Luciana Kirsten, Thaís Campregher, Vanessa Toledo, Lola Assaf, Deborah Cunha (Kangaroo Films) Que o trabalho ocupa uma boa parte da nossa vida, já sabemos, mas será que ele define quem somos? No Tricotáh desta semana, Vanessa Toledo e as tricoteiras Luciana Kirsten, Thaís Campregher e Débora Cunha receberam Lola Assaf, empresária e diretora de marketing e relacionamento da Alhambra Móveis, para uma conversa sincera sobre identidade profissional, vocação, talento, propósito e limites. Logo na abertura, Vanessa provocou: como equilibrar a mulher profissional com a mulher que sente, cuida, organiza e sonha? E, mais do que isso, será que esse equilíbrio perfeito existe mesmo ou é uma construção diária, cheia de ajustes? Quando a história pessoal encontra o trabalho A conversa começou com trajetória de Lola, que cresceu dentro do negócio da família, saiu da empresa por um período e depois retornou à Alhambra por causa da doença do pai e do desejo de honrar o legado dos pais. Hoje, ela fala do trabalho com brilho nos olhos: “É o legado dos meus pais, eu amo o que eu faço, faço com dedicação e orgulho”. Luciana relembrou que começou pela odontologia, mas sempre teve a nutrição como um chamado silencioso. A saúde se tornou um tema central em sua vida, especialmente após o falecimento do irmão, e acabou conduzindo cada escolha até o consultório de hoje. Débora compartilhou sua experiência em um negócio de sucessão familiar e conta como demorou para se sentir, de fato, dona daquele lugar. Entre escolhas que pareciam mais fáceis, frustrações e um “não engolido” que virou internação por amidalite, ela foi entendendo que também podia ser executiva, mas da própria empresa. Thaís é o exemplo de quem descobriu cedo: decidiu ser dentista aos 12 anos, e aos 7 já “arrancava dente de amiga” nas brincadeiras. Hoje, ela não se vê em outra área e diz não conseguir separar a Thaís profissional da Thaís pessoal: os valores são os mesmos dentro e fora do consultório. Dom, talento e vocação: o que nasce e o que se constrói Um dos momentos mais marcantes do programa é quando Luciana diferencia dom, talento e vocação: Dom é aquilo que nasce com a gente, o que fazemos com naturalidade (como a odontologia para Thaís). Talento é o que se desenvolve com estudo, repetição e prática e vocação é o que dá sentido a tudo isso: o propósito que conecta a nossa história com o nosso trabalho. Vanessa relembra a própria infância, em que tudo virava microfone antes mesmo de ela entender que trabalharia com comunicação. Escova de cabelo, dança em programas de TV, participações em outras produções… o caminho foi nebuloso por um tempo, até que o fio da comunicação ficou nítido. Entre idas e vindas, o grupo concorda: às vezes, é preciso passar por lugares que não têm nada a ver com a gente para descobrir onde realmente queremos (e podemos) ficar. O que é felicidade profissional, afinal? Na segunda parte do programa, Vanessa jogou a pergunta que muita gente se faz em silêncio: o que é felicidade profissional pra você? Thaís respondeu a partir da experiência no consultório e também como mãe. Ao contar a história da filha de 7 anos, que quis se vestir de manicure e maquiadora e “cobrou” das colegas com pedaço de bolo ou abraço, ela aproveita para falar sobre dinheiro e sentido: “Dinheiro é importante, mas mais importante é ser feliz no que você faz, porque a maior parte da vida adulta a gente passa trabalhando. Se você não for feliz trabalhando, não vai ter uma vida adulta feliz”. Para ela, felicidade profissional é se sentir realizada, ver o sorriso genuíno do paciente diante de um novo sorriso no espelho e perceber que o resultado do trabalho impacta diretamente na autoestima de quem está na cadeira. Lola define felicidade profissional como o lugar em que o tempo passa e ela nem percebe. Estar na loja, atender, ouvir histórias, montar projetos de mobiliário que se transformam em bem-estar dentro das casas dos clientes, tudo isso faz o dia terminar leve, mesmo com problemas para resolver. Débora, por outro lado, admite que ainda mistura muito as coisas. Ela se descreve como alguém “sem limites”, impulsiva e instintiva, que deixa o trabalho ocupar um espaço enorme na vida, às vezes, quase dominante. Mesmo assim, é muito feliz fazendo o que faz, tanto que não coloca hora pra acabar. O desafio, agora, é transformar essa percepção em prática: para ela, realização profissional virou meta ligada a limites: entender a hora que o trabalho começa, a hora que termina e garantir que ele não interfira em todo o resto. “Eu tô procurando… acho que tô no caminho”, resume. Luciana fala de uma “métrica” muito concreta: hoje, ela se vê exatamente onde gostaria de estar, ensinando pessoas a buscar vida e saúde, falando de corpo para