de continuarem acreditando que cada dia vale a pena. E com saúde, o resto dá-se um jeito. Por isso, estão todas ali, faça chuva ou sol. Como me disse dona Carmen, de 91 anos, chorar, chora-se muito, claro. Aprender pelo que realmente vale chorar – e não esquecer que é possível se alegrar na mesma medida – é o que direciona a serenidade.


Havíamos terminado nosso exercício no TRX. Nos despedimos. Ela seguiu em frente. No que importa, com tudo em cima.


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