Vice-campeão mundial de surfe, Filipe Toledo fala sobre projetos, vida e família

Natural de Ubatuba, Toledo tem projetos para a categoria de base do surfe

Por: Stevens Standke  -  12/12/21  -  12:41
Vice-campeão mundial, Filipe Toledo tem projetos para a categoria de base do surfe. Ele fala da vida nos EUA e da forte ligação com a família
Vice-campeão mundial, Filipe Toledo tem projetos para a categoria de base do surfe. Ele fala da vida nos EUA e da forte ligação com a família   Foto: Sam Kim/Divulgação

Quem vê Filipe Toledo brilhando nas ondas e promovendo o surfe brasileiro mundo afora não imagina que já enfrentou até uma depressão, por causa da cobrança excessiva (dele próprio e dos outros) para manter o alto rendimento. Atual vice-campeão mundial da WSL, a liga mundial de surfe, e natural de Ubatuba, o atleta mora na Califórnia (Estados Unidos) com a mulher, os dois filhos, os pais e os irmãos há oito anos. E em paralelo à carreira, não só mantém uma loja de surfe na sua cidade natal como procura retribuir tudo de bom que o esporte lhe trouxe, promovendo ações para fomentar a categoria de base masculina e feminina – entre elas está o circuito que realizou nos últimos meses em Praia Grande e Ubatuba. Na entrevista a seguir, o atleta, de 26 anos, avalia os reflexos da Brazilian Storm (Tempestade Brasileira, em inglês, termo usado para designar a atual geração de surfistas brasileiros que têm se destacado na cena global) e fala, entre outros assuntos, da paixão por gastronomia, ciclismo e futebol.


Ranking

O Gabriel Medina
e você ficaram, respectivamente, em primeiro e segundo lugares no campeonato mundial de surfe. O que o pessoal fala sobre a Brazilian Storm fora do País?

Os surfistas brasileiros têm se feito presentes constantemente no top 5 global. Nos primeiros cinco anos da Brazilian Storm, as pessoas do meio achavam tudo muito legal e positivo. Agora, elas já estão começando a ficar meio mordidas. Às vezes, a gente escuta comentarem: “É bem legal ver a dedicação de vocês, brasileiros, mas já deu, né?” Nós estamos incomodando cada vez mais, e a meta é justamente essa (risos). Os surfistas brasileiros estão mostrando que não são somente uma tempestade que vem e que, uma hora, passa.


Qual é a sensação que tem quando analisa tudo o que conquistou até o momento?

É algo que não dá para descrever, porque, desde 2015, eu tenho chegado muito perto de ficar em primeiro lugar no ranking global. Falta fazer pequenas mudanças na minha preparação para conseguir a taça. Durante esses anos todos, estou lutando bastante para ter o título mundial. É um processo exaustivo, que desgasta e exige sacrifícios.


Família

Costuma enfrentar quais desafios no dia a dia?

O circuito mundial normalmente tem 11 etapas. Então, fico parte do ano viajando, longe dos meus filhos e da minha esposa. Logo no início do primeiro semestre, acontece a etapa da Austrália, que faz com que eu fique três meses lá. Aí, quando essa fase termina, tenho que ir direto para a Indonésia e seguir para as competições no Brasil, na África do Sul e na Europa. Às vezes, o intervalo entre uma etapa e outra é tão curto que não vale a pena ir para casa. Pois há ocasiões em que tenho só sete dias de folga, sendo que, se fosse voltar para a Califórnia, onde moro há oito anos, demoraria dois dias para ir e mais dois para retornar. Ou seja, restariam apenas três dias para a família. E além de ter de me adaptar a diferentes fusos horários, o tempo que fico nos aeroportos também é puxado. Tenho que carregar junto com as malas duas capas – cada uma, em média, com oito pranchas – para ter como surfar nos mais diferentes tipos de mar. Dependendo do caso, ainda preciso dormir no aeroporto mesmo, quando não consigo nenhuma reserva em hotel. Para você ter ideia, não vi os meus dois filhos nascerem, porque estava viajando.


E você é bastante ligado à família. Como faz para driblar a saudade e acompanhar a educação dos seus dois filhos?

Sempre estou ligando ou fazendo videochamada com a minha mulher e as crianças. Mas, às vezes, é difícil demais segurar a saudade. Tenho que dar uma “congelada” no coração, pensando que falta pouco para voltar para casa. E quando estou na Califórnia, foco 100% em ser pai, marido e filho. Bloqueio totalmente a minha agenda, no mínimo, uma ou duas semanas, para podermos fazer somente passeios e atividades em família. Enquanto estou em casa, cuido mais das crianças, para a minha esposa poder ficar mais disponível para o trabalho dela. Portanto, acabo tendo bastante tempo de qualidade com a minha família.


Sempre que possível, a sua mulher e as crianças o acompanham nos torneios?

Sim, mas, como a Mahina está com 5 anos e o Koa, com 3, eles ficam mais em casa. Quando os dois eram menores, eles e a Ananda (Marçal, esposa) viajaram comigo direto para as competições, durante praticamente dois anos.


Por acaso, a Mahina e o Koa já dão sinais de que gostam de surfe?

O Koa curte bastante. Ele é bem atirado e energético como eu. A Mahina também gosta de surfar. Sempre que posso levo os dois para pegarem onda comigo. Mas quero que o esporte para eles seja algo natural e divertido, assim como foi para mim. O meu pai não me forçava a surfar. Quando a gente ia para a praia, ele deixava brinquedos, a bola de futebol e a prancha disponíveis para que eu ficasse livre para escolher o que ia fazer.


Califórnia


O que motivou
a mudança de Ubatuba para os Estados Unidos?

Foi uma decisão tomada em família. Afinal, os meus pais e os meus irmãos também se mudaram para a Califórnia. Além de ser algo que faria muito bem para a minha carreira – já que facilita a logística, a locomoção para os campeonatos, e os meus patrocinadores estão a meia hora da minha casa –, os meus irmãos e os meus pais poderiam ter melhor qualidade de vida. Os meus filhos, inclusive, são americanos; eles nasceram lá.


Alguém da família trabalha com você?

O meu pai. Desde o início da minha carreira, ele sempre viajou comigo para as provas e foi o meu técnico. Só que, de uns dois, três anos para cá, tem ficado mais em casa, para não deixar a minha mãe tão sozinha, e passou a cuidar mais da parte burocrática, logística.


O seu pai também surfou profissionalmente, não é mesmo?

Sim. Ele conquistou três títulos brasileiros. A gente tem uma troca bem legal; ele passa um pouco da experiência que acumulou e dá toques mesmo quando não viaja comigo. O que o meu pai mais frisa é que, além de dar o meu melhor, eu não devo deixar de me divertir nas provas, independentemente do que está rolando. Afinal, surfar é o que mais amo fazer.


Crise

É verdade que entrou em depressão, por causa da cobrança excessiva por resultados?

Isso aconteceu, sim. Não é que as pessoas ficam falando para que eu “mostre serviço”, mas, naturalmente, há muitas cobranças. Por parte do meu pai e coach; dos patrocinadores... Sem contar a minha autocobrança. Costumo pegar pesado comigo. Se não consigo um bom resultado, fico me martirizando. Com tanta pressão, se você não está com o psicológico bom, acaba não aguentando. Foi o que ocorreu comigo. Desde os 10 anos, encaro várias cobranças. Só que eu nunca trabalhava o meu psicológico. Chegou um ponto em que fiquei mal, com o emocional abalado.


E quando foi isso?

Toda vez em que não me saio bem numa prova, analiso o que posso melhorar e sigo adiante, com aquele aprendizado, numa boa. Só que, em 2019, eu não consegui fazer isso. Perdi algumas baterias e apenas enxerguei o lado negativo daquilo. Me vi em uma montanha-russa de sentimentos e sensações que não dava para controlar, e deixei de sentir prazer e felicidade em surfar. De lá para cá, trabalhei legal o meu psicológico e evoluí. Hoje, estou na minha melhor fase.


Base

Qual é a sua prioridade?

Quero ser feliz, aproveitar a minha vida e a minha família, e cada minuto que dedico ao surfe. Em paralelo à minha carreira, tenho uma loja em Ubatuba, onde você vai encontrar um pouco da minha história, produtos apenas dos meus patrocinadores e pranchas que usei ou que foram feitas para mim e, por algum motivo, acabei não utilizando. Elas, que são exclusivas, estão à venda. Em Ubatuba, também ajudo um atleta de base, o Pedro Henrique, e estou realizando projetos para devolver ao surfe um pouco do que ele me deu. Essa é a minha vontade, o que me fará sentir totalmente realizado daqui em diante.


E quais são essas iniciativas?

Eu comecei pequeno. Além de cuidar de um atleta, promovi uns dois campeonatos e, nos últimos meses, realizei as primeiras etapas do circuito Filipe Toledo Kids On Fire, em Ubatuba e Praia Grande, para fomentar a categoria de base masculina e feminina. Surfistas do Brasil inteiro participaram; a repercussão foi muito boa. Quero fazer com que o circuito cada vez mais evolua e cresça. Eu, meu pai e meu manager estamos aprendendo a lidar com isso tudo. Com o tempo, também pretendo representar mais talentos da base. A meninada de 12, 13 anos de Ubatuba tem um nível ótimo. Na minha loja, quem desejar ainda pode se inscrever para aulas de surfe.


Associa a sua imagem a alguma outra causa?

Sou padrinho do Namaskar, projeto encabeçado por uma das melhores amigas da minha mãe, que começou pequeno do zero. Por meio dele, crianças e famílias da periferia de Ubatuba têm acesso a aulas de pintura, violão, teclado, balé, dança, hip hop, informática, surfe e futebol. O projeto é como uma outra família para mim; sempre sou muito bem-recebido por eles. Tenho orgulho de contribuir com essa iniciativa.


Hobby

O que você gosta
de fazer no tempo livre?

Sempre curti jogar bola, mas, como me machuquei uma vez e isso me deixou fora de um campeonato, dei uma parada com o futebol. O que estou praticando na Califórnia é ciclismo, com aquela bike de pneu fino, de triatlo. Costumo pedalar com o meu pai e a minha mãe. Até pretendo, um dia, fazer uma prova. E eu e a minha mulher gostamos de cozinhar. De vez em quando, me arrisco na cozinha. Amo preparar churrasco.


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