Roseli Andrade, Luciana Kirsten, Vanessa Toledo, Christine Marote, Paula Malta (Kangaroo Films)) A santista Christine Marote viveu 16 anos na China, hoje mora em Portugal e transformou a mudança em blog, livro e propósito. No Tricotáh, ela abriu o coração sobre respeito cultural, “perrengues chiques”, maternidade em trânsito e o poder de recomeçar em qualquer idade. Em um episódio que atravessou mapas e certezas, Vanessa Toledo recebeu Chris Marote ao lado das tricoteiras Dra. Roseli Andrade, Paula Malta e Dra. Luciana Kirsten. A conversa partiu de um gesto simples: quantos beijos se dá ao cumprimentar? E desembocou no essencial: cultura é respeito. Do Brasil caloroso à etiqueta contida da China, Cris aprendeu a ler códigos invisíveis e, nessa leitura, reencontrou a própria história. Beijos, abraços e recomeços: do perrengue ao pertencimento Na China, beijo de cumprimento não é costume. Para um povo acolhedor como o brasileiro, reaprender o corpo é o primeiro desafio: reduzir o toque, escutar silêncios, observar distâncias. “Quando a gente cruza fronteiras, é hóspede”, lembrou Chris. O que parece “falta de educação” é, muitas vezes, outro padrão de educação. Mudar o olhar é a senha para pertencer. Tudo começou em 2004, por trabalho do marido. Os três meses planejados viraram dezesseis anos de vida nova. No início, inglês básico, mandarim zero, cardápios sem fotos e mímicas como idioma universal. “Foi desafiador, e foi a melhor fase”. A licença no funcionalismo virou exoneração, e quando percebeu, a nova vida já tinha endereço, rotina e amigos. Christine Marote (Kangaroo Films) Um blog, um livro e um propósito A pergunta que não calava: “o que você come na China?” virou e-mails, depois blog (chinanaminhavida.com) e, em 2017, o livro China na minha vida — o que aprendi com o dragão. Para sustentar o conteúdo, Chris fez um MBA sobre cultura chinesa e passou a orientar famílias e profissionais rumo à China: do uso de VPN às sutilezas do convívio diário. O hobby ganhou propósito e voz e se tornou ponte entre mundos. Entre tradição e tecnologia A China que Chris conheceu “sem internet” é a mesma em que hoje se paga com a palma da mão. Tecnologia de ponta convive com hábitos milenares: água quente para preservar as vísceras, siestas instantâneas quando o corpo pede, e mesas redondas e compartilhadas, onde o “ovo de 100 anos” passa girando em meio a risadas. No meio disso tudo, surge o aprendizado: respeitar o que é diferente é um gesto de amor e evolução. O que fica quando a gente vai Hoje vivendo em Portugal, Cris reconhece que cada país ensina algo novo sobre si. “Não dá pra levar o Brasil na mala”, diz. Há outros ritmos, outras regras, mas o mesmo valor essencial: respeito. Além de consultorias culturais, ela agora ajuda viajantes a planejar roteiros possíveis, lembrando que o mundo não cabe inteiro em uma viagem e que as melhores experiências são as que se vive devagar. Ao lembrar da maternidade em trânsito, Cris se emocionou. Os filhos cresceram entre idiomas, culturas e saudades. Foram crises, trocas de escolas e reencontros. “Mesmo do outro lado do mundo, quem é meu continua comigo”, diz. Depois de vinte anos fora do Brasil, ela se define com serenidade: “Sou estrangeira em qualquer lugar, mas minhas raízes estão em mim.” Entre mundos, mas um só coração O episódio deixou uma mensagem que vai além dos mapas: recomeçar é um verbo que não tem fronteira. Não importa se é na China, em Portugal ou dentro de nós: o movimento de partir e voltar é o que nos ensina a amar o que é essencial. Afinal, pertencer talvez nunca tenha sido sobre lugar, e sim sobre coragem de continuar descobrindo o mundo, e a si mesma, com o coração aberto. Roseli Andrade, Luciana Kirsten, Vanessa Toledo, Christine Marote, Paula Malta (Kangaroo Films)