além da estética, unindo clínica, palestras e o grupo de jejum com propósito. Cada mensagem de paciente agradecendo por voltar a ter equilíbrio, disposição ou algo tão simples (e tão fundamental) quanto conseguir ir ao banheiro todos os dias reforça essa plenitude profissional. Workaholics, pausas e a arte de desligar Lola Assaf, Deborah Cunha (Kangaroo Films) É possível desligar do trabalho? Para Thaís, que cresceu vendo o pai médico, obstetra, sem possibilidade de “fechar a porta”, delimitar é essencial. Hoje, ela organiza a agenda para trabalhar cerca de 25 horas por semana, coloca limites claros de entrada e saída do consultório e mantém como meta estar presente na infância da filha, sem deixar o pós-operatório desassistido, mas sem se anular. Possibilidades que a profissão dela permite. Lola conta que por muito tempo esteve disponível o tempo todo pelo celular, mas que hoje pratica uma “higiene digital”: desligar, não responder imediatamente e lembrar que móveis não são emergência médica. Ela aprendeu que descansar é requisito para estar inteira: para o cliente, para a equipe e para ela mesma. Débora admite a dificuldade em desligar da própria cabeça. Mais do que o celular ou o restaurante, o desafio é aquietar o “rolo compressor” interno. algo que ficou mais evidente depois da maternidade e, mais recentemente, após o diagnóstico de TDAH na vida adulta. Entre terapia, psiquiatra e muita honestidade consigo mesma, ela conta que está aprendendo a pausar, a delegar e a aceitar que não precisa ser a única a resolver tudo. Deixar outras pessoas fazerem, aceitar que não é insubstituível e descobrir, às vezes, que o outro faz até melhor. Nas palavras dela, foi “um tapa na cara” que tirou peso e abriu espaço para uma relação mais saudável com o trabalho. Luciana completa falando sobre autoconhecimento e cuidado consigo mesma. Ao perceber que se despriorizava, no corpo e na mente, ela reformulou sua rotina, manteve a atividade física como compromisso inegociável logo pela manhã e ajustou hábitos para sustentar a saúde que também ensina às pacientes. Entre linhas No quadro Entre Linhas, Vanessa traz perguntas rápidas, mas que abrem janelas interessantes. Já pensou em “jogar tudo pro alto” e fazer algo completamente diferente? Ela mesma confessa que, depois de gravar em um veleiro, decidiu que queria morar no mar por um instante. Lola sonha com um ano sabático viajando e conhecendo outras culturas. Luciana já cogitou montar clínica fora do país. Thaís e Débora falam sobre honrar o esforço, os estudos, os pais, as raízes que as trouxeram até aqui. No fim, não se trata exatamente de abandonar tudo, mas de reconhecer o tamanho do caminho percorrido e, quem sabe, abrir espaço para novos formatos de viver o mesmo propósito. Na pergunta “o que é mais difícil: lidar com o cliente, com o colaborador ou com a própria cabeça?”, a maioria concorda que o maior desafio é a mente: o jeito como a gente interpreta, cobra, se culpa e se exige. Thaís faz um recorte importante: em tempos de internet, modas estéticas e sorrisos “instagramáveis”, muitas vezes o desafio é alinhar a expectativa do paciente com um tratamento saudável e funcional, mesmo que isso contrarie o que ele “trouxe de referência”. Como se não bastasse equilibrar vocação, trabalho e vida pessoal, ainda existe um elemento extra: as opiniões não solicitadas. Aqueles comentários sobre “estar trabalhando demais”, “aparecendo demais”, “postando de menos” feitos, quase sempre, sem convite. Cada uma lida de um jeito. Thaís confessa que, num primeiro momento, escuta e repensa, mas depois de alguns dias pode ficar chateada. Débora admite que reage, que se defende e que só recentemente percebeu o quanto isso mexia com ela. Lola diz que aprendeu a filtrar: absorve o que é pertinente, descarta o que é projeção do outro. E Luciana resume bem: ela escolhe de quem aceita opinião e o resto, agradece com educação e segue. Pra guardar na caixinha No fim das contas, o que o episódio mostrou é que nenhuma trajetória é reta e que tudo o que vivemos, antes e agora, costura o que entregamos ao mundo. O trabalho nos molda, claro. Mas somos nós que damos sentido ao que fazemos. Entre dons que nascem com a gente, talentos que se constroem, vocações que demoram a aparecer e limites que insistem em ser ultrapassados, fica um lembrete simples: a vida profissional não é sobre acertar sempre, e sim sobre se reconhecer no caminho. Que cada uma encontre o seu ritmo, o seu propósito e o seu próprio jeito de equilibrar quem é com o que faz! Sem pressa, sem comparações, sem culpa. Porque, no final, é isso que transforma trabalho em história. E história em sentido. Luciana Kirsten, Thaís Campregher, Vanessa Toledo, Lola Assaf, Deborah Cunha (Kangaroo Films)