Inteligência artificial é avanço ou bloqueio intelectual? Entenda mais do assunto

Na era do ChatGPT, criado para 'imitar' a capacidade humana de raciocinar, as instituições de ensino têm novos desafios

Por: ATribuna.com.br  -  12/11/23  -  17:45
Jovens das gerações Z e Alfa podem estar condicionando o cérebro a economizar energia, por meio de ferramentas capazes de resolver uma demanda escolar
Jovens das gerações Z e Alfa podem estar condicionando o cérebro a economizar energia, por meio de ferramentas capazes de resolver uma demanda escolar   Foto: FreePik

Da enciclopédia para o Google e, agora, para a inteligência artificial (IA). Enquanto as pessoas nascidas antes dos anos 2000 foram acostumadas a frequentar bibliotecas ou comprar coleções de livros para ajudar nas pesquisas acadêmicas, jovens das gerações Z e Alfa podem estar condicionando o cérebro a economizar energia, por meio de ferramentas que, em apenas um clique, são capazes de resolver uma demanda escolar. Na era do ChatGPT, tecnologia criada para “imitar” a capacidade humana de raciocinar, as instituições de ensino têm novos desafios: evitar o comprometimento da interação entre os indivíduos e da personalização da educação, ao mesmo tempo em que impedem a IA de se tornar um beco sem saída para o desenvolvimento intelectual dos estudantes.


E não é apenas no ambiente escolar que a IA traz dúvidas e receios. Na última pesquisa global de mercado de trabalho realizada anualmente pela empresa de consultoria PwC, quase um terço dos participantes demonstrou preocupação com a possibilidade de que a sua função seja substituída pela tecnologia em apenas três anos. Além disso, em março, o banco de investimentos Goldman Sachs publicou um relatório demonstrando que a IA pode substituir o equivalente a 300 milhões de empregos em tempo integral. Por outro lado, as estatísticas deixam claro que as ferramentas prometem alavancar os negócios.


Uma pesquisa da consultoria FrontierView, encomendada pela Microsoft, aponta que a IA pode contribuir para um crescimento de 4,2% do PIB brasileiro até 2030. O setor de inteligência artificial deve ser avaliado em U$ 93 bilhões este ano, cerca de 12% a mais do que no ano anterior, conforme previsões do GlobalData.


Perspectivas
Mas como fica o impacto na produtividade e no raciocínio daqueles que ainda estão em processo de formação, desenvolvendo habilidades cognitivas?


De acordo com o terapeuta, professor, antropólogo e escritor Darrell Champlin, o entendimento de que a inteligência artificial é algo positivo ou um risco para o aprendizado varia de acordo com diferentes perspectivas. Para ele, a IA pode ser uma ferramenta valiosa para melhorar a eficiência da educação e proporcionar recursos de aprendizado personalizados.


“Ela ajuda muito a automatizar tarefas repetitivas, oferecer assistência personalizada aos alunos e até a facilitar o acesso a recursos educacionais de alta qualidade. Por outro lado, me preocupa o uso da IA na educação porque ela pode criar dependência excessiva desse tipo de inteligência e certamente levar à perda de habilidades, como a capacidade de pensamento crítico e resolução de problemas. Pode causar até um declínio na capacidade cognitiva”.


Champlin, antes do surgimento da IA, quando apenas o Google era o protagonista, parou de solicitar diversos tipos de trabalho devido ao alto grau de corta/cola de textos. “Agora, com a IA generativa, que escreve melhor até do que a maioria dos escritores profissionais, isso se torna uma barreira formidável ao desenvolvimento intelectual. Outra questão é a equidade no acesso à educação, já que há acesso desigual à tecnologia”.


IMpacto
Quando se trata do prejuízo e da possível falta de interesse dos alunos, a professora, consultora e diretora de Inovação na MultiRio, Débora Garofalo, afirma que a IA pode ter um impacto na busca por informações pelos estudantes, mas não necessariamente diminuirá o entusiasmo deles, pois a busca por conhecimento vai além de obter respostas prontas.


“A curiosidade e o desejo de aprender são características intrínsecas dos estudantes, e a IA pode ser uma ferramenta que os ajuda a explorar e aprofundar seus interesses ao fornecer recursos adicionais, diferentes perspectivas e insights que podem despertar ainda mais a curiosidade deles”, disse a especialista, considerada uma 10 melhores professoras do mundo pelo Global Teacher Prize, Nobel da Educação.


Incentivo
No entanto, ela reitera que é fundamental as escolas incentivarem os alunos desenvolverem habilidades de pesquisa, criatividade e pensamento crítico, para poderem avaliar e analisar as informações obtidas por meio da IA. Agora, se não houver esse direcionamento, a IA pode representar um beco sem saída no desenvolvimento intelectual, acredita Champlin, ao analisar a capacidade dos jovens de filtrar o material obtido em buscas na internet.


“Muitos estudantes simplesmente inserem a questão a ser pesquisada na plataforma, copiam e colam os resultados e sequer leem o que é produzido. Ainda que frequentemente o texto possa estar correto em termos de informação, a pessoa não sabe julgar os resultados. Se professores perspicazes souberem lidar com isso, pode haver um ‘caminho do meio’ interessante”.


Equilíbrio nas escolas
Diante desse cenário, as escolas vão precisar analisar os pontos positivos e negativos da IA, encontrando um equilíbrio e preparando os professores para essa nova jornada. Conforme enfatizou Débora, a IA pode ser utilizada pelas escolas de diversas maneiras, como na criação de plataformas de ensino personalizadas, no auxílio à avaliação de desempenho dos estudantes e na identificação de áreas em que os estudantes precisam de mais apoio, assim como na personalização do ensino, principalmente aos estudantes com deficiência.


“As escolas devem lidar com a inteligência artificial de forma consciente, estratégica e com intencionalidade pedagógica, considerando tanto os pontos positivos quanto os pontos de alerta, em que esses precisam ser trabalhados no dia a dia da sala de aula”, ressaltou a professora, que foi corroborada pelo antropólogo.


Champlin pondera que as instituições podem aproveitar os benefícios da IA na educação, se fizerem isso de maneira ética, equitativa e cuidadosa, sempre priorizando o desenvolvimento dos alunos e o aprimoramento do processo de aprendizagem.


“É evidente que para incorporar a IA, professores precisam ser treinados nos diferentes aspectos do uso desse recurso e a IA deve ser incorporada de modo estratégico no currículo, como no uso de assistentes virtuais, sistemas de aprendizado adaptativo e para aprimorar o ensino de disciplinas básicas e até desenvolver a personalização da aprendizagem. Os alunos precisariam receber ensinamento de pensamento crítico sobre a própria IA”.


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