"O pilar social da agenda ESG é o nosso calcanhar de Aquiles", afirma Rosana Jatobá (Alexsander Ferraz/AT) A jornalista, escritora e palestrante Rosana Jatobá é mestre em Gestão e Tecnologias Ambientais pela Universidade de São Paulo (USP) e faz da sua atuação junto à sustentabilidade uma razão de viver. Aos 54 anos, usa sua expertise lidando com o tema como impulso transformador. Na última segunda-feira, ela participou da abertura oficial do ColaBora Mundo, evento que reúne empresas, universidades, startups e poder público, e que termina nesta quarta (29), no Parque Valongo (confira a programação no site). Antes da apresentação, ela conversou com A Tribuna. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! Qual o caminho para um grau de adesão à Agenda ESG de forma plena, não apenas aparente? É uma reinvenção, em que as estruturas colapsam e dão lugar a uma nova forma de existir. Há três critérios que os especialistas defendem, que estão dentro desse âmbito do greenwashing, da aparência verde. As empresas que querem surfar a onda verde não estão de fato comprometidas com o ESG. O primeiro deles se chama coerência, sobre a trajetória de sustentabilidade. O segundo critério é a relevância. E o terceiro é a materialidade. Fazer uma análise do que é material, do que é essencial para a empresa, e atacar esses pontos. Quando a gente fala de empresa, vai das grandes corporações aos pequenos comércios. Como fazer esses dois segmentos falarem a mesma língua? Uma das coisas mais difíceis é colocar todos na mesma página. Hoje, no Brasil, as grandes companhias, com ações na bolsa, são de fato as mais alinhadas, porque têm capital para investir, departamento de inovação e tecnologia, e estão nessa jornada influenciadas pelos grandes players das cadeias globais. As empresas pequenas e de médio portes têm um suporte importante no nosso País, do Sebrae, que vem lhes dando robustez e musculatura. Cabe às grandes empresas, quando dependerem dessas menores, criar essas facilidades de capacitação, de treinamento. Médias e pequenas empresas podem se adequar com algumas medidas, começando, por exemplo, com a economia de água, buscando eficiência energética. Qual é o grande desafio hoje a esses preceitos do ESG? Onde estamos mais atrasados? No Brasil, o pilar social da agenda ESG é o nosso calcanhar de Aquiles. Somos uma grande meca de energia renovável, com forte biodiversidade e grande capacidade de reflorestamento. Temos condições de ser líderes da agenda verde. Mas no pilar social há um passivo histórico a ser resolvido. Quando a gente trata, por exemplo, da questão da equidade de gênero, as mulheres são muito bem representadas na base da pirâmide corporativa, mas quando vai ascendendo até chegar nos conselhos, essa representatividade diminui. Embora as mulheres sejam 24% mais escolarizadas do que os homens, ainda ganham 30% menos. Outra questão é étnico-racial: um país em que 56% da população se declara preta ou parda, mas a representatividade nas companhias é muito pequena – apenas 4,8% das vagas do conselho são para pessoas negras. No recorte da interseccionalidade, ou seja, da mulher que é negra e lésbica, o funil é ainda maior. Também tem a governança. Temos um histórico de corrupção, tanto no setor público quanto nas empresas. Então, é criar uma nova cultura de ética, de lisura nos negócios, colocando a transparência como o cerne da questão. O que o Brasil precisa fazer para não perder o bonde da história que é a COP30? Hoje, o exercício da diplomacia é muito importante, porque nos cabe agora na COP30 sermos a Conferência da Implementação, de tudo que foi discutido nas outras. Quando agora os negociadores se debruçam sobre essa questão de convencer os países a aumentar sua ambição climática, cortar drasticamente as emissões de gases de efeito estufa e também assumir um compromisso de ir gradualmente abandonando os combustíveis fósseis, acho que não precisamos ficar discutindo o que precisa ser feito, porque sabemos já o que é necessário. É, de fato, implementar compromissos sérios. Assim, o trabalho de diplomacia, de convencimento, de soft power que o Brasil tem, precisa entrar firme para garantir algum avanço. Se você voltar a Santos daqui a 10 anos, por exemplo, o que espera que seja falado sobre ESG? Espero que seja uma pauta incorporada pelas instituições, e que não se precise nem explicar o que seja. Sou muito otimista, sobretudo por causa das novas gerações. A Z, que está chegando, já vem com o DNA da sustentabilidade, exigindo das empresas e dos governos uma responsabilidade maior sobre cuidar do planeta e das pessoas.