Especialistas explicam a importância do equilíbrio na saúde mental

Brasil ocupa a primeira posição em prevalência da ansiedade, com 9,3% da população sofrendo com o transtorno

Por: Alcione Herzog  -  21/11/21  -  11:35
No Brasil, podemos dizer que vivemos um tsunami silencioso na saúde mental
No Brasil, podemos dizer que vivemos um tsunami silencioso na saúde mental   Foto: Pixabay

O turbilhão de situações que a vida moderna nos impõe promove maremotos emocionais cada vez mais frequentes no cotidiano. No Brasil, podemos dizer que vivemos um tsunami silencioso na saúde mental. O País lidera o ranking mundial dos transtornos mentais considerados as “doenças do século 21”, de acordo com dados da última estimativa da Organização Mundial da Saúde (OMS), de 2017.


Ocupamos a primeira posição em prevalência de ansiedade, com mais de 18 milhões de pessoas sofrendo desse transtorno (9,3% da população). O Brasil também figura no segundo lugar mundial em casos de depressão: são 11 milhões de pessoas com a doença.


Cientistas relacionam esses números ao modo como funciona a sociedade atual e a comunidade médica investe em novas técnicas que auxiliem no diagnóstico dos diferentes transtornos mentais. Nesse contexto, uma palavra tem sido cada vez mais frequente em salas de terapia, laboratórios de pesquisa e palestras de coaching: equanimidade.


Você já ouviu esse termo? Afinal, por que a equanimidade das emoções é relevante para a vida? De acordo com a filósofa Lúcia Helena Galvão, equanimidade vem do latim aequa (igual) mais anima (ânimo, estado de espírito). Significa um estado de espírito que não se altera diante das dificuldades, o que é o ideal para se encontrar respostas, pois a mente se obscurece quando as emoções saem do controle. “No centro do furacão, devemos estar equilibrados e lúcidos. De nada adianta um longo preparo para dar respostas às dificuldades se, diante delas, não temos um acesso lúcido à mente, onde tais instruções se acumulam”.


Bem dizia Platão ao definir a coragem como a capacidade de manter o domínio da razão diante de uma situação-limite de medo ou desejo. “O corajoso toma as rédeas das emoções e busca na mente, orientada por princípios, a melhor saída. Dizia Epiteto, o famoso filósofo-escravo do estoicismo romano: ‘Preserve a sua mente e ela preservará você’”.


Suzany Cristiny Almeida, psicóloga, coach e cantarterapeuta, explica que a equanimidade está muito próxima do que chamamos desde sempre de equilíbrio emocional. O desafio é manter em harmonia as atividades dos sistemas límbico (parte do cérebro responsável pelas emoções) e cortical (que governa o aspecto mais racional). “Não se trata de repelir sentimentos como raiva, tristeza, entre outros. Se trata de aprender a elaborá-los. Podemos, sim, sentir o que quer que seja, só não devemos ter nossas ações totalmente controladas pelas emoções”.


Não externar o que se sente significa repressão e, no caso da raiva, pode adiar a explosão, em vez de evitá-la. E ela pode retornar ainda pior, em outro momento, ressalta a filósofa Lúcia Helena. “Equilíbrio vem do latim aequus (igual) + libra (balança). Significa saber contrabalançar o peso das ocasiões, colocando ideias e argumentos de igual peso, mas de sentido contrário, no outro prato”.


Propósito


Lúcia diz que um bom exemplo disso é aquela pessoa que possui um propósito de vida humanista, altruísta, que aporta valor à natureza, ao outro e a si mesmo. Trata-se de um contrapeso de respeito. Para “desequilibrar” a balança de alguém assim, a vida necessitaria de momentos feitos de puro chumbo, que não são tão comuns. “Quanto maior o ‘lastro’ adquirido de boas razões para seguir caminhando, mais difícil é desequilibrar esse tipo de pessoa. Já os objetivos superficiais e fúteis são leves como uma pluma”.


Ambos – equanimidade e equilíbrio – são profundos e necessários. O equânime vê as coisas, de um patamar de consciência dificilmente atingível pelas circunstâncias. O equilibrado coleciona razões de peso para sempre se inclinar para frente.


A filósofa cita a obra O Caibalion, baseada nos princípios egípcios conhecidos como Leis Herméticas, para tentar ilustrar melhor isso. “O equânime aplica o princípio da neutralização da dualidade entre repulsão e atração, de um patamar de experiência, subindo um degrau de consciência. É como um pai que neutraliza a briga de duas crianças por um ursinho, porque cresceu e já não deseja ursinhos. A sua necessidade por essa experiência foi superada. Mas, se outro pai surge e desafia a sua autoridade para dar conselhos, ele pode polarizar nesse novo patamar”. Para Lúcia, é necessário estar sempre almejando um novo degrau de consciência, com mais maturidade e menos desejos, até o mítico dia em que alcançamos o ápice dessa pirâmide, a sabedoria, onde já não há dualidades a superar, pois tudo foi reconciliado.


Se isso é possível para nós, pobres mortais, não dá para ter certeza. No entanto, para a psicóloga Suzany Almeida, é certo dizer que o indivíduo que tem mais características ligadas à equanimidade consegue atingir mais facilmente a paz interior. O contrário também é verdadeiro: ou já se alcançou algum grau de paz interior, ou não se é equânime. “É necessário ter um grau de concentração e controle da mente, uma identidade bem clara e bem colocada na vida, a segurança de quem não se envergonha do seu dia de hoje. E ter a noção de que, se tivesse que morrer amanhã, lamentaria pelo tamanho do palco que lhe foi dado, mas saberia que, diante do que lhe foi oferecido, fez o seu melhor. Esse é o laboratório onde a equanimidade é fabricada”.


Maturidade


Suzany define o equânime como um ser maduro, menos afetado pela ansiedade. Esse homem ou essa mulher sabe que sua meta é uma referência de direção, no futuro, para que não se perca no caminho. Mas, como um dia a ser alcançado, está consciente de que será uma data semelhante a, por exemplo, o dia de hoje. “A vida é uma linha contínua formada por pontos, todos eles de igual valor. Ainda que, se trate de um idealista, o equânime sabe que o ideal humano é algo que só se alcança vivendo. Dias vazios e ansiosos só nos afastam dele”.


A psicóloga Suzany Almeida lembra que uma das condições para controlar dualidades e ansiedades e, assim, favorecer a equanimidade pode ser um diagnóstico sobre o investimento emocional em cada área da vida. Ela cita a ferramenta de autoconhecimento usada por muitos coaches chamada Roda da Vida. Trata-se de um recurso que serve para analisar problemas, elencar prioridades e traçar planos futuros para atingir melhor o equilíbrio em todos os setores. “Ela pode dar respostas importantes. Para se sentir realizado na vida pessoal e profissional é preciso se atentar a todos os setores da existência. Se um deles vai mal por ser negligenciado, é possível que o equilíbrio emocional não ocorra”.


Segundo Suzany, essa e outras ferramentas de autoconhecimento facilitam enxergarmos o panorama geral da situação atual de maneira gráfica e organizada. “Quando uma ou mais áreas da vida aparecem com um nível baixo de satisfação, é possível identificar o que deve ser trabalhado com mais prioridade, inclusive com o auxílio psicológico”.


Outro ponto muito importante para desenvolver a equanimidade e neutralizar as ansiedades é o mindfulness. Aliás, essa é outra palavra em alta hoje em dia entre os especialistas na psique humana. O termo pode ser traduzido como atenção plena no momento presente. Como alcançar esse nível? Para Lúcia Helena, é preciso aprender a amar a vida e saber como dialogar com ela.


“Procurar o mistério de cada dia ajuda a colocar nossas projeções no aqui e agora. Para quem vive apenas algumas dezenas de anos, um dia não é pouco, nem insignificante, mas radicalmente o contrário. Como dizia o filósofo Mircea Eliade, ‘o sagrado é a função de dar sentido’. Estar com corpo e mente juntos e aprender a sacralizar nossos momentos são antídotos poderosos contra a ansiedade e para alcançar a equanimidade”.


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