"Toda mãe é bondosa e afetiva? Nem sempre", diz Silvia Lobo em seu novo livro

Psicanalista conta para A Tribuna On-line detalhes sobre sua nova obra, "Mães que Fazem Mal"

Por: Ivani Cardoso, especial para A Tribuna  -  28/11/18  -  13:15
  Foto: Divulgação

Homens e mulheres carregam, sem se darem conta, influência de como foram criados, como se relacionaram com outros, como foram marcados pela infância. Muitas vezes, só na vida adulta esses filhos se conscientizam dessas marcas.


A psicanalista Silvia Lobo, em seu livro Mães que Fazem Mal (Editora Pasavento), propõe uma reflexão sobre a idealização de que basta ser mãe para ser boa, quase sempre santa, que o simples fato de engravidar dá uma dotação excepcional para ser generosa, identificada com os filhos que tem e preparada para não cometer erros.


No livro, a partir de experiências reais em consultório, ela inclusive mostra os tipos de mães que fazem mal: as executivas, as pragmáticas, as eliminadoras, as litigiosas, as imobilizadoras, as sofredoras; as invasivas, as sexuadas, as “adultizadoras”, as desafetadas, as misturadas. Mães que, muitas vezes, se justapõem nessas características e somam a elas sedução, intriga e abuso.


Nesta sexta-feira (30), às 19 horas, Silvia participa do Projeto Encontros na AABB Santos, com entrada franca. A parceria é com o Núcleo de Psicanálise de Santos e Região. Logo após a conversa, a autora dará autógrafos para os interessados.


Confira a entrevista concedida pela psicanalista para A Tribuna:


Por que as mães erram?


Os erros são constitutivos da nossa humanidade. Ao ser mãe a mulher não se blinda de enganos, apesar do amor e das boas intenções. Ao afrontar esse dogma da sabedoria das mães e da bondade delas, quero que elas possam perceber suas falhas, corrigi-las e se desculparem. Nem todas as mães são boas, afetivas e generosas. Muitas, mesmo que involuntariamente, deixam marcas profundas nos seres que conceberam, por falta de afeto, de atenção, por desconhecimento e por, simplesmente, não trazerem consigo o desejo da maternidade.


Quais são as mães que fazem mal?


Muitas vezes, as dores que infringem vêm da ignorância emocional, da insensibilidade, da alienação existencial; por vezes, engravidaram prematuramente ou nem pensavam em ter bebês. Ao não pensar que podem fazer mal, não se acautelam no trato, no afeto, nem no uso das palavras. Passam incólumes pelo que causam e não veem o desconforto que provocam. Quando se fala no poder transcendente da maternidade ficam de fora a dor, as dúvidas, o desconforto, a fraqueza, o ressentimento e a maldade que toda condição humana contém, inclusive a materna.


Como é possível o resgate de uma relação que não foi boa?


Talvez, mães e filhos, se olhando com clareza, sem máscaras e, quem sabe, abrindo as portas para uma conversa sincera. O resgate dessa relação é possível a qualquer tempo, criando um novo repertório no presente e cicatrizando as feridas. O simples fato de uma mãe perceber que pode cometer atos ou palavras que são danosas podem tornar a mãe mais cautelosa quanto à sua própria língua ou sua própria ação. E não há tempo para isso. Isso pode ser feito a qualquer momento.


Será que, ainda hoje, cabe somente às mulheres a função de mãe?


É preciso ter a consciência de que antes de sermos mães, somos mulheres, e que esta talvez seja a hora de hesitar e considerar se queremos ou não gerar bebês, podendo decidir sem obediência e sem culpas. Estamos em um momento em que as mulheres trabalham, muitas são arrimo de família. É tempo de encontrar possibilidades presentes no enfrentamento dos desafios reais e retirar das mulheres cujos sonhos foram por séculos obstruídos e adiados, o protagonismo da criação dos pequenos e somar a elas todos que se mostrem capazes de entregar a eles cuidado e devoção, não importando gênero, engajamento sexual ou condições de acasalamento.


O que acha da longevidade da função da mãe?


É muito importante que a mulher pare de ser mãe quando os filhos crescem e que se torne uma pessoa que se interessa por eles, que respeita suas escolhas. O que precisamos é querer que nossos filhos sejam felizes, que tenham autonomia e que possam lutar pelo que é bom para eles e não para nós.


Qual é a receita?


Ser pai e ser mãe talvez seja uma das tarefas mais difíceis do ser humano, não há modelo, não há manual, não há regras seguras. Depende exclusivamente do que se passar com aquelas pessoas. E para isso é importante dois ingredientes: que o pai ou a mãe considere o filho desde sempre uma pessoa, um ser próprio. A segunda é que ela possa ser muito honesta. A tentativa de falsear um sentimento de cumprir as regras, a insinceridade é muito mais nociva do que uma sinceridade, mesmo que a coloque no lugar de inadequação.


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