Cake designer Rodolfo Goloso fala sobre ter clientes celebridades e reality da Netflix

Rodolfo foi campeão do novo reality show culinário da plataforma de streaming, "Cozinhando o Impossível"

Por: Stevens Standke  -  07/11/21  -  10:46
 Rodolfo tem celebridades como Sarah Jessica Parker e Hugh Jackman na sua lista de clientes
Rodolfo tem celebridades como Sarah Jessica Parker e Hugh Jackman na sua lista de clientes   Foto: Sasha Gitin/Divulgação

Em 2004, Rodolfo Goloso deixou a bem-sucedida carreira de programador em São Paulo para morar nos Estados Unidos. E em Nova York, o paulistano se reinventou, descobrindo habilidades que jamais imaginou ter, para a confeitaria. Dedicado, autodidata e muito curioso, conquistou aos poucos o seu espaço como cake designer, com celebridades como Hugh Jackman e Sarah Jessica Parker na sua lista de clientes. Agora, brilha mais uma vez, como campeão do novo reality show culinário da Netflix, Cozinhando o Impossível, no qual duplas – formadas por um confeiteiro e um engenheiro – devem a cada episódio criar um bolo mais louco do que o outro (o robô na capa de hoje é um exemplo disso). “O meu pai não trabalhava com cozinha, mas, quando eu era bebê, ele teve um restaurante em Santos, na Praia do José Menino”, conta o cake designer de 42 anos. A seguir, Rodolfo faz um balanço da vida nos EUA e fala dos planos daqui para frente.


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Como surgiu o convite para o Cozinhando o Impossível?


Recebi a proposta para fazer o programa no começo de 2020, mas, com a pandemia, tudo ficou parado. Em junho, a equipe da Netflix me ligou falando que ia produzir o reality show no segundo semestre. Como moro em Nova York, tive de viajar para a Califórnia e permanecer lá por quase dois meses, para gravar os episódios. Eu já havia participado de outras competições culinárias do canal Food Network, mas não dá para comparar com a grandeza que a Netflix pôs no projeto. Mesmo com a pandemia, quase 300 pessoas trabalharam por trás das câmeras, para viabilizar o Cozinhando o Impossível. Foi algo incrível, puxado e bem burocrático. A gente ficava trancado no quarto do hotel e saía apenas para gravar no estúdio. Fazíamos teste todo dia.


Competiu em quais programas do canal Food Network?


Participei do A Guerra dos Bolos em 2015 e 2016, mas ganhei apenas uma vez. Em 2018, venci um dos episódios do Winner Cake All. Os dois programas também eram sobre preparar bolos diferentes, e me trouxeram vários clientes. Fui chamado, por exemplo, para fazer bolos para casamentos. As atrações do Food Network ainda me aproximaram bastante das crianças e dos seus pais. Elas vinham à minha loja dizendo que queriam um bolo meu. Já o Cozinhando o Impossível, da Netflix, trouxe um retorno em escala global. Recebo mensagens do Vietnã, da Alemanha, França... E muitas do Brasil, principalmente do Amazonas, por ter usado cupuaçu no bolo que fiz para a final.


Há quanto tempo mora nos Estados Unidos?


Faz quase 18 anos que estou em Nova York. No Brasil, eu era programador do banco Itaú em São Paulo. Em 2003, me inscrevi no sorteio que acontece todo ano do green card e fui um dos sorteados. Me mudei em 2004 para os EUA. Como o meu inglês não era bom, não consegui um emprego na área da computação em Nova York. E quando o meu dinheiro começou a acabar, fui trabalhar enxugando pratos num restaurante. Pensava: “Larguei uma carreira no Brasil para secar louça?” Mas observando o chef preparar doces na cozinha percebi que gostava de confeitaria e descobri que levava jeito para isso.


Quando foi que você botou literalmente a mão na massa?


Em 2006, conheci a Patricia, que hoje é minha esposa e mãe do meu filho, Victor, de 10 anos. Ela era advogada no Brasil e estava nos EUA para fazer um intercâmbio, mas acabou ficando no país. Certo dia, estávamos assistindo ao Mais Você e a Ana Maria Braga promoveu uma competição de pão de mel. Por eu gostar muito desse doce, preparei alguns com a Patricia, utilizando a receita ganhadora. Como rendeu bastante, distribuímos para amigos, e o pessoal começou a pedir mais. Na sequência, vieram encomendas de docinhos para casamentos. A história chegou ao conhecimento da Ana Maria e a equipe do Mais Você fez reportagem sobre mim. Inclusive, a Ana Maria já me visitou em Nova York. Sou grato a ela.


Demorou para abrir a sua loja?


Por um período, eu e a Patricia ficamos assim: produzindo doces em casa, quando chegávamos do trabalho, para ajudar a pagar as contas. Tive emprego de todo tipo: fui garçom, bartender, limpador de flores para casamento, motorista... Em 2007, as competições de bolo ficaram famosas na TV americana. A minha esposa decidiu fazer um curso de decoração de bolos que custou US$ 20. Quando a Patricia mostrou o que havia preparado na aula, achei feio demais e ela me desafiou a fazer melhor. Confeitei um bolo do meu jeito, o que surpreendeu a Patricia. A partir desse momento, passei a aproveitar parte do dinheiro que ganhávamos com os doces para comprar livros, materiais e treinar o máximo que podia. Em 2010, venci a minha primeira competição culinária, de uma revista badalada de noivas. O meu bolo foi eleito um dos mais bonitos dos EUA e grandes noivas de Manhattan começaram a me procurar. Como a demanda cresceu bem, ficou complicado para dar conta de tantos pedidos, pois ainda fazia os bolos em casa. Consegui, então, uma sociedade para abrir a minha confeitaria em 2013 no West Village, bairro nobre de Nova York, onde moram vários artistas.


Tem clientes famosos?


Sim. Entre eles estão Brooke Shields, Liv Tyler, Hugh Jackman, Sarah Jessica Parker e Michael C. Hall. Eles são bem legais; paravam para conversar comigo na loja. Para alguns, fiz bolos artísticos. No entanto, a maioria era mais de frequentar a confeitaria no dia a dia, para pegar café, cookie, muffin. Ah, eles adoravam o pão de queijo. A repercussão da loja me levou a aparecer em matérias na televisão e nos programas do Food Network.


Como a pandemia impactou os seus negócios?


Em 2020, Nova York parou. Eu não conseguia vender nada. Como o contrato de locação do lugar onde a minha confeitaria funcionava estava perto do fim, decidi fechar o ponto físico e investir no modelo de negócio on-line, como muita gente estava fazendo. Montei uma loja virtual e entrego bolos mais tradicionais, não customizados, em qualquer local dos EUA, porque o correio funciona bem e utilizo uma embalagem que mantém os bolos, mesmo à base de musse, congelados por até três dias. Essa caixa tem folha de milho em vez isopor, já que, em breve, os Estados Unidos o banirão, em nome do meio ambiente. Outro fator que pesou para apostar na venda pela internet foi o convite para o programa da Netflix. Como eu esperava, o Cozinhando o Impossível vem impulsionando o meu negócio. Em paralelo à loja virtual, tenho um ateliê em Nova York, onde produzo os bolos artísticos, mais diferentes e complexos, para a clientela que construí na cidade. Afinal, não dá para enviá-los pelo correio. O único jeito é entregá-los pessoalmente.


O coronavírus está bem controlado em Nova York?


Sim, a cidade já está enchendo de novo. Mesmo assim, ainda sentimos falta de um número maior de turistas. A projeção é de que vai demorar mais um ano para Nova York voltar a ter a famosa muvuca. Diversos restaurantes estão funcionando com metade da sua capacidade, porque, como as pessoas estão voltando aos poucos às suas rotinas, falta gente para trabalhar nos locais. E como parte da população não tomou a vacina, quem se imuniza ganha US$ 100.


Costuma introduzir técnicas e ingredientes tipicamente brasileiros nos seus bolos?


Geralmente faço isso nos bolos customizados, quando o cliente se mostra aberto para isso. A loja no West Village me permitiu conhecer melhor o paladar do americano. Ao contrário do brasileiro, ele não curte sobremesas tão doces. Tanto é que o brigadeiro precisa ser meio-amargo. E curiosamente, o brigadeiro como docinho não caiu muito no gosto da minha clientela. Ele é mais aceito como recheio de bolo. Em compensação, o pessoal ama arroz-doce e musse de maracujá. O fato de eu ter usado cupuaçu na final do Cozinhando o Impossível deu o que falar. Recebo um monte de mensagens, inclusive de chefs, com perguntas sobre esse ingrediente. Em breve, adicionarei o cupuaçu no meu menu de bolos artísticos. Acredito que, em termos de sobremesa, o Brasil tem muito o que mostrar para o mundo inteiro. A minha mente é aberta para negócios e oportunidades, não fecho nenhuma porta. Meu sonho é conseguir mandar bolos para fora dos Estados Unidos. Ainda estou preparando um curso on-line de confeitaria, para ensinar as pessoas a fazer bolos e sobremesas.


Qual é o balanço que faz dos quase 18 anos em que mora nos EUA?


O americano costuma fazer a propaganda de que os Estados Unidos são o melhor lugar do mundo, onde você vai conseguir tudo. Realmente há muita coisa de se tirar o chapéu. Mas, quando você mora lá, vê que também existem problemas, dos tipos mais variados. Essa é uma diferença significativa que percebi entre o brasileiro e o americano. A gente, em vez de falar bem do Brasil e valorizar o que há de bom, fica divulgando só o que existe de ruim. Na minha opinião, o Brasil tem muita coisa boa para mostrar. A gente pode conquistar o mundo com nosso talento, com nossa criatividade e com nosso jeito carinhoso e bem-humorado.


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