Empresas deverão incluir informações sobre práticas ESG na contabilidade, o que garante maior transparência (Adobe Stock) O anúncio da adoção de práticas de ESG apenas para “entrar na moda” ou “agradar” o mercado deve deixar de acontecer. Pelo menos é o que se espera após medida com base nas normas do ISSB (International Sustainability Standards Board) para desenvolver e estabelecer padrões globais de divulgação de informações de sustentabilidade. A partir de 2027, as empresas terão que reportar dados de sustentabilidade com o mesmo cuidado das demonstrações financeiras. Clique aqui para seguir o canal de A Tribuna no WhatsApp! “Ao definir como as informações devem ser reportadas, com garantia externa, sugere um acompanhamento estruturado das ações que serão reportadas e também um sistema que integra riscos e oportunidades de sustentabilidade ao negócio”, afirma a especialista em ESG e Sustentabilidade Corporativa Luciana Carpinelli. Segundo ela, é comum ver empresas criando metas ESG apenas para seguir o que outras estão fazendo, como dizer que serão “net zero” (zerar as emissões de carbono) até 2030 ou que querem ter 50% de mulheres na liderança. Mas, muitas vezes, isso fica só no discurso. “Não há orçamento, planejamento nem ações concretas para fazer isso acontecer”. As normas IFRS (normas internacionais de relato financeiro, em português) S1 e S2 fazem parte desse novo conjunto de regras internacionais. A primeira estabelece como as empresas devem divulgar riscos e oportunidades relacionados à sustentabilidade que podem afetar seus negócios. Já a segunda fala sobre riscos e oportunidades climáticas, como emissões de carbono, metas de redução e impacto das mudanças climáticas no negócio. Também exige o uso de métricas e dados padronizados, como: emissões de gases do efeito estufa; planos de transição climática e análises de cenários. A Resolução 193 da Comissão de Valores Mobiliários (CVM) vai incorporar as duas normas à regulação das companhias abertas. “É uma ótima forma de inverter a lógica dos relatórios: não reportar no fim do processo o que deu certo, mas começar a pensar as iniciativas já prevendo uma estrutura sólida e bem estruturada que permita o reporte conforme”, argumenta. VANTAGEM E DESAFIOS Para a líder da prática de Sustentabilidade da Accenture para América Latina, Patrícia Feliciano, a sustentabilidade deixa de ser um apêndice voluntário e passa a compor o centro dos relatórios financeiros, exigindo transparência, rastreabilidade e auditabilidade das informações ESG. “Empresas consolidadas tendem a apresentar menor custo de capital, maior resiliência e vantagem competitiva”. As mudanças, segundo ela, impõem alguns desafios, como apuro na capacitação técnica, qualidade e origem dos dados e uma matriz de materialidade. “Profissionais da contabilidade serão responsáveis por garantir a confiabilidade e consistência dos dados reportados. Além disso, atuarão como ponte entre áreas técnicas e estratégicas, traduzindo riscos ESG em impactos financeiros mensuráveis”, diz Patrícia. GREENWASHING Luciana acredita que, a partir da adoção obrigatória das normas, a práticas do chamado greenwashing (lavagem verde, em português) — estratégia de marketing comum e ilusória na qual empresas promovem seus produtos como ambientalmente responsáveis sem cumprir os critérios reais de sustentabilidade — vão diminuir. De acordo com o Ministério da Justiça e Segurança Pública, essa estratégia pode induzir o consumidor ao erro e caracteriza publicidade enganosa, proibida pelo Artigo 37 do Código de Defesa do Consumidor (CDC). “Não dá mais para prometer ou comunicar intenções que não sejam de fato baseadas em estudos aprofundados e ações implementadas. Não dá mais para prometer sem nem ter ideia dos passos que serão necessários para chegar até lá, de quais riscos terão que ser mitigados ou enfrentados”, complementa a especialista.