Selo Climático da Anatel para setor de telecomunicações cria índice que classifica e incentiva iniciativas no setor (FreePik) O projeto do Selo Climático ESG Anatel é considerado um marco importante para o setor de telecomunicações, segundo a cientista social e política com especializações em ESG, Camila Diniz. A iniciativa é fruto da colaboração entre a Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) e o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), com o objetivo de criar um índice que classifique e incentive boas práticas de sustentabilidade ambiental, social e de governança entre as prestadoras. “Ele cria um padrão regulatório voluntário que, com o tempo, pode se tornar uma exigência obrigatória. O projeto sinaliza o alinhamento do Brasil com as tendências globais de combate às mudanças climáticas e o fortalecimento das práticas de governança corporativa, mostrando que o setor de Tecnologias da Informação e Comunicação (TIC) não pode mais ficar à margem dessa transformação”, observa. Diferencial Competitivo para as Operadoras O selo ESG é importante para as teles porque funciona como um diferencial competitivo relevante, reforçando a imagem de responsabilidade social e ambiental no mercado, analisa a especialista. “Mais do que um reconhecimento, ele fortalece a reputação das empresas diante da sociedade, dos investidores e também abre portas em processos de licitação, como os futuros leilões de faixas de frequência, onde critérios de sustentabilidade tendem a ganhar ainda mais peso. Para os clientes, o selo é uma ferramenta de transparência que facilita escolhas mais conscientes, permitindo que eles priorizem empresas que compartilham dos mesmos valores voltados à sustentabilidade”, argumenta. Detalhes do Processo de Avaliação A avaliação da Anatel será feita com base em estudos de benchmarking internacional (ferramenta de análise de mercado que compara o seu negócio com outras empresas concorrentes), na coleta de informações diretamente com o setor por meio da Consulta Colaborativa. Análise de indicadores, como o consumo de energia, a eficiência dos data centers e a gestão do ciclo de vida dos produtos e resíduos eletrônicos, está incluída. O processo de coleta de informações junto às operadoras recebeu contribuições até 22 de abril. “Essa etapa foi fundamental para o diagnóstico que a agência está preparando, ajudando a definir parâmetros mais claros e eficazes para a implementação do Selo ESG. Ao envolver não só as operadoras, mas também os fabricantes de equipamentos, os operadores de data centers e outros atores da cadeia produtiva, a Anatel está dando um passo importante para construir um ecossistema sustentável e colaborativo no setor”, explica a especialista. O Impacto do Selo e Desafios a Superar A abordagem integrada destaca a necessidade de serem pensadas soluções de impacto coletivo e de longo prazo, segundo Camila. “Iniciativas como essa não só elevam as exigências do setor, mas também abrem novas oportunidades para quem entende que sustentabilidade e competitividade caminham juntas. O momento é de adaptação, mas também de construção. O selo ESG pode ser um importante catalisador para essa mudança, que já está em curso, e pode abrir caminhos para o futuro do ESG, ampliando suas possibilidades e impacto no setor de telecomunicações e além”, emenda. Algumas grandes operadoras já tomaram medidas antecipadas e possuem práticas ESG mais consolidadas, principalmente em termos de eficiência energética e controle de emissões, observa a cientista social e política com especializações em ESG Camila Diniz. “No entanto, ainda existem áreas que demandam mais atenção, como a atualização tecnológica constante dos equipamentos, o fortalecimento da integração com fornecedores para garantir práticas sustentáveis em toda a cadeia de produção, e o investimento em data centers menores e descentralizados, que, além de mais eficientes, contribuem para a resiliência climática”, afirma. Importância da Gestão do Ciclo de Vida dos Produtos Também é fundamental, na visão da especialista, que as teles avancem na gestão do ciclo de vida dos produtos, planejando desde a concepção até o descarte final, e implementem estratégias mais robustas para o tratamento do lixo eletrônico, um desafio ainda grande para o setor. “Outro ponto que precisa ser incorporado com mais força é o estímulo ao uso de fontes de energia renovável, ampliando o compromisso com a redução dos impactos ambientais. A preocupação com o impacto das operações de cloud computing (computação em nuvem) e o uso consciente dos recursos orbitais também começa a ganhar espaço. Deve ser tema prioritário na construção de uma agenda ESG cada vez mais sólida para as empresas de telecomunicações”, lembra. Desafios para Prestadoras de Pequeno Porte Camila também deixa claro que as prestadoras de pequeno porte encontram mais dificuldades para atender a todos esses novos critérios. “Isso evidencia uma lacuna que precisará ser trabalhada com atenção para garantir que a transição sustentável seja, de fato, coletiva e não deixe ninguém para trás nesse movimento que a Anatel vem impulsionando”. Apesar de a criação do selo ESG ser um avanço relevante, ainda existem pontos que podem ser aprimorados na avaliação conduzida pela Anatel, segundo a cientista social e política com especializações em ESG Camila Diniz. “Isso começa pela necessidade de um acompanhamento mais aprofundado da cadeia produtiva, de forma que as teles comprovem não só as suas próprias práticas de sustentabilidade, mas também as iniciativas adotadas por seus fornecedores”, afirma. Necessidade de Transparência e Auditorias Externas Além disso, seria fundamental, segundo a especialista, exigir uma transparência ainda maior na comunicação sobre as fontes de energia utilizadas e nos impactos ambientais dos produtos e serviços oferecidos. “Isso fortalece também a adoção de métricas de eficiência energética, como o índice PUE (Power Usage Effectiveness - é uma métrica usada para medir a eficiência energética de data centers) que, embora conhecido, ainda é pouco utilizado no setor”, explica. Outro ponto que merece atenção, de acordo com Camila, é a definição de critérios mais claros e rigorosos para a gestão do lixo eletrônico, com incentivos práticos para estimular ações concretas de economia circular, garantindo um compromisso que vá além da teoria. Importância das Auditorias para a Credibilidade do Selo “Para dar ainda mais força e credibilidade ao selo, a realização de auditorias externas e periódicas se torna essencial, prevenindo riscos de greenwashing (quando uma organização implementa estratégias e propagandas enganosas sobre suas práticas ambientais), e assegurando que os compromissos ESG estejam, de fato, integrados às operações das empresas”, finaliza.