A floresta escura: diante do desconhecido, preferimos crer em respostas fáceis e não na Ciência

Poucas horas após divulgada, nova imagem de telescópio espacial já era redistribuída por grupos como prova alienígenas

Por: Marcus Neves Fernandes  -  06/11/22  -  14:51
Imagem da estrela dupla situada a 5 mil anos luz da  Terra e seus curiosos anéis, formados pelo vento estelar
Imagem da estrela dupla situada a 5 mil anos luz da Terra e seus curiosos anéis, formados pelo vento estelar   Foto: Space Telescope Science Institut/ Nasa / Eesa

Não demorou muito, aliás, foi até bem rápido. Poucas horas após ter sido divulgada, uma nova imagem do telescópio espacial James Webb já era redistribuída por grupos que viam, ali, supostas provas da existência de alienígenas.


Clique, assine A Tribuna por apenas R$ 1,90 e ganhe centenas de benefícios!


Não que a imagem, em si, fosse dotada de um grande mistério. Longe disso. Inicialmente intrigante, ela suscitou discussões acadêmicas que foram, por assim dizer, a pólvora e o pavio para as elocubrações que se seguiram.


O ser humano, todavia, tem essa tendência. É inescapável à nossa condição buscar interpretações que se encaixem naquilo que queremos acreditar. Por vezes, o fato não é suficientemente atraente, mas as interpretações arrebanham.


É realmente tentador imaginar que estamos cercados de vida. É uma suposição até mesmo estatisticamente válida diante da vastidão do cosmos. O problema é encontrar seres inteligentes, sociedades.


Somos criaturas complexas, com desejos e necessidades, muitos deles inconfessáveis, para os quais mitos e lendas nos completam mais do que a racionalidade. E isso acontece também por outra típica característica humana: a sensação de pertencimento.


Precisamos pertencer a um grupo. Isso nos dá sentido e sentido nos dá segurança. E aqui não importa se essa aderência se relaciona com algo sensato. Achado um grupo, agarra-se a ele.


Assim, seja nas fotos de astros inimaginavelmente distantes, seja naquilo que está à nossa frente, vemos, embotados, apenas e tão somente, o que queremos ver. Somos rápidos em julgar, mas lentos, muito lentos, em perceber a dissolução do que nos cerca.


Como eu, há quem ainda espera um óvni pousar e dele saírem seres iluminados em sabedoria, capazes de nos fazer perceber o que é perceptível.


Uma teoria, chamada floresta escura, nos diz, por outro lado, que é preciso estar atento. Ela simboliza o desconhecido e alerta que dali podem vir a malignidade, o inimigo à espreita.


Como nada pode, porém, impedir que a crença impere sobre a razão, talvez jamais nos livremos de continuar sendo destinatários de bobagens. O único caminho continua sendo insistir no método científico.


Já disse Carl Sagan: afirmações extraordinárias requerem evidências extraordinárias. Mas provas exigem esforços, pesquisa, análises. Dá trabalho, e muito. Infelizmente, é bem mais fácil (e rasteiro) difundir falsidades. Que digam os seguidores.


A polêmica
Na maior parte do universo já observada pelos cientistas, estrelas “solitárias” como o nosso Sol são a exceção. A regra, ou seja, na maior parte dos casos, as estrelas se agrupam em duplas – por vezes até em trios. É o caso da imagem recém-captada pelo telescópio James Webb, que ilustra este texto. Aqui, quando duas estrelas atingem o ponto de maior aproximação orbital, elas geram incomuns 17 anéis concêntricos de poeira, que são oriundos da emissão de poderosos ventos estelares (fluxos de gás que sopram para o espaço). Foi esse fenômeno, o primeiro do gênero, que o novo telescópio flagrou, gerando todo tipo de polêmica. Essas estrelas estão a 5 mil anos luz de distância. Cada ano luz corresponde a cerca de 9.4 trilhões de quilômetros. A periodicidade desse ciclo de oitos anos foi calculada com base nos anéis. O James Webb foi lançado em 25 de dezembro de 2021 e, em 12 de julho, começou a enviar as primeiras imagens.


Logo A Tribuna
Newsletter