Maestro e compositor de Santos brilha na cena global da música clássica

João Rocha, além de montar orquestra nos EUA, chama atenção com obra para o Mês da Consciência Negra

Por: Stevens Standke  -  21/11/21  -  09:07
Sua paixão pela música clássica se mistura com rodas de samba e de choro
Sua paixão pela música clássica se mistura com rodas de samba e de choro   Foto: Nicolae Pop/Divulgação

João Rocha tem uma história nada convencional, na qual a paixão pela música clássica se mistura com rodas de samba e de choro. Não bastasse isso, o maestro e compositor santista, de 38 anos, por um tempo se dedicou ao canto, participando de corais da região e de São Paulo. Até que resolveu largar uma carreira promissora num grande banco para se graduar em Regência, na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).


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A partir daí, foi uma questão de tempo até se destacar, ganhando, inclusive, uma bolsa do governo alemão para estudar fora do País. Hoje, João mora nos Estados Unidos, onde finaliza o seu doutorado e monta a própria orquestra. Na entrevista a seguir, ele fala, entre outros assuntos, do sucesso da Sinfonietta Concertante, obra que escreveu para concerto da Orquestra Sinfônica da Universidade de São Paulo (Osusp), em celebração ao Mês da Consciência Negra, e comenta também como o racismo se manifesta na música clássica.


Você compôs a Sinfonietta Concertante, em homenagem ao Mês da Consciência Negra, para a Orquestra Sinfônica da USP. A obra foi bem recebida?


Sim, mais do que eu poderia esperar. A maestra Alba Bomfim pediu uma composição minha para o concerto em que ela ia reger a Osusp (que aconteceu no dia 12), em celebração ao Mês da Consciência Negra. Ela queria fazer um programa só com compositores brasileiros. A princípio, eu ia ceder Noturna, que escrevi em 2012, mas resolvi compor algo novo para a ocasião. Fiz a Sinfonietta Concertante em agosto, em quatro dias. Nela, presto uma homenagem aos compositores negros brasileiros. Quando a obra foi ensaiada no início do mês, todos da Osusp a elogiaram e, por causa da repercussão do concerto, ela vai ser apresentada de novo, agora em dezembro. É muito difícil uma composição já estreada ser tocada mais de uma vez no mesmo ano. E estou sendo procurado por outras orquestras, nacionais e do exterior, interessadas em tocar a Sinfonietta.


Encarou resistência no mercado da música clássica por ser negro?


Não dá para dizer que não existe preconceito. Se você fizer uma pesquisa rápida, verá que a quantidade de compositores e de regentes negros no Brasil é muito pouca. Sendo que, no início do século 20, o circuito brasileiro de óperas teve peso internacional, com grandes músicos de outros lugares do mundo vindo tocar no País. Só esse número ínfimo já indica que existe, sim, racismo. Mas várias medidas de inclusão estão sendo adotadas, o que tende a melhorar um pouco a situação. Ainda há um longo caminho a ser percorrido.


Quais são os seus planos daqui para frente?


Moro nos Estados Unidos, na cidade de Oxford, em Ohio. Em janeiro, vou defender o meu doutorado em Regência na Universidade de Kentucky. No ano passado, deixei o trabalho de maestro assistente da orquestra dessa instituição de ensino para poder escrever a minha primeira ópera, a qual estou finalizando e fala sobre a Inês de Castro. O meu plano também é, em agosto de 2022, fazer o primeiro concerto da orquestra que estou montando, a Oxford Chamber Ensemble. Ainda estou recebendo convites para reger orquestras no Brasil no segundo semestre.


Tem alguma outra meta?


Chegou uma hora em que me perguntei: “O que é ser um maestro e compositor negro na música clássica do século 21?” Sabe por quê? Se você observar os jovens regentes negros, vai reparar que a maioria se comporta como europeus brancos, nas suas posturas e vestimentas. Fico me questionando como posso contribuir para mudar isso. Acho que o melhor que consigo fazer é servir de ponte entre as pessoas leigas e a sala de concerto. Tem uma história que exemplifica bem o que quero dizer: em 2012, quando ganhei o prêmio Eleazar de Carvalho para Jovens Solistas e Regentes, lembro que, em uma das etapas do concurso, um menino preto pediu para falar comigo. Ele disse: “Tenho 12 anos. Toco trompete. Quero ser maestro também”. Fiquei pensando o motivo de ele abordar justo eu. Foi por se identificar comigo.


O que foi que despertou o seu interesse pela música clássica?


Até os 5 anos, eu morei no Canal 2. Depois, me mudei para o Embaré e, como parte da minha família está na Zona Noroeste, sempre vivi entre essas duas regiões de Santos. Meu avô tocava acordeom; meu tio, que é estivador, gosta de cavaquinho; meu pai, que amava samba, andava com instrumentos no carro para tocar quando surgisse uma oportunidade...Ou seja, venho de uma família muito musical. Mas poucos parentes se tornaram músicos profissionais. No fim da década de 80, um dia eu estava na casa da minha avó e o meu tio perguntou se queria que me ensinasse a tocar cavaquinho. Ele foi um dos melhores e mais rigorosos professores de música que tive. Aí, como eu estava entrando na pré-adolescência, comecei a querer ir com ele para as rodas de samba e choro. A minha mãe não deixou. Ela disse que, se eu quisesse aprofundar meus conhecimentos musicais, teria de ir para o conservatório. Foi o que fiz. Assim, durante dois, três anos, eu aprendi o fundamento teórico da música clássica no cavaquinho. Só que, nas férias, às vezes a minha mãe viajava e, como ela me deixava com a minha avó, não tinha como: eu acabava indo às rodas de samba e choro com o meu tio, para ter contato com alguns dos grandes músicos que existem na região.


Como continuou sua formação?


No prédio em que eu morava, um dos vizinhos, o pandeirista Barbosinha, por escutar eu tocando cavaquinho em casa, me chamou para ir estudar com ele. Por causa disso, outro vizinho, que tocava cello, também quis me dar algumas lições. Fui meio que adotado pelo meu entorno. E eu nunca abandonei a música por completo. Dei uma desacelerada dos 10 aos 16 anos, para jogar basquete, mas, quando terminei o Ensino Médio em 2000, disse para a minha mãe que queria fazer faculdade de Música. Ela sugeriu que eu optasse por uma carreira que proporcionasse uma estabilidade financeira e me dedicasse à música no meu tempo livre. Então, entrei no curso de Administração meio a contragosto.


E quando voltou a investir na música?


Estudei no Lusíada (Unilus). Curiosamente, a biblioteca do curso de Música que a universidade teve ficava no prédio onde eu assistia às aulas de Administração. Para aproveitar ao máximo os livros daquele acervo, eu chegava antes no campus e ficava até mais tarde. Com o tempo, consegui estágio em um banco e, com 20 anos, já era gerente. Mas reparei que, depois de atender os clientes, sempre ligava o rádio de pilha para ouvir música clássica. Pensei: “Não tem sentido continuar aqui se quero estudar Música”. Eu tranquei a faculdade de Administração e pedi demissão no banco em 2003. A minha família ficou preocupada, pois eu estava abandonando uma carreira promissora.


Teve de prestar vestibular de novo?


Sim, porque eu queria fazer Regência na Unicamp (Universidade Estadual de Campinas). Mas isso só aconteceu alguns anos depois. Por um período, fiquei trabalhando em corais, entre eles o Zanzalá, de Cubatão, e o Coral Jovem do Estado. Também cantei em um grupo de casamento de Santos – como ele era ligado ao Baccarelli, de São Paulo, me proporcionou acesso a partituras de grandes maestros brasileiros. Como dá para perceber, por mais que, até então, eu estivesse aprendendo música informalmente, a minha formação era bastante densa. Inclusive, naquela época, ainda fiz aulas de piano na Escola Simonian de Música e integrei o seu grupo vocal. Aí, em 2006, ao ouvir CD comemorativo dos 450 anos de Santos, com a obra do Gilberto Mendes, resolvi procurá-lo. Ele foi o meu mentor intelectual por dez anos. E em 2010, estreei a minha primeira obra sinfônica, chamada Os Jardins das Praias de Santos, durante o Festival Música Nova.


Quando ingressou na Unicamp?


Em 2008, e fui o segundo melhor colocado no processo seletivo. Durante a graduação, o sistema de intercâmbio da Unicamp me permitiu fazer algumas aulas na Unesp (Universidade Estadual Paulista). Detalhe: na Unicamp, toda sexta o pessoal de Filosofia organizava uma roda de samba e eu ia. Sempre tive essa rotina eclética. E em paralelo aos estudos, ia estreando as obras que eu compunha em festivais etc. Por me destacar no curso, tive a oportunidade de reger a Sinfônica da Unicamp e, para a apresentação, escrevi Kizomba, minha primeira obra falando abertamente sobre a negritude. Nela, misturei trechos de músicas, por exemplo, da Clementina de Jesus e da Ivone Lara com Tchaikovski e outras referências. Foi algo marcante, porque a sala ficou lotada e aquilo ganhou espaço no noticiário de vários jornais.


O que pesou para tentar a sorte fora do Brasil?


Em 2014, terminei a faculdade de Regência e continuei na Unicamp, para fazer o mestrado em Regência e a graduação de Composição. Mas, como ganhei uma bolsa do governo alemão, tive de abandonar tudo e fui estudar no conservatório de Rostock. Com o tempo, como a tradição alemã é muito baseada em o maestro tocar piano, resolvi ir para os EUA, onde fiz o meu mestrado, na Universidade de Cincinnati (Ohio), que tem um dos melhores conservatórios dos Estado Unidos e, no estudo de regência, é respeitada no mundo inteiro.


O que aconteceu a seguir?


Em 2018, assumi o cargo de maestro assistente da Sinfônica da Universidade de Kentucky, o que me permitiu começar a fazer o meu doutorado na instituição. E regendo essa orquestra, me apresentei em maio de 2019 no Carnegie Hall, em Nova York. Em junho do mesmo ano, viajei para a Europa, para participar de festival em Praga e, na sequência, fiz minitour pela República Tcheca e Portugal com a minha esposa, Paula Gândara. Ela, que é portuguesa, dá aula de música nos Estados Unidos, na Miami University of Ohio. Juntos, nós temos o Duo Rocha Gândara.


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