Enem: prova indispensável

Criado em 1998, o Enem foi se tornando uma ferramenta cada vez mais importante para o acesso às universidades do País

Por: Willian Guerra  -  14/11/21  -  13:43
 O Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) é hoje a principal forma de ingresso no Ensino Superior. Só que nem sempre foi assim.
O Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) é hoje a principal forma de ingresso no Ensino Superior. Só que nem sempre foi assim.   Foto: Adobe Stock/Reprodução

O Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) é hoje a principal forma de ingresso no Ensino Superior. Só que nem sempre foi assim. A prova precisou passar por uma série de ajustes ao longo do tempo até chegar ao formato aplicado atualmente.


Criado em 1998, no Governo Fernando Henrique Cardoso, o Enem tinha como único objetivo avaliar a educação básica brasileira, que compreende três etapas: Educação Infantil e ensinos Fundamental e Médio. E para que isso fosse possível, o então ministro da Educação, Paulo Renato Souza, reuniu um grupo de educadores, com a missão de elaborar o exame.


Nas discussões, descritas no documentário Enem 20 anos: Um Exame do Tamanho do Brasil, ex-presidentes do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep) contam que o objetivo era chegar a uma matriz, que consistia em agregar múltiplas disciplinas, divididas em 63 perguntas mais a Redação, para avaliar o conhecimento do estudante. Naquele ano, pouco menos de 200 mil adolescentes fizeram a prova, que, até então, servia como um grande treino para os vestibulares.


Foi nesse contexto que ocorreu a primeira divergência intelectual sobre o Enem. O documentário conta que parte dos conselheiros propôs que a Redação fosse argumentativa e com um tema vinculado ao conteúdo presente na prova. Por outro lado, o ministro Paulo Renato Souza queria um texto objetivo. A vitória foi dos conselheiros, que alegaram que a escrita argumentativa seria importante porque daria a oportunidade de o estudante refletir a respeito de determinado tema e tomar uma posição.


Mudanças à vista

Três anos depois, o Ministério da Educação (MEC) iniciou o processo de isenção da taxa de inscrição para alunos da rede pública. Com isso, o Enem foi crescendo e mais estudantes passaram a participar do exame. Em 2002, por exemplo, quase 2 milhões de brasileiros fizeram a prova. Também nessa época, algumas universidades começaram a usar a nota do Enem como complemento dos seus vestibulares – já que a pontuação no exame era somada ao desempenho no processo seletivo promovido pela faculdade, a nota final dos vestibulandos acabou registrando um aumento.


O Enem se tornou ainda mais forte no final dos anos 2000, com a criação do Programa Universidade para Todos (Prouni), do Fundo de Financiamento Estudantil (Fies), do Sistema de Seleção Unificada (Sisu) e a consequente possibilidade de usar a nota do Exame Nacional do Ensino Médio para ingressar em qualquer instituição de Ensino Superior do País. No governo de Luiz Inácio Lula da Silva, o então ministro da Educação, Fernando Haddad, deu início ao projeto que abriu as portas das universidades federais aos estudantes que tiraram boas notas no Enem.


Operação de guerra

Não demorou muito para o Governo Federal precisar fazer novas mudanças na matriz da prova. Com milhões de estudantes participando, o Enem ficou ainda mais rigoroso em 2009 e quatro testes diferentes foram preparados (mais a Redação). Todos com 180 questões, aplicadas em dois dias seguidos (sábado e domingo).


Ainda nesse ano, a Fundação Cesgranrio, instituição que até então era responsável por fabricar e imprimir todas as provas, deixou de ter parceria com o Ministério da Educação. Em seu lugar, assumiu outra empresa. Sem os mesmos dispositivos de proteção adotados pela Cesgranrio, a companhia cometeu falhas e questões do exame acabaram vazando.


Depois de quebrar esse contrato, o Governo Federal decidiu montar uma ampla estrutura para garantir a credibilidade e a segurança no processo de elaboração do Enem. Assim, polícias, forças armadas e os Correios ficaram responsáveis por fabricar e transportar as provas para todos os cantos do Brasil.


Ex-presidente do Inep, Maria Inês Fini esteve à frente do instituto nesse período – no qual também houve ampliação na abrangência do exame. Segundo ela, provas adaptadas para pessoas com deficiências físicas e psicológicas foram planejadas e, desde 2017, existe a videoprova em libras. Outro público beneficiado foi o de pessoas privadas da liberdade. A aplicação dos exames acontece depois do Enem regular.


Ainda em 2017, o MEC e o Inep decidiram estender o intervalo entre as provas. Por causa disso, os participantes deixaram de realizar o exame num único fim de semana e começaram a fazer o Enem em dois domingos.


E com o reconhecimento da qualidade da prova, universidades estrangeiras também passaram a considerar a nota do Enem como ferramenta de ingresso às suas turmas. Com essa mudança de status, o exame se tornou ainda mais desafiador, o que foi sentido principalmente pelos alunos do ensino público, como conta Josilene Brandão de Souza, estudante de Serviço Social da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) que participou da prova em quatro oportunidades. “É um exame feito para o aluno de escola pública não passar. Muitos dos conteúdos que caem nas perguntas não são dados no Ensino Médio de muitos colégios da rede pública de ensino”.


Acostumada com a dinâmica do Enem, a universitária recomenda que os estudantes que vão prestar o exame neste ano mantenham a calma ao máximo no grande dia. “Também é importante focar naquilo que você domina. Se o seu forte é a Redação, priorize isso. Outra dica é garantir nota em questões que considera fáceis”.


Totalmente digital

No ano passado, houve uma grande novidade no Exame Nacional do Ensino Médio. Como um reflexo da pandemia de covid-19, a prova começou a ser aplicada de forma digital, atendendo desse modo aproximadamente 96 mil pessoas. Com a expansão da internet em todos os cantos do Brasil, o Ministério da Educação prevê que o Enem seja 100% digital até 2026.


Agora em 2021, o exame acontece nos dias 21 e 28 de novembro. O primeiro domingo será reservado para Ciências Humanas (45 questões de Geografia, História, Filosofia e Sociologia) e Linguagens e Códigos (45 perguntas de Língua Portuguesa, Literatura e Língua Estrangeira), além da Redação. No segundo domingo é a vez das provas de Ciências da Natureza (45 questões de Biologia, Química e Física) e Matemática (45 perguntas).


Ao todo serão 3,1 milhões de participantes, menor número desde 2005 e menos da metade do auge do Enem, em 2014, quando 8,7 milhões de pessoas fizeram a prova. Para organizações ligadas à Educação, o baixo número é uma consequência da pandemia, que contribuiu para afastar muitos jovens das escolas.


Logo A Tribuna