Pais e filhos unidos em quarentena

Três relatos mostram como está sendo viver a paternidade neste cenário tão atípico de pandemia

Este Dia dos Pais é diferente de todos os anteriores. “Ao mesmo tempo em que a pandemia apresentou novos desafios econômicos e sociais, o isolamento social e o trabalho remoto acabaram levando os homens  para perto de um território que muitos ainda consideravam feminino: o cuidado com os filhos. Não são raros os comentários nas redes sociais de pais que passaram a conhecer o que os filhos amam comer, auxiliar nos deveres da escola...”, avalia o escritor Claudio dos Santos, autor do livro e canal no YouTube Macho do Século 21.

Graças às novas rotinas que foram incorporadas à casa, a ideia daquele pai responsável só pelo sustento e ocupado demais para participar do cuidado dos filhos, aos poucos vai dando lugar a uma figura paterna mais humana, engajada e afetiva. “Aqueles que encararam a paternidade ativa, por opção ou circunstância, estão curtindo, apesar de estranharem no início”, continua ele, que criou o movimento “Coronamacho, saia do sofá” com a jornalista Neivia Justa, para incentivar a divisão das tarefas domésticas, que só aumentaram durante a quarentena.

As descobertas vão desde “aprender a dar banho no bebê e se preocupar com a cor do cocô na fralda até saber finalmente qual música os filhos mais velhos ouvem. E se a mãe está por perto, mas trancada no quarto fazendo reuniões de trabalho, vários buscam no Google desde receitas básicas para o almoço dos pequenos até como lidar com a rebeldia do filho que se recusa a tomar banho”, exemplifica o escritor, desejando que esses homens incorporem os novos hábitos para quando a pandemia passar.

A seguir, reunimos relatos de três pais que estão honrando seu papel e frisaram que: 

  • A pandemia é grave, então não há clima de comemoração.
  • Eles sabem do quão privilegiados são por poderem estar perto dos filhos nessa hora. 
  • Solidarizam-se com tantas pessoas que infelizmente perderam seus pais e avós para a covid-19.

Pedro Cunha, pai da Júlia, de 5 anos, e da Lívia,de 3 anos. ( Foto: Arquivo pessoal)
Pedro Cunha, pai da Júlia, 5 anos, e Lívia, 3,
é coordenador de conteúdos e inovação da IOCHPE
 

"Eu fui trabalhar no terceiro setor com a ideia de ficar em casa mais tempo, mas acabava subindo a Serra para ir ao escritório paulistano. Desde 2011, saía de casa às 5 da manhã e voltava às 20 horas (quando o trânsito permitia). Encontrava minhas filhas já bem cansadas e sofria. Tentava compensar um pouco assumindo tarefas do cuidado, como dar o banho da noite. Minha esposa, enfermeira na Policlínica do Embaré, ficava sobrecarregada, e eu acredito que casal tem de ser parceiro. Até que veio a pandemia e migrei para o sistema de home office. Esse vírus acabou forçando processos que já estavam no limite de ocorrer. Hoje, acompanho a educação à distância das minhas filhas e sei que há um potencial maior a ser explorado, com investimento em infraestrutura, conectividade, preparo das pessoas. Quando ouço adultos falando ‘como é difícil lidar com as crianças porque ficam bagunçando enquanto faço reunião online’, eu penso que eles poderiam reconhecer o seu privilégio, pois há uma porção de outros pais que não têm essa condição.

Minha esposa tem trabalhado mais horas e sob um estresse enorme. Pegou a covid-19. 
Eu também. Nossas filhas, não. Eu acordo às 6h, junto com a mãe, e já preparo o café da manhã delas e o almoço. Começo meu expediente umas 7h30. Quando acordam, ajudo a tirar o pijama, escovar o cabelo... ou seja, estou fazendo tudo que desejava no dia a dia, mas não podia. Agora, elas chamam mais o pai quando querem pedir algo, reconhecendo que eu tenho um papel nesse núcleo. 

Outro dia, eu as observava brincando quando uma disse à outra: ‘Você quer ser o pai? Então, vai lavar a louça e preparar a comida que eu vou sair para trabalhar’. É uma inversão saudável à formação delas. Se sentem falta da mãe?  Quando não acordam a tempo de se despedirem de manhã, me perguntam: ‘papai, mas ela me beijou antes de ir trabalhar?’ Quando a Renata volta, eu digo “agora fique com elas que eu vou arrumar a bagunça da casa”. Há várias fotos no Instagram. Uma amiga, arte-educadora, comentou que o que eu faço é praticamente uma campanha sobre como ser um pai preocupado em proporcionar experiências aos filhos.

Num dos posts escrevi que equilibrar trabalho e casa, com duas crianças, não é fácil. Exige paciência, disposição e organização. Enquanto filhas ainda dormem, abraçadas, o café da manhã está pronto e o home office precisa render. Eu fico como? Agradecido por ter condições de viver esse momento. Não me considero bonzinho, mas sim esperto por saber quanto isso vai fazer diferença na visão que elas terão do pai delas no futuro".

Paulo Fortes, pai da Emanuela, de 10, e da Gabriela, de 4 anos. (Foto: Arquivo Pessoal)

 

Paulo Fortes, pai da Emanuela, 10 anos, e da Gabriela, 4,
é assessor de imprensa da Petrobras 

"Com famílias perdendo entes queridos e enfrentando uma série de dificuldades para trabalhar e garantir o sustento, encaro esse cenário negativo com um alento, que é o de estar convivendo mais com as minhas filhas, desde que a companhia mandou os funcionários trabalharem em sistema de home office.

Na Petrobras desde 2003, eu subia a Serra até o escritório na Avenida Paulista diariamente. No ano passado, a empresa me transferiu para um imóvel próprio em Santos, então já fiquei mais perto da família. 

Por causa do distanciamento social, venho cumprindo a minha carga horária dentro de casa. Claro, tenho de manter a produtividade de antes, mas está sendo gratificante e edificante também viver esse contato intenso familiar.

Por minha esposa, que também é jornalista, precisar passar o dia todo trabalhando fora de casa, somos apenas elas e eu, sem a presença física da mãe, que só chega geralmente depois que estão dormindo e que eu arrumei a casa inteira. Eu levo para escovar os dentes e tomar banho, sirvo café da manhã, tiro dúvidas da mais velha nas lições escolares e participo de algumas atividades como pai, organizo o que vamos almoçar e jantar, lavo louça e coloco as roupas na máquina de lavar, ponho para dormir...

Faço tudo isso conciliando com minha carga horária diária de trabalho, sem deixar cair a produtividade. Enquanto a mais velha faz aulas online, a pequena brinca fazendo bagunça. Desarruma a sala, o quarto... e é compreensível porque não tem a alternativa de sair. São tantas atividades domésticas e escolares para administrar! Eu vou para o fogão e opto por cozinhar pratos fáceis e rápidos. Sou o rei dos omeletes; me apoiando ainda em alguns ‘curingas’ congelados e nas massas. No futuro, elas talvez se cansem de comer tanto omelete, mas o melhor é o vínculo afetivo que estamos fortalecendo. Ele ficará.

Eu encaro essa fase como de aprendizado para o nosso amadurecimento como pais, e que contribuirá para a formação das meninas - por estreitarmos laços, aumentamos a intimidade, ficarmos amigos, exercitarmos o respeito aos espaços de cada um dentro de casa. Estou podendo conversar, acompanhar o dia a dia delas e perceber detalhes no comportamento que, muitas vezes, passavam despercebidos.”

André Galante Alencar Aranhaes, pai da Pietra e do Filippo. (Foto: arquivo pessoal)



 

 

André Galante Alencar Aranhaes, pai da Pietra,14 anos, e do Filippo, 12,
é médico cirurgião-torácico e professor universitário

"Enfrentamos uma situação dramática como sociedade e na minha profissão. Eu perdi colegas para a covid-19. Outros ficaram gravemente doentes; e tive de auxiliar muitos pacientes com complicações na minha área específica. Isso gerou tristeza, angústia. Por outro lado, está me proporcionando ter momentos ao lado dos meus filhos e esposa que eu não tinha antes. No primeiro mês de pandemia, a clínica em que atendo fechou as portas. Voltei a atender, mas a um número reduzido de pacientes. E tenho dado aulas online aos estudantes de Medicina. As cirurgias eletivas foram adiadas, exceto casos urgentes. Essa queda no movimento cirúrgico fez com que eu estivesse mais perto dos meus filhos. Antes, eu os via só à noite – e quando via, pois não era raro voltar para casa e encontrá-los dormindo.

A questão da escola era administrada pela minha esposa, que é advogada e enfermeira de formação, mas decidiu não atuar. Ela brincava que era ‘ubermãe’, por levá-los a várias atividades educacionais, esportivas, culturais. Até isso mudou, já que hoje ninguém vai a lugar nenhum. O que mais fazemos é um cuidar do outro, o que nos une mais.

Por ficar mais tempo em casa, tive a oportunidade de entender um pouco melhor a personalidade, os gostos, as manias e as angústias de cada filho. Nisso, a mãe estava bem à frente de mim. Desde março, eu passei a interagir mais, ajudar mais, estar mais presente – tanto no estudo quanto no lazer. Também brincamos mais, jogamos mais, assistimos a filmes e séries juntos.

Que desafio conciliar trabalho com educação dos filhos! Ficou tudo online. Pai tem que ajudar. Muitas vezes, eles sentem dificuldades no manejo das plataformas. O computador, às vezes, trava, apaga, fazendo a gente perder tudo que digitou. Eu explico que é assim mesmo, que também já aconteceu comigo nessa nova rotina de professor virtual. Por ser médico, também estou sempre esclarecendo dúvidas sobre o novo coronavírus, principalmente quando ouvem e lêem notícias falsas.

No início, a gente sabia pouco sobre a doença, elevando a ansiedade. Voltava do hospital com tanto medo de contagiá-los! Ia para o chuveiro sem tocar em nada em casa. Aos poucos fomos nos adaptando. Por outro lado, acredito passar confiança aos meus filhos por ser da área de saúde; e recentemente estamos conversando sobre o que é necessário para que a vida volte à normalidade.”

 

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