Educação Infantil: tarefa é bem mais do que brincar, é formar cidadãos

Nos primeiros anos da vida escolar que se desenvolvem habilidades e há estímulos para as próximas etapas do processo

Por: ATribuna.com.br  -  12/11/23  -  10:34
Para as crianças, é o período do “faz de conta”. Para os pais, o momento de começar a entender que os filhos foram criados para o mundo
Para as crianças, é o período do “faz de conta”. Para os pais, o momento de começar a entender que os filhos foram criados para o mundo   Foto: Rogério Soares/Arquivo AT

Quem não lembra da primeira professora ou não tem no álbum de fotos aquela imagem do início da vida escolar? Ou, ainda, como não lembrar dos amigos feitos na época mais colorida das nossas vidas, onde o ambiente era lúdico e a nossa principal obrigação era brincar? Se essas perguntas te remeteram às memórias das escolas por onde passou e às amizades, provavelmente você viveu a Educação Infantil como prevê a Base Nacional Comum Curricular (BNCC), do Ministério da Educação, que indica seis direitos de aprendizagem nessa fase: conviver, brincar, participar, explorar, expressar e se conhecer.


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Para as crianças, é o período do “faz de conta”. Para os pais, o momento de começar a entender que os filhos foram criados para o mundo. A escolha do ambiente adequado costuma ser desafiadora para as famílias, que buscam nas instituições uma extensão das suas casas. Acolhimento, rotina, número de crianças em sala de aula, atividades de desenvolvimento, refeições adequadas, entre muitos outros requisitos. Enfim, são inúmeras e longas as visitas até a escolha do que é considerado “perfeito”.


Mas, o que seria, na prática, o ideal? “Estudos indicam que quanto melhor a qualidade da Educação Infantil ofertada para a criança, melhor será a evolução dela ao longo da escolaridade”, destacou a diretora-executiva da Associação Nova Escola, Ana Ligia Scachetti. Nesse sentido, ela aponta que, em termos pedagógicos, a BNCC da Educação Infantil é o principal guia, listando todos os objetivos de desenvolvimento e aprendizagem necessários ao longo dessa etapa da vida escolar da criança.


Além disso, menciona Ana, para que eles ocorram com qualidade, é importante uma estrutura adequada e professores com formação, acompanhamento, tempo de planejamento e materiais para planejar e realizar as experiências capazes de contribuir com o progresso dos pequenos.


“A Educação Infantil é estruturante na base da formação da personalidade, assim como no desenvolvimento psicossocial e cognitivo, por isso vejo como fundamental procurar instituições com bom espaço, área verde e com sol, que não sejam confinados. Isso falando de estrutura física, mas também é essencial que os pais saibam qual a proposta pedagógica da escola”, observou a escritora do livro Orientação Pedagógica em Creche: Potencialidades e Desafios, Izilda Barbosa Guimarães.


Diante desse cenário, Izilda menciona e exemplifica atividades balizadas pelo BNCC e que podem ser aplicadas na Educação Infantil. A especialista destaca os cinco campos conceituais de experiências da base nacional: “o eu, o outro e o nós”, “corpo, gestos e movimentos”, “traços, sons, cores e formas”, “oralidade e escrita” e “espaço, tempos, quantidades, relações e transformações”.


É neste momento que as crianças costumam voltar para casa sujas de tinta, com um novo repertório musical, descobrindo as partes do corpo e até as mudanças climáticas. “As crianças aprendem brincando”, disse Izilda. E para que esse aprendizado seja completo, é interessante a parceria entre os cuidadores e a instituição escolhida, concordam as especialistas.


“O trabalho deve ser feito em sinergia junto à família, com a escola se comunicando constantemente, compartilhando o que está sendo feito e até sugerindo o que pode ser realizado em casa para colaborar com esses temas. A escola e a família são complementares em todas as fases, mas na Educação Infantil esta relação é ainda mais forte. É indicado que os pais visitem a escola, conversem com a equipe e entendam se a linha de educação condiz com o que estão buscando”, disse Ana Ligia.


Corpo e mente preparados
No Colégio Carmo, que fica na Ponta da Praia, em Santos, onde o “Carminho” abriga a Educação Infantil, a proposta pedagógica tem como eixo principal ampliar o universo de experiências, conhecimentos e habilidades das crianças, diversificando e consolidando novas aprendizagens. Segundo a coordenadora pedagógica da Educação Infantil, Denise Ferrauche Smolka, brincadeiras livres e dirigidas fazem com que a criança prepare seu corpo e mente para decifrar o mundo à sua frente, abrindo caminho para a alfabetização.


“Brincadeiras sensoriais, jogos de memória, jogos de tabuleiros, pular corda, corre-cotia e muitas outras são preparatórios para a prontidão para a alfabetização. Não é só pegar o lápis corretamente e escrever, o corpo e a mente devem estar estimulados para entender esse novo mundo da linguagem escrita que está se abrindo. Uma alfabetização bem feita, com leitura e interpretação, é sucesso para vida toda”, enfatizou a professora.


Os espaços ao ar livre são outro diferencial, pois neles as crianças socializam, criam laços de amizade, brincam, exploram a areia e se sentem livres para correr e pular, exercendo a criatividade do brincar livre. No brincar direcionado, os pequenos desfrutam do túnel, de pular corda, corre-cotia, coelhinho sai da toca.


“Na fase da Educação Infantil, que vai até 6 anos, a cada segundo, o cérebro humano, um sistema aberto e plástico, faz novas conexões e novos aprendizados. Para um bebê, pegar um brinquedo que está a uma certa distância, é um desafio a ser cumprido. Já para uma criança de 5-6 anos, escrever o seu nome é uma conquista. É o período mais importante na formação do ser humano, por isso o cuidado com a escolha da proposta pedagógica é fundamental”, completou Denise.


Criatividade e lazer
Segundo a diretora da Nova Escola, Ana Ligia Scachetti, na Educação Infantil as brincadeiras são essenciais, porque por meio delas a criança aprende a conviver e a estar no mundo. Elas abrem espaço para a expressão da criatividade, a socialização, a ampliação das referências e outras inúmeras oportunidades de desenvolvimento. Além disso, reitera Ana Ligia, nesse período a criança tem acesso a experiências que colaboram com os anos seguintes na escola.


“Se a criança tem a oportunidade de manusear livros e de ter um professor que faz leituras de qualidade, ela vai adquirindo comportamentos leitores, que vão colaborar com a fase de alfabetização dela. Se a criança tem atividades em que reflete sobre higiene pessoal na escola, ela está aprendendo a cuidar de si mesma”, mencionou Ana. E é exatamente nesses avanços que a pandemia deixou suas maiores perdas, reduzindo os estímulos responsáveis por desenvolver habilidades e competências.


Conforme explicou a diretora, para cada faixa etária, a pandemia trouxe efeitos específicos. No caso das crianças da Educação Infantil, as pesquisas mostram que pode haver um atraso em questões como socialização e desenvolvimento motor. O grau dos impactos vai depender de quanto essa criança foi estimulada no período em que esteve fora da escola. No caso da escritora Izilda Barbosa, ela garante que sente na pele as consequências de não ter vivido a Educação Infantil.


“Eu tenho 60 anos e uma péssima coordenação motora. Até pouco tempo, eu tinha dificuldade do domínio geográfico e me perdia constantemente, já que eu dificilmente saía de casa e era privada de brincar na infância. Então, certamente a criança confinada na pandemia vai ter suas habilidades corporais e cognitivas prejudicadas”.


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