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Grupo busca combater o crescimento de casos de violência contra a mulher na Baixada Santista
Grupo atua em cidades da região com a meta de ajudar a combater o número elevado de casos de agressão contra a mulher
Por: Alcione Herzog  -  02/05/21  -  15:22
Grupo de proteção às mulheres atua em busca de direitos na Baixada Santista   Foto: Unsplash

A sociedade sempre foi cruel com a mulher – seja tratando de diminui-la ou tipificá-la. E em pleno século 21, esse julgamento alheio, na maioria das vezes vindo dos homens, ainda desqualifica e tortura a saúde mental feminina. Isso sem falar nos casos de violência física.


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Se muita gente não insistisse em transmitir o preconceito desde a infância, nenhum tipo de discriminação ou violência contra a mulher aconteceria na vida adulta. Piadinhas e até músicas infantis, como O Cravo Brigou com a Rosa, são um exemplo desse tipo de situação. Afinal, na canção, mesmo machucada, maltratada e humilhada, a rosa engoliu a sua dor e foi cuidar do parceiro.


Para completar, o Brasil é o quinto país mais violento contra a mulher. De acordo com relatório do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos, as taxas de feminicídio por aqui só não perdem para os índices de El Salvador, Colômbia, Guatemala e Rússia. O Mapa da Violência do Conselho Nacional de Justiça mostrou que, em 2016, uma mulher foi assassinada a cada hora no País. “Isso sem considerar os casos de subnotificação, que acontecem e que agravam ainda mais essa realidade”, ressalta Kátia Rosa, psicóloga e líder nacional da área no Projeto Justiceiras.


Com a pandemia de covid-19, as mulheres tomaram outro golpe. Dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados do Ministério da Economia indicaram que as mulheres foram as pessoas que mais perderam o emprego em 2020. Além disso, o mercado decidiu reabsorver mais homens do que mulheres com a retomada das contratações. “A pandemia deixou as mulheres presas dentro de suas casas. O cenário domiciliar de polarização, politicamente ou socialmente, inflama a violência contra a mulher. Antes, ela podia ir ao trabalho ou sair para estudar; agora, está presa, muitas vezes, com o seu agressor”, analisa a psicóloga Kátia Rosa.


Diante de um cenário opressor em termos físicos e psicológicos, como fazer para que as futuras gerações não repitam os mesmos erros cometidos há centenas de anos? Primeiro é preciso entender que tal violência é patriarcal, responde a líder do Projeto Justiceiras. Ela explica que, quando os homens mantêm o poder, eles predominam em funções de liderança e moral ou estabelecem as regras da família.


“O homem aprendeu a ter esse comportamento de patriarcado tóxico. Quem agride já vem de uma corrente de agressão, mas não pode ser tratado como vítima da realidade social. Falta ao homem consciência para buscar ajuda e fazer a mudança de comportamento necessária. Pensando no futuro, temos de educar os nossos filhos sem violência. A criança que não recebe violência não a reproduz”.


Punição a todas as violências


A violência contra a mulher está no dia a dia e, talvez, você nem perceba quando um caso do tipo acontece. Já que a agressão também pode ser invisível, sem deixar marcas evidentes – ela, porém, machuca a vítima em seu psicológico. “É comum encontrar situações de mulheres que falam ‘ele é nervoso, mas é um bom pai’”, observa Kátia Rosa.


O que falta é a consciência de que, inclusive, palavras podem agredir. Para punir quem pratica violência contra a mulher, há a Lei Maria da Penha. “No meu entendimento, ela é uma das melhores legislações do mundo e a melhor lei do País”, destaca a psicóloga.


Os diferentes tipos


Segundo o artigo 7 da Lei 11.340 (Lei Maria da Penha), as formas de violência doméstica e familiar contra a mulher são as seguintes:


- Física. Aquela na qual uma conduta ofende a integridade ou a saúde corporal;


- Psicológica. Atos que causam dano emocional ou diminuição da autoestima; que visam degradar ou controlar ações, comportamentos, crenças e decisões da mulher, via ameaça, constrangimento, humilhação, manipulação, isolamento, vigilância constante, perseguição, insulto, chantagem, ridicularização, exploração e limitação do direito de ir e vir – ou qualquer outro meio que traga prejuízo à saúde psicológica e à autodeterminação;


- Sexual. Qualquer conduta que constranja e obrigue a presenciar, manter ou participar de relação sexual não desejada, mediante intimidação, ameaça ou por meio do uso da força;


- Patrimonial. Comportamento que envolve retenção, subtração, destruição parcial ou total de objetos, instrumentos de trabalho, documentos pessoais, bens, valores e direitos;


- Moral. Ações que se enquadram como calúnia, difamação ou injúria.


Propulsor para a mudança


Levantamento feito pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostrou que, em 2019, as mulheres ganhavam, em média, 77% do salário que os homens que ocupavam mesma função recebiam. A pesquisa analisou as condições de vida das brasileiras e apontou também que a maior desigualdade salarial está na Região Sudeste e que apenas 34% dos cargos gerenciais do País eram ocupados por profissionais do sexo feminino.


Criado em 2013, o Grupo Mulheres do Brasil cresce e semeia a mudança por onde passa. Presidido pela empresária Luiza Helena Trajano, o projeto suprapartidário conta com mais de 88 mil pessoas encabeçando pautas e ações para colocar a mulher como protagonista de seus sonhos. Os trabalhos buscam instituir políticas afirmativas e eliminar as desigualdades de gênero, raça e condição social.


Após formatar a iniciativa nacional, o grupo viu a necessidade de abrir sedes regionais. Na Baixada Santista, núcleos em Guarujá, Praia Grande e Santos estão em operação. Líder da unidade santista, Christine Martins diz que o grupo regional começou no fim de 2020 e já conta com mais de 40 mulheres participando. “As cidades possuem necessidades diferentes. Por isso, a criação de sedes. Nós temos o objetivo de engajar a sociedade na busca de melhorias, com o olhar do protagonismo feminino”, explica.


O Mulheres do Brasil iniciou a sua caminhada à procura de parcerias. A líder da unidade de Santos esclarece que elas podem ser com empresas privadas ou públicas, desde que possibilitem o desenvolvimento do protagonismo feminino. “Nós não estamos ligados a nenhum partido político. Pensamos apenas em ações positivas para a mulher”.


Como há diversas causas para defender, o grupo buscou segmentar as pautas, criando comitês para gerenciar e ajudar de forma mais rápida e assertiva no encaminhamento dos processos.


Ao todo, o projeto conta com 22 comitês, que vão de áreas como tecnologia e saúde a combate à violência contra a mulher.


Em Santos, sete deles estão em atividade: Vozes, 60+, 80 e 8, Comunicação, Empreendedorismo, Educação e Violência contra Mulher.


Amparando e ensinando


Líder do Comitê de Violência contra Mulher, Mayra Dias diz que se interessou pelo tema em 2009, quando “participei de um projeto da Prefeitura de São Vicente que ensinava legislação federal para as crianças. Naquela época, já achava fundamental chamarmos a atenção para a igualdade de gênero.


Mesmo sendo algo recente, buscava falar da Lei Maria da Penha. Essa ideia, então, permaneceu dentro de mim; agora, a gente vem executando ações”.


A pasta tem o objetivo de atender as vítimas nas delegacias das mulheres, conscientizar sobre a violência doméstica e trabalhar na reabilitação de agressores.


Além disso, procura formular políticas de combate à violência e impulsionar iniciativas que contribuam para solucionar esse tipo de problema. Entre essas atuações está o Projeto Luzes. “Essa ação já existe em outras cidades e decidimos trazer para Santos. Nós capacitamos profissionais do setor de beleza para que possam orientar a mulher que está sofrendo violência doméstica. Além de dar o acolhimento necessário, essa pessoa vai encaminhar a mulher para que ela reporte as agressões aos órgãos superiores”, explica Mayra.


A líder do Comitê de Combate à Violência contra Mulher acrescenta que mais ações estão sendo elaboradas. “Temos ainda o Projeto A Outra Face, voltado para meninas que vivem em zonas periféricas. A ideia é dar informação sobre os tipos de violência e incentivar o resgate da autoestima dessas pessoas”.


No empenho para a construção de um futuro melhor, o grupo tenta manter contato com homens agressores. Detalhe: muitos deles acham que naturalizar a agressão é a única maneira de solucionar o problema. Para Mayra Dias, se aproximar desse estilo de homem é importante para conscientizá-lo da atitude errada que acaba tomando e de que não deve cometer nova agressão.


Busque ajuda ou faça parte


Toda mulher tem a sua força e capacidade para chegar aonde quiser. Não ficar com medo do agressor, não naturalizar comportamentos raivosos ou que intimidam, não se sentir inferior por motivo algum e sempre buscar auxílio... O Grupo Mulheres do Brasil acolhe e contribui para o desenvolvimento dessas pessoas.


Quem se interessar por prestar algum tipo de suporte a esse trabalho deve mandar mensagem para o Instagram. Também dá para colaborar como voluntário. Outro canal para se inteirar sobre o projeto é o seu site oficial